sábado, maio 04, 2019

Cruz do meu rosário...

BOA TARDE, AMIGOS E SEGUIDORES!

HOUVE UM ERRO DE PUBLICAÇÃO, MAS MEU LIVRO JÁ ESTÁ DISPONÍVEL NO KINDLE PARA LEITURA. POR ENQUANTO, AINDA PODERÃO USUFRUIR DA PROMOÇaO...

NÓS, AUTORES INDEPENDENTES, PRECISAMOS DO SEU APOIO. APÓS A LEITURA, GOSTARIA DE LER SEUS COMENTÁRIOS, AINDA QUE PARA DIZER: GOSTEI OU NÃO GOSTEI.
OBRIGADA.


CLIQUEM NO LINK AO LADO, À SUA DIREITA, NA PARTE SUPERIOR.


Meu novo livro no Kindle: 


https://www.amazon.com/dp/1097323838

quarta-feira, abril 17, 2019

Fantasmas...(Guacira Maciel).

  (Fragmento. Em homenagem a meu pai e à terra que ele amava)

       Estou escrevendo sobre uma saga de família, da Chapada Diamantina, mas não posso continuar sem tomar partido, sem optar por uma tonalidade, fingindo que todas elas são iguais...
Hoje, aquela parece uma terra sem filhos; terra cujos seios foram sugados até sangrar; cujo ventre teve suas vísceras expostas, reviradas e devoradas por batalhões de formigas gigantes, predadoras, silenciosas, vorazes, que lhe sugaram os mais íntimos sucos, deixando-a calcinada, exangue, murcha, exaurida e caída sobre as próprias dobras de pele ressequida, onde se formaram enormes buracos que expunham como fantasmas esfarrapados, as entranhas de uma terra sem orgulho, sem pudor.
Os dedos sangrentos pelas marretadas cujas articulações mais pareciam antigas dobradiças, já invisíveis por causa do inchaço, faziam lembrar garras; dentes podres em bocas de hálito fétido, somado ao oco de estômagos completamente vazios a dias, famintos, donde só se ouviam os ecos dos gases que os empanzinavam e iludiam. Olhos cuja menina se transformara em raios febris, ardentes, que se perdiam nas noites orbitais, fundas; olhos sem brilho, vítreos, vermelhos por causa da graça do sono que não lhes fora concedida, assentados sobre caras mascaradas pelo pó que esculpia novos seres, e tão permanente nas escavações, que não poupava nem o terceiro olho que, por vezes, se lhes acrescentavam, fazendo lembrar os terríveis ciclopes. Eram restos de unhas ocres, purulentas, que rasgavam a nu a terra, ferindo e infectando sua mucosa antiga, brilhante e acetinada, buscando usufruir de um cio que não lhes era devido.
E os corações? deles, o grito ensaiado para a hora esperada, e temida, que sequer lhes chegava à garganta, por ausência da saliva lubrificante; apenas um choro seco vertido sobre corpos desidratados, quase mumificados, que  se arrastavam com seus dorsos alquebrados sobre a desistência da terra e seu silêncio dolorido. O mais inacreditável é que, ao fim do dia, do qual já nem lembravam a luz, o brilho, a cor, pareciam não ter sido afetados. Não se queixavam, não desanimavam de alcançar o objetivo primeiro; geralmente, só a morte os arrancava dali; não desistiam do seu sonho; mas de si, via-se que sim! porém, pareciam já anestesiados, não exibiam a dor que lhes oprimia o peito, fazendo abater a alma...


Na Chapada, o final do século XIX trouxe o novo regime político ( República ), e mudanças profundas, e o medo deu origem ao “coronelismo”. O governo, como alternativa de convivência com o sertanejo, começou a vender patentes - de até coronel - da Guarda Nacional, nomeando-os para ocuparem cargos na administração federal, o que fomentou uma guerra entre os coronéis de Minas Gerais e da Bahia. O lado vencedor, liderado pelo coronel Horácio de Matos, da Bahia, foi considerado o grande líder na região, porque os mineiros serranos representavam grande população nos garimpos da Chapada do lado de lá, apesar de saírem daqui da Bahia as toneladas de ouro e diamantes para a Europa e todo o mundo, ainda que as Minas Gerais fossem também uma região de subsolo muito rico e de lavra...

Antonio luso. Guacira Maciel


Hoje tive saudades
e vontade de lá chegar por acaso
e te encontrar
em frente ao cavalete
silencioso e absorto em teu parnaso
e te ler poemas…
um enigma que não tento desvendar
habitante encantado
do meu imaginário
te reconheço mas não sei quem és.
Suscitas em mim o indizível
e te prefiro assim assim te sinto
o mais puro ébano do Olimpo.
Ao ouvir meus passos
o humano te arrebata
então entre risonho e surpreso
fala mansa…
te levantas
e o tempo se sobrepõe ao eterno...
não quero tocar
o que não pode ser tocado
te quero assim
assim te quero
te quero longe
te quero luso
te quero deus...

quarta-feira, abril 10, 2019

Prólogo...Guacira Maciel


O ensino e a aprendizagem surgiram nas diversas sociedades como uma consequência natural da necessidade de sobrevivência das espécies, pela transmissão do conhecimento construído. Assim, o currículo surge como necessário à organização desse conhecimento a ser repassado e como reflexo da função social da escola, uma vez que nele estão fortemente presentes as relações de controle social, relações de poder e reprodução de valores que influirão na constituição dos sujeitos e suas identidades. Ele é o elemento dinâmico da proposta pedagógica, devendo ser entendido como espaço de conflitos que estruturam a vida da escola e como tal, um currículo precisa ser democrático, acolhendo as relações e abrindo-se à produção de significados próprios da comunidade onde ela está inserida, de forma a recriar uma proposta pedagógica dinâmica, cuja linguagem inclua o olhar divergente, para produzir resultados satisfatórios, já que deve estar ligado à como se estabelecem as relações de ensino e de aprendizagem dentro dessas realidades.
Dessa forma, a proposta curricular não pode ter um modelo imposto, uma vez que é um elemento vivo e, portanto, provisório quanto à sua temporalidade, passível de ser revista e mudada, de forma a que possa incorporar novos saberes, novas experiências e uma compreensão ampla e contextualizada de mundo e das culturas que ampliam e fortalecem as identidades. Importante estar alerta para não se perpetuar como um refém das leis, mas estar à sua frente oferecendo uma educação de vanguarda, que possa refletir as novas dinâmicas sociais, as tensões que demandam de uma sociedade mutante e a diversidade dos sujeitos; e só então buscar seu referendo.
Entretanto, para que isso possa ocorrer será necessário que reflita a forma de sentir e pensar dessa juventude que vive na contemporaneidade, cujos pressupostos encaminham para a compreensão de se aliar a cultura ao trabalho, tendo como princípio educativo um conhecimento que o conscientize quanto às formas reais deste, inclusive a possibilidade de introduzir aí, a diversidade, uma vez que, concordando com Miguel Arroyo, o mesmo tem gênero e tem raça (se sabemos que o padrão é racista); tudo isso a partir de um conceito lúcido do que seja juventude ou juventudes, como premissa.
Sabemos que a participação do sujeito jovem na dinâmica social não é vista nem avaliada de forma ampla quando são propostas as políticas de educação. É fundamental que outras dimensões do seu estar na vida, o seu universo simbólico e emocional, não apenas a sua vida funcional, sejam incluídos, de forma a que essas representações sejam mais legítimas e seu contexto cultural possa ser reconstruído e representar seu modo de viver e pensar.
Em muitas culturas existe uma tendência de se realizar estudos em que as questões do jovem(s) são olhadas apenas como dilemas, o que termina por apresentá-lo(s), tão somente, como um problema a ser encarado pela sociedade; um problema para o qual há que se buscar solução; predominantemente quando se fala em adoção de políticas para abertura do mercado de trabalho ou econômicas de um país, ou mesmo, busca de formas para incorporá-lo(s) aos sistemas de ensino, o fenômeno é sempre observado nessa ótica, o que tem trazido como conseqüência, a ausência, em suas vidas, de oferta de conhecimento e oferta de outras possibilidades; de bandeiras e de sonhos.
Para que isso possa ocorrer será necessário que se mude essa dinâmica e o(s) jovem(s) possa(m) ser ouvido(s); é importante que se possa entender o seu universo; como pensam e como gostariam de se expressar; assim, considero da maior importância que o professor conheça quais os possíveis caminhos que o conduzem à aprendizagem; quais caminhos subjetivos são percorridos, desencadeados pelas profundas mudanças fisiológicas, psíquicas, conflitos emocionais, rejeição à autoridade, ao próprio corpo, posicionamento quanto à sexualidade, à necessidade de decidir sobre o futuro, para que a aprendizagem se efetive, vez que é nesta fase que é obstado a definir para si um caminho profissional; por todas estas, entre outras motivações, se torna extremamente difícil lidar ao mesmo tempo, consigo mesmo, com os outros e com o mundo.
Em que pese já existirem muitos trabalhos de educadores e pensadores sobre a forma como se traduz o significado político e cultural de juventude(s) e considerações do que é ser jovem(s), ela deve ser vista e analisada de maneira bastante oxigenada e livre, se sabemos que os desejos, as necessidades e a incorporação de novos conhecimentos são especialmente dinâmicos e mutáveis; aberta e sem amarras ou preconceitos, vez que nenhum desses conceitos é rígido e deverão existir momentos específicos para que se considere um ou outro, pois precisarão ser consideradas questões vitais, como: situação sócio/econômica; origem étnica; questões de gênero e religião, além de todas as vivências citadas acima. Entendo de fundamental importância sejam observados os momentos em se deve levar em conta o fenômeno “juventude” no singular e/ou no plural; entretanto, o seu universo, seja como for, precisa ser considerado de forma mais abrangente, apontar para a dilatação dos seus horizontes e estimular a utopia.

Do meu livro: "A arte como possibilidade do desenvolvimento cognitivo"


segunda-feira, abril 08, 2019

Esmeraldo de Situ Orbis (Duarte Pacheco Pereira – militar, navegador e cartógrafo português). Guacira Maciel



Não foi encontrado nenhum registro documental que comprove que esse ilustre personagem da Corte Portuguesa tenha sido, de fato, um ascendente da família de Marta, mas, além do retrato a bico de pena nostalgicamente pendurado numa parede do palacete sede da fazenda, já bem mais velho que as reproduções posteriormente encontradas em pesquisas, tão vivo na memória de Isadora, apaixonada pelo assunto, consta em relatos orais de tios e antigos empregados, que a história do parentesco é verídica. E mais, em gerações posteriores da família, existem alguns descendentes homônimos, como uma espécie de homenagem póstuma ao famoso personagem.
Também não foram encontrados na pesquisa realizada, documentos que registrem sua passagem pela Bahia e nem sua permanência no Recôncavo Baiano a ponto de ter tido algum relacionamento que tenha lhe dado herdeiros, nem que tenha sido proprietário de um engenho de cana de açúcar...
Entretanto, essa história é tão cheia de elementos e de fatos coerentes, que passou a ser aceita pela parte mais velha da família que viveu na região, no período posterior àquele. Vejamos:

Entre o período em que esteve no auge de sua atuação como navegador, prestigiadíssimo pelo rei D. Manuel, e sua desgraça por razões políticas - já que o rei morrera e seu sucessor se deixara influenciar por intrigas, e é sabido que ele foi acusado de cuidar mais de seus interesses pessoais do que das questões do reino - e consequente prisão e morte, há um hiato de longos anos. Onde estivera, uma vez que sua experiência como navegador era vasta e de comprovada competência? após exaustiva pesquisa nos registros através da Internet e documentos de historiadores, não foi explicado o seu paradeiro depois de ser solto, até sua morte, “em idade avançada”...

Quanto à tese do “descobrimento”, há uma interessante análise feita por Francisco Contente Domingues, historiador, acadêmico da Universidade de Lisboa, autor de “A travessia do mar oceano. A viagem de Duarte Pacheco Pereira ao Brasil em 1498” [2012], segundo a qual, o mais importante na discussão não se refere à “descoberta” feita por Duarte Pacheco, mas ao fato de que ele teria passado pela costa brasileira e não teria visto o que deveria, simplesmente, porque a visão que tinha de mundo àquela época não o permitira, fato análogo teria ocorrido quanto à chegada de Cabral, já que os indígenas nunca haviam visto uma caravela como aquelas do período das “grandes navegações”, aliás, esse fato é amplamente explicado pela Mecânica Quântica. Da mesma forma, pode-se perguntar: o teria pensado Duarte naquela viagem, quando se deparou com aquela extensa e desconhecida terra?
No seu livro, “Esmeraldo de Situ Orbis”, Duarte Pacheco refere, mesmo que sem muita clareza, que o rei D. Manuel o teria mandado descobrir “uma tão grande terra firme a Ocidente do Atlântico”... embora seja essa tese pouco convincente aos olhos de alguns, por ausência consistente de provas.
O historiador J. Barradas de Carvalho, historiador português, autor de “La traduction espagnole du De Situ Orbis”,  em estudo sobre o famoso cartógrafo ressalta a importância da sua obra para o do Renascimento português e entende como verídica e realizada a tese da exploração chefiada por ele, cujo destino provável era mesmo a costa brasileira, tendo passado além da linha definida no Tratado de Tordesilhas, razão pela qual o “Esmeraldo” foi guardado por tantos anos.
Também na interpretação do historiador Jorge Couto, em seu livro “A construção do Brasil”, dados ali registrados poderiam, sim, comprovar que Duarte Pacheco Pereira realizou essa missão tendo atingido a costa brasileira na região do Maranhão e foz do Amazonas, com a intenção de calcular a localização do meridiano de Tordesilhas, se aproximando do litoral brasileiro, que pertenceria à Espanha, o que não inviabiliza o fato de que tenha estado na Bahia em suas andanças posteriores. Esse aspecto político-diplomático explicaria o fato de o rei de Portugal ter escondido o feito e os resultados obtidos pela expedição realizada pelo cartógrafo.
Muitas são as versões sobre a vida e a permanência de Duarte Pacheco no Brasil, inclusive, de que teria, em aqui ficando, traficado africanos para serem escravizados, sendo uma possível explicação para a fortuna que voltara a acumular, já que a havia perdido por ocasião de sua prisão, mesmo que  tivesse, ele e sua família, voltado a receber dinheiro da coroa após a soltura... se é verdadeiro ou não,  é muito difícil comprovar, mas também não seria uma hipótese impossível, uma vez que o famoso personagem, como já referido, caira em desgraça com a morte do rei D. Manuel, em 1521, e ascensão de D. Jõao III.
Em 1490 figurava como membro da guarda pessoal do Rei; em 1494 estava entre os representantes escolhidos por D. João para negociar a fixação dos limites do Tratado de Tordesilhas. Apesar de tão questionado, uma das passagens mais debatidas do Esmeraldo parece indicar a sua participação numa expedição enviada por D. Manuel ao Atlântico Sul, em 1498, onde teria sido vislumbrada uma considerável massa de terra firme, que seria o Brasil, cuja população indígena do litoral é descrita, na obra, com detalhes: “… são pardos quase brancos; e estas são gentes que habitam na terra do Brasil, de que já no segundo capítulo do mesmo livro fizemos menção”.
Sua grande experiência náutica e cosmográfica o teriam levado a participar de outras importantes expedições, com muitos êxitos, que trouxeram considerável reconhecimento e consequente melhora na sua condição social.
Por volta de 1508, teria começado a escrever o Esmeraldo de Situ Orbis, precisando interromper, pois, entre 1509 e em 1510 fora de novo convocado a servir a Coroa, no mar.
Em 1519, Duarte Pacheco Pereira voltou à África como capitão da fortaleza de S. Jorge da Mina. No entanto, a morte do rei, em 1521, acabou com esse rico período da vida e da carreira de Duarte Pacheco Pereira, terminando em desgraça em conseqüência da nova conjuntura política que elevou D. João III ao trono. Em 1522, Duarte foi aprisionado e encaminhado de volta ao reino, com uma acusação pouco convincente, que culminou com a total perda de seus bens.
Apesar de ter sido inocentado e posto em liberdade, nunca mais ele conseguiu o prestígio anterior. Os problemas com a Coroa se prolongaram, obrigando-o a lutar pela restituição dos seus bens e pelo pagamento “atempado da tença” anual à qual tinha direito. Nessas condições, ele chegou a se colocar à disposição para serviço do Imperador Carlos V, chamado Imperador do Mundo (de Espanha e Alemanha), o que nunca se realizou.
Consta que viveu em Portugal até o final de sua vida, tendo falecido em data desconhecida, entre os anos 1531 e 1533.
Porém, cabem aqui alguns questionamentos: um homem inteligente, dinâmico e grande conhecedor dos segredos dos caminhos náuticos e dos Oceanos, e de tão gandes conhecimentos de astrologia, conhecido pelos seus feitos militares, mitificados pelos cronistas e cantados por poetas como Luís de Camões, autor de uma obra inquestionavelmente importante para a navegação, cujos quase exatos cálculos, até hoje não foram refutados, teria se conformado em morrer na quase miséria e no ostracismo, podendo fazê-lo de forma totalmente diferente e aventureira, como era da sua natureza? seus amplos conhecimentos o teriam deixado conformado em casa, inútil, podendo voltar por conta própria, apesar dos parcos recursos, a explorar o mundo, ou mesmo o Brasil e seu extenso e luxuriante litoral, que não lhe era desconhecido?
Bem... que certeza se tem de que o Esmeraldo, cuja escrita fora interrompida em 1508, teria mesmo ficando inacabado? a cópia conhecida e registrada pela História, diz: “foi publicada pela primeira vez em 1892, ficando, desde então, clara a sua importância como roteiro náutico e geográfico, tratado cosmográfico e relato histórico, súmula do conhecimento adquirido por Duarte Pacheco Pereira ao longo da sua existência”. Seria ela, conhecendo-se sua importância, a única e verdadeira cópia se ele tivesse voltado à aventura dos mares?
Será que Duarte, tendo conhecido a potencial grandeza de tão misteriosa e rica terra, “uma tão grande terra firme”, nas atuais circunstâncias, sem compromissos reais, a ignoraria? e mais, ele também esteve em missão na África e conhecia os roteiros de navegação, e a situação econômica dos habitantes da “Colônia” – o Brasil -, que precisavam de mão de obra barata para o cultivo da cana de açúcar. Por que a hipótese não comprovada de que tenha feito viagens para traficar pessoas para serem escravizadas pelos fazendeiros seria tão inverossímil?
Outra não tão improvável seria a versão de que teria vivido no Recôncavo Baiano e lá fundado, ele mesmo, um Engenho de cana-de-açúcar e deixado descendentes...
Seriam essas convergências tão absurdas? absurda mesmo, seria a versão de que tenha se conformado em viver no ostracismo e na miséria, podendo ter uma vida extremamente aventureira, sedutora e lucrativa, no caso do Engenho, embora esse pudesse ter sido um desdobramento ou consequência do possível tráfico de escravos. Além de todas essas questões, tem o fato de ter sido tratado de forma injusta pelo do rei e ficado inconformado em viver no esquecimento e sem condições financeiras, depois de ter sido cantado nos versos de Camões...

Pesquisa realizada pela autora, para o romance "Cruz do meu rosário; um amor na Chapada",  que, entretanto, foi excluída do mesmo.


quarta-feira, agosto 29, 2018

Histórias para Arthur. Literatura Infanto juvenil (Guacira Maciel)


                                       
                   Raízes da Cultura Brasileira para crianças;
             contando a verdadeira história. (Trilogia).
     
  

    Livro I -     Índios; os donos da terra

    Livro II -    Navegadores portugueses; esses seres
                        estranhos

   Livro III -   Africanos; escravizados na nova terra




  Ensino Fundamental de 1º ao 5º ano; com sugestão de trabalho para a sala de aula



                                            

 Buscando uma Editora para publicar este trabalho.
                                                




                                                              Apresentação
   


Ao nascer o meu primeiro neto, não me saiu da cabeça que ele não poderia crescer sem saber a verdadeira História do seu povo, e comecei a pensar numa forma de fazer isso,  para que ele já cresça sabendo a verdade, mesmo que na escola, por algum tempo, ela ainda vá ser contada de forma fantasiosa...
Mas como fazer isso? Pensei...
Não queria que ele a entendesse como história do meu imaginário de avó, que  conta histórias inventadas na hora de fazê-lo dormir; por esta razão, resolvi publicá-la para que outras pessoas: avós, mães, e, finalmente, os professores, as escolas e a sociedade pensem no assunto, analisem essa possibilidade e tomem atitudes que possam ampliar a ideia a instâncias mais amplas... Sei não ser uma decisão fácil, como não tenho a ilusão de que será uma longa caminhada de reconstrução, uma vez que a atual versão foi elaborada do ponto de vista do “vencedor”, e se arrasta por séculos...
A partir dessas conclusões, comecei a aprofundar meus questionamentos: quanta verdade estaria contida nos conhecimentos que constituem a História que nos contam? Em minhas reflexões cheguei a concordar com alguns historiadores sobre se o nosso país é híbrido ou profundamente ambíguo... O que, realmente, constitui a nossa identidade como povo, se o que consideramos nossos símbolos, não são apresentados em sua versão verdadeira, ainda que não genuinamente nossos?
A disseminação, insistente, de uma história distorcida por interpretações errôneas e tendenciosas, contada do ponto de vista do ‘vencedor’, como sempre ocorre, trouxe como legado a construção de uma memória com raízes flutuantes, fato reconhecido por todos, embora falte coragem para promover a mudança. Quem somos nós, povo brasileiro? Qual a nossa verdadeira História? O que na nossa cultura, é mito, lenda, distorção ou fruto de interpretação, muitas vezes preconceituosa, já que, invariavelmente, a versão se sobrepõe ao fato histórico, com a finalidade de atender interesses dúbios?
Bem, decidi contar a Arthur o que ainda está coberto por um véu de imaginário, mas que, se for encarado com sensibilidade e honestidade, será desvendado...
Os textos são leves, curtos e pouco densos e a linguagem bastante adequada e compreensível, para que esses conhecimentos se acomodem de forma natural e firme nas cabecinhas infantis, mas a intenção é mais profunda... É ajudar a desconstruir distorções que considero graves, porque se tornaram alicerce para uma grande fábula...



                                                    Justificativa

            O Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), em seu Artigo 58, refere: “no processo de educação respeitar-se-ão os valores culturais artísticos e históricos próprios do contexto social da criança e do adolescente, garantindo-se a estes a liberdade de criação e o acesso às [verdadeiras] fontes de cultura”.

              Tomando essas orientações como premissa, entendo ser uma atitude de respeito e reconhecimento dos direitos dos cidadãos, alvo desse importante documento, garantir que passem a conhecer gradativamente os verdadeiros fatos históricos e as culturas   formativas da “Cultura Brasileira”, em uma versão, inicialmente, mais amena, para que alicerces firmes vão sendo constituídos.
No papel de educadora, me pergunto: por que continuamos a divulgar entre nossas crianças e jovens uma História falsa, tendenciosa, mitológica e recheada de monstros sagrados inventados? A História que é contada nos livros didáticos é da carochinha, porque se fundamenta em personagens fictícios, embora referendada e perpetuada, por atender a interesses de pessoas, de grupos, de Instituições e até de países. Urge dessacralizar essa construção contando a verdadeira História, ainda que híbrida. Não podemos continuar a falar com eles sobre responsabilidade, honestidade, sobre formar cidadãos críticos, se reafirmamos cotidianamente essa falta de clareza nas escolas. Precisamos reconstruir nossa identidade, baseada na verdade, e fincar nossas raízes em solo firme, para que elas possam se aprofundar, se fortalecer e ramificar, levando esse povo a ter orgulho do que realmente é. Partindo dessa compreensão e entendendo a necessidade de reunir coragem para isso, falarei sobre alguns mitos criados por interesses historicamente aceitos; nesse caso, não procede o fato de que, por ser aceita por um povo através dos séculos, uma história inverídica termine por se tornar uma verdade.
 Com a compreensão de educadora que trabalha com cultura e com a nossa identidade como povo, entendo, em primeiro lugar, ser fundamental a criação de um novo calendário, baseado na nossa verdadeira História, em fatos verdadeiros. Mas para que isso seja possível precisamos contá-la.
Até quando as escolas ensinarão às nossas crianças fatos históricos diferentes daqueles que realmente ocorreram? Esses são brasileiros que continuarão sendo enganados até que cheguem a uma idade em que começarão a se fazer perguntas e a fazerem as próprias descobertas. É como negar a um filho a sua verdadeira paternidade e anos mais tarde ele venha a descobrir que tudo o que construiu e pensava fazer parte da sua identidade era uma mentira. Entender, desmistificar e conviver com essa fantasia, fatalmente, irá gerar muitas dúvidas, muitas dificuldades, medos  e, até, vergonha do seu pertencimento étnico.  Há poucos dias, em uma das minhas incursões pelos distritos de Senhor do Bonfim – Bahia – numa escola de Missão do Sahaí - comunidade remanescente de índios – conheci, apresentado por uma professora, um adolescente que tem vergonha, e nega, ser índio, porque segundo ele, os outros jovens fazem gozação, chamam, a ele e a outros jovens da mesma origem, de selvagem, burro, etc.
Também é injusto que tantas pessoas dediquem suas vidas a estudos, com objetivo de buscar, descobrir e evidenciar essa identidade, essa gênese histórica - muitas vezes desafiando o poder dominante, ora na ficção, através de personagens, ora em incansáveis estudos e pesquisas sobre fatos não revelados, mostrando os “heróis de nossa gente”, em que buscam desconstruir fatos, e personagens reconhecidamente verídicos, dando a conhecer os pequenos heróis que subjazem no limbo da historiografia brasileira, desenvolvendo uma espécie de “anti história” o que, de certa forma, vem desterritorializando as estruturas político sociais, que têm interesse em continuar contando a história do ponto de vista do ‘vencedor’ - e a essas pessoas seja negado o direito de conhecer os resultados de tão árduo e incansável trabalho. O que ficará suavemente evidente aqui, através de uma linguagem delicada e apropriada acerca dos donos da terra, da “colonização” e da escravização de pessoas, é a minha intenção de começar a mostrar a versão que não é contada nos livros didáticos, nem na Literatura,  ou seja, a compreensão de que a História é contada de forma tendenciosa, resultando em uma História imaginada e estabelecida por aqueles que se consideram “elites étnicas e sociais”, reforçando o que há muito se vem denunciando. Sabemos que as fronteiras dessa História estão povoadas de versões das minorias invisíveis, das assombrações, dos fantasmas que amedrontam, não significando, porém, que não existam, mas que, forçosamente, têm construída a sua morada num “entre lugar”, como os,  verdadeiramente, sem teto, sem terra, sem camisa (padrão) do time, lugar onde precisa se alojar a “intervenção crítica”.
Nesse caso, a “heterogeneidade não se homogeneíza” na unidade da história que já foi contada; ao contrário, é uma voz que se levanta e resiste como uma realidade contraditória, embora subjacente, indelével; similares a operadores booleanos, esses fantasmas definem seus caminhos e estratégias de busca, com um software específico. A História desse país se oferece como um rico hipertexto, em que nós, os sujeitos do conhecimento, precisamos nos recusar a seguir em frente ignorando aquilo que não foi contado ou o foi de forma distorcida, para descortinar um rico percurso que subjaz nas entrelinhas, nas fronteiras, no limbo...
É preciso rever essa História e desalojar esse estado de epifania que ela assegura aos que a vêm contando até hoje. Ela é uma ficção gestada nos descaminhos da História real, porque comprovações documentais vêm sendo encontradas e contam a outra versão; elas são avaliadas por estudiosos e não podem ser desconsideradas. Fundamentada no pensamento de Boudelaire, também uma verdade absoluta e eterna inexiste, ou melhor, é ficção que se torna pobre diante do fato de não se considerar outras possibilidades, outras dimensões, até porque, a escrita da História oficial está fundamentada em mecanismos ideológicos. É importante, fundamental mesmo, que esse foco sacralizado seja deslocado, desterritorializado, estabelecendo-se, no mínimo, um processo dialógico com as outras percepções, em busca da História verdadeira.
Em “Meu querido canibal”, de Antonio Torres, há o impressionante episódio que, presume-se ter durado de 1554 a 1567, a “Confederação dos Tamoios”, que para o historiador Edmundo Moniz, foi um dos mais importantes capítulos da nossa História e considerada como a primeira reação [organizada] dos nativos, donos da terra, que desestabilizou a confiança dos “colonizadores”, que, entretanto, “não estavam iludidos quanto ao potencial de investida dos Índios sobre o território de São Paulo e Santos, uma vez eram donos de grandes extensões, como parte dos territórios do Rio de Janeiro e São Vicente”. Porém, uma traição ao tratado de paz entre os Tamoios e os Jesuítas levou os “colonizadores” à vitória. A falsa trégua foi, na verdade, um ardil utilizado para ganhar tempo, enquanto esses estrangeiros recebiam reforços e atacavam os desavisados e confiantes nativos. E assim, entre milhares de outros exemplos, foram forjados os heróis da História do Brasil.
       

                           Objetivo Geral


 Dar um pequeno passo no longo e árduo caminho da verdade, para começar a contar às nossas crianças a sua verdadeira História, a História do Brasil                         


                      
                           Objetivos Específicos


  • Contar às crianças uma bonita e verdadeira história: a História do Brasil.
  • Usar o recurso das lendas para ajudá-las a estabelecer diferenças e limites entre verdade e fantasia.
  • Levar ao seu conhecimento como ocorreu, de fato, a formação do povo e da cultura do Brasil.
  • Falar especialmente sobre os primeiros habitantes e donos das terras.
  • Desconstruir o mito da “colonização”,  evidenciando os aspectos da dominação.
  • Refletir sobre a diferença entre índios  “preguiçosos e indolentes” e diferenças culturais.
  •  Refletir sobre a diferença entre “negros escravos” e “negros escravizados”
  • Evidenciar a importância da cultura européia na formação da cultura brasileira e
           as relações que se criaram entre as três culturas formadoras da mesma
  • Mostrar a beleza, inclusive nas artes, das nossas raízes culturais.
  • Abrir espaços ao professor e estimular o trabalho interdisciplinar.
  • Estimular o imaginário das crianças
  • Ajudar na formação de leitores.


 A leitura no processo de ampliação cognitiva


Para a Neurociência, “Cognição refere-se a um conjunto de habilidades cerebrais/mentais necessárias para a obtenção de conhecimento sobre o mundo. Tais habilidades envolvem pensamento, raciocínio, abstração, linguagem, memória, atenção, criatividade, capacidade de resolução de problemas, entre outras funções.”
A Literatura infanto juvenil tem ação importante como coadjuvante no processo de
reconhecimento, aceitação e fortalecimento das identidades, que deve ser iniciado nessa importante fase da vida, porque o faz de forma lúdica, já que a fragilidade infantil é fortemente agredida pelos preconceitos, e a Literatura trabalha suave e sutilmente essas dores guardadas, encaminhando para a construção da auto estima positiva e, quem sabe, da cura. Os preconceitos precisam sair do limbo onde são gestados e sobrevivem, incomodando, de forma silenciosa e subjacente, para que sejam reconhecidos e tratados com os devidos cuidados.
A Literatura, como arte, faz esse papel de conciliação entre os dois universos, porque evidencia as questões mais íntimas, guardadas como forma de proteção. Nessa perspectiva, ela também enriquece, amplia e aprofunda o processo cognitivo infantojuvenil, porque estimula a criatividade que é um processo tão subjetivo quanto a própria cognição




quinta-feira, julho 05, 2018

Os números... Guacira Maciel


Os números...




Hoje pela manhã, tomava calmamente o meu cafezinho descafeinado e fumegante, enquanto pensava no significado nada ortodoxo que os números têm para mim... sempre tive uma percepção algo esquisita sobre eles, mas essas reflexões me vieram à mente mais uma vez, hoje, porque, como sempre faço todas as noites, dei uma olhada no meu blog e vi o número de votos que, milagrosamente, ainda está sendo registrado, uma vez que a votação para um concurso foi encerrada e os três finalistas escolhidos. Devo dizer que valorizo muito o fato de votarem em meu blog, porque isso se traduz num retorno, que é um incentivo ao meu empenho para escrever mais, buscando imprimir sempre mais sensibilidade e qualidade aos textos.
Bem...voltemos aos números e à impressão estranha que me causam... aguda sensação de que quinhentos e quarenta ou setenta ou noventa, não importa, é maior que seiscentos; que setecentos e trinta ou quarenta ou oitenta é maior que oitocentos e por ai vai. Posso explicar: os zeros me dão a ideia de imprecisão, e não, de infinitude...
Sei que isso poderá parecer incompreensível, incongruente; aliás, me perdoem os matemáticos, mas isso é muito forte e vivo em minha imaginação, embora me encante o ifinito; não gosto de nada fechado e os zeros me dão essa forte impressão... .até porque, mesmo que o zero não seja um conjunto vazio, e sei que não é, ele é a representação de algo concluído e com restrição ao infinito; elemento de um universo que pressupõe limite, e a representação numérica sem ele me dá a sensação de muitas possibilidades, de caminhos e de caminhar...Deve ser essa forte sensação de transitoriedade que vejo em tudo, mesmo nos infinitos...
Mas não pensem que não sei ou deixe de valorizar a importância que o zero tem, estando à direita no meu salário, por exemplo... ali, aceito tantos zeros quantos quiserem acrescentar...



quinta-feira, junho 28, 2018

Fantasmas... (Guacira Maciel)


      
         (Fragmento. Em homenagem a meu pai e à terra que ele amava)

       Estou escrevendo sobre uma saga de família, da Chapada Diamantina, mas não posso continuar sem tomar partido, sem optar por uma tonalidade, fingindo que todas elas são iguais...
Hoje, aquela parece uma terra sem filhos; terra cujos seios foram sugados até sangrar; cujo ventre teve suas vísceras expostas, reviradas e devoradas por batalhões de formigas gigantes, predadoras, silenciosas, vorazes, que lhe sugaram os mais íntimos sucos, deixando-a calcinada, exangue, murcha, exaurida e caída sobre as próprias dobras de pele ressequida, onde se formaram enormes buracos que expunham como fantasmas esfarrapados, as entranhas de uma terra sem orgulho, sem pudor.
Os dedos sangrentos pelas marretadas cujas articulações mais pareciam antigas dobradiças, já invisíveis por causa do inchaço, faziam lembrar garras; dentes podres em bocas de hálito fétido, somado ao oco de estômagos completamente vazios a dias, famintos, donde só se ouviam os ecos dos gases que os empanzinavam e iludiam. Olhos cuja menina se transformara em raios febris, ardentes, que se perdiam nas noites orbitais, fundas; olhos sem brilho, vítreos, vermelhos por causa da graça do sono que não lhes fora concedida, assentados sobre caras mascaradas pelo pó que esculpia novos seres, e tão permanente nas escavações, que não poupava nem o terceiro olho que, por vezes, se lhes acrescentavam, fazendo lembrar os terríveis ciclopes. Eram restos de unhas ocres, purulentas, que rasgavam a nu a terra, ferindo e infectando sua mucosa antiga, brilhante e acetinada, buscando usufruir de um cio que não lhes era devido.
E os corações? deles, o grito ensaiado para a hora esperada, e temida, que sequer lhes chegava à garganta por ausência da saliva lubrificante; apenas um choro seco vertido sobre corpos desidratados, quase mumificados, que  se arrastavam com seus dorsos alquebrados sobre a desistência da terra e seu silêncio dolorido. O mais inacreditável é que, ao fim do dia, do qual já nem lembravam a luz, o brilho, a cor, pareciam não ter sido afetados. Não se queixavam, não desanimavam de alcançar o objetivo primeiro; geralmente, só a morte os arrancava dali; não desistiam do seu sonho; mas de si, via-se que sim! porém, pareciam já anestesiados, não exibiam a dor que lhes oprimia o peito, fazendo abater a alma...
Na Chapada, o final do século XIX trouxe o novo regime político ( República ), e mudanças profundas, e o medo deu origem ao “coronelismo”. O governo, como alternativa de convivência com o sertanejo, começou a vender patentes - de até coronel - da Guarda Nacional, nomeando-os para ocuparem cargos na administração federal, o que fomentou uma guerra entre os coronéis de Minas Gerais e da Bahia. O lado vencedor, liderado pelo coronel Horácio de Matos, da Bahia, foi considerado o grande líder na região, porque os mineiros serranos representavam grande população nos garimpos da Chapada do lado de lá, apesar de saírem daqui da Bahia, as toneladas de ouro e diamantes para a Europa e todo o mundo, ainda que as Minas Gerais fossem também uma região de subsolo muito rico e de lavra...

Do meu romance, a ser publicado em breve: "Cruz do meu rosário; um amor na Chapada".



terça-feira, junho 26, 2018

Pois é.... (Guacira Maciel)

Voltei...voltei, depois de um tempinho sem postar e sem inspiração para escrever, porque minha maior fonte de inspiração, meu companheiro de outras vidas, desencarnou antes de mim, como queria...apesar de eu ter dito que queria ir primeiro, daqui a mais uns aninhos....




 A prestigiada Sorbonne foi criada por Roberto de Sorbon, em 1257, onde, inicialmente, eram deliberadas as questões gerais da Faculdade de Teologia, vindo depois a ser conhecida com o atual nome, Sorbonne, e a ganhar lugar de destaque na sociedade, inicialmente, por intrometer-se em questões sobre as quais não tinha autoridade para arbitrar. Mas seu poder se tornou tão grande, que, com frequência, era consultada para opinar sobre contendas as mais inusitadas, como assuntos legais. Entretanto, ela sempre foi uma referência, sendo sua Biblioteca, considerada a Oitava Maravilha, e sua Metodologia de ensino e oráculos como modelos. Mas ela, pretensiosamente, se envolvia em outras áreas, chegando a emitir veredictos que eram inquestionáveis, influenciando a opinião pública, e os juízes não ousavam contrariar. Por exemplo, quando Martinho Lutero, monge agostiniano e professor de teologia, se insurgiu contra a igreja católica, e o que entendeu abuso de autoridade papal, a questão não teve repercussão a não ser nos meios eclesiásticos. Naquela época, poucos tinham acesso à Bíblia, inclusive porque a única tradução disponível estava em latim, e, como Lutero sabia ler latim, além da língua hebraica, língua original em que fora escrita,  esse conhecimento permitiu que ele explicasse as Escrituras para que as pessoas comuns pudessem entender, chegando a criticar a igreja católica por estar manipulando-as e se desviando da verdade. No entanto, o que mais chamou a atenção e tornou Lutero mais conhecido, foi sua coragem e a revolta contra a venda de indulgências por parte de padres, que ensinavam ser possível comprar o perdão dos pecados mediante o pagamento de dinheiro à igreja; eles chegavam a montar uma espécie de tenda para a venda à frente dos templos... esse comércio absurdo inspirou Lutero a escrever as ”95 Teses", provocando um grande debate com a liderança da igreja católica. Já tinha havido outras tentativas de reformar a igreja, em vão; as pessoas que ousaram eram ignoradas ou firmemente perseguidas. A insurgência de Lutero desagradou a Sorbonne, que o acusou publicamente de “herético, falso profeta e anticristo”, transformando a questão em algo muito maior e mais sério, banindo o monge dos seus espaços de ensino do grego. Ela afirmou que o estudo dos clássicos conduzia à heresia e quem se dispusesse a ler a Bíblia no original, e procurasse aprender o hebreu, era destinado a morrer queimado. Em sua ortodoxia, só os padres regulares podiam “estudar escritos antigos e analisar as novas contribuições da civilização”. Fato é que Lutero não foi queimado, embora perseguido pela Inquisição, e, tendo se recusado e desmentir suas afirmações, foi excomungado da Igreja Católica. A partir daí, ele e aqueles que o apoiavam, inclusive muitos nobres que não gostavam da interferência da igreja em seus assuntos políticos, foram, definitivamente, separados de outros católicos e fundaram igrejas que ficaram conhecidas como Protestantes. Esse movimento cresceu e se espalhou pelo norte da Europa. Martinho Lutero continuou sua vida de pregações e professor, se casou com uma ex freira, teve alguns filhos e morreu aos 63 anos. 

 (Referência, J.W. Rochester, do livro “A noite de São Bartolomeu”).

terça-feira, junho 19, 2018

Prólogo...Guacira Pacheco Maciel


Os textos reunidos aqui, compõem uma parte da trajetória da minha vida. Neles, sou fiel à minha forma de enxergar o mundo ao meu redor, sendo o que têm em comum, além da clareza de pensamento e da natureza um tanto visionária de uma professora. Alguns foram escritos quando experimentava episódios dos mais interessantes ou engraçados aos mais esdrúxulos, como: aulas, missas, festas e reuniões de colégios e até velórios e enterros, inclusive, por ocasião de viagens feitas a propósito do meu trabalho como educadora, principalmente ao interior do estado da Bahia, onde escutava de professores e pessoas da comunidade as mais inesquecíveis prosas...
Outros, resultam de reflexões e observações acerca do meu próprio comportamento diante de fatos da vida real, ocasiões em que pude experimentar, e suportar, alguns sofrimentos e constatar a existência de momentos em que a prisão deixa de ser uma metáfora ao olhar poeta, e outros ainda, em momentos de verdadeiro estado de epifania diante do grandioso espetáculo da Criação, sendo o mar a mais eterna e transitória das realidades, em que a alma se identifica com a obra.
Essa é a minha melodia...


quinta-feira, setembro 07, 2017

A Interdisciplinaridade (do meu livro A importancia da....


 Esta é uma dificuldade histórica para as nossas escolas. Por mais que venhamos tentando propor um projeto interdisciplinar - que me lembre fazemos isso desde 1996, com a mudança da LDB –, por mais que tentemos atender as necessidades dos estudantes em relação ao ENEM, ainda não atingimos o que seria o pensamento-base, fundamental à compreensão do que seja interdisciplinaridade em seus espaços; e não existe aqui uma receita, estamos buscando refletir sobre todas as questões expostas e os posicionamentos de alguns pensadores. Nessa perspectiva, entendo fundamentais as representações sociais dos contextos, entendendo-se que eles, e por conseqüência, a própria interdisciplinaridade, são temporários.
Não se trata de buscar cura para uma enfermidade – o trabalho no âmbito das disciplinas – uma vez que não podemos prescindir dos conhecimentos inerentes a cada um como uma etapa da construção do conhecimento, mas de pensar num processo dialético, que se contrapõe a um paradigma considerado isoladamente. Trabalhar de forma interdisciplinar não é, absolutamente, misturar conhecimentos/conteúdos, mas abrir perspectivas para perceber a dimensão de conjunto que representam; expor essa face ampla do conhecimento; criar um movimento, significando dizer que é necessário buscar a dimensão existencial do que precisa ser aprendido, ou seja, a partir do contexto, com o entendimento de que o conhecimento não ocorre em campos isolados. É preciso respeitar o lócus de cada campo, assim como reconhecer os pontos de convergência, aproximando saberes específicos, e de afastamento em outros momentos, sendo importante que cada especialista consiga transcender os seus limites, tendo consciência de que, em determinados momentos, será preciso acolher as contribuições de cada disciplina. E digo mais, será o professor quem terá que fazer isso, num esforço pessoal e de grupo, sem esperar que sejam criadas pelos sistemas, condições e oportunidades favoráveis ao seu trabalho; ele é quem melhor saberá fazê-lo.
Quando se pensar em fazer um questionamento aos estudantes, entender a importância de obter respostas pensadas, pesquisadas, elaboradas; afinal, não é isso o que queremos ao afirmar que a escola contemporânea deve formar sujeitos críticos, com autonomia intelectual, reflexivos e com condição de aprender a aprender, ou de ascender à posição de autodidatas? Esta teoria, me parece, entra em sintonia com o campo da filosofia do sujeito, que destaca a prevalência das idéias (sujeito que pensa), sobre os objetos. Concordando com Ivani Fazenda, cujo foco é pedagógico, entendo que a interdisciplinaridade precisa descobrir, ou dar visibilidade ao talento potencial que todos temos. Dessa forma, é importante que os indivíduos aprendam a “perguntar e reconheçam a importância desse ato”. Para isso as Universidades deveriam realizar o movimento no sentido inverso: fazer “perguntas existenciais [contexto] para obter respostas [refletidas – sujeito pensante] inesperadas [ talento, sujeito criativo]”, pois sabemos o quanto o conhecimento nascido no senso comum, extraído dos contextos, é desconsiderado por elas, embora tão importantes, voltando a Erasmo de Roterdã, quando disse em sua proposta: “fazer [o conhecimento] sair pelo trato” . Essas respostas inesperadas trazem à tona os talentos subjacentes.
Todos sabemos que o conhecimento escolar se constitui um recorte a partir de uma seleção que expressa interesses e representa as relações de poder – nesse sentido ele é muito representativo – e, em sendo assim, só evidencia o que interessa a determinados grupos ( inclusive editores), ocultando, por outro lado, o que não lhes interessa. Por esta razão, é tão importante que o professor da disciplina faça uma avaliação do que ele sabe que é possível ser aprendido nas etapas do processo educativo, e assim, daquilo que deve ser trabalhado. Não existe nenhuma determinação contrária a isso.
Pequenas comunidades que têm um projeto de educação, uma vez que elas tomaram a si uma responsabilidade que os sistemas institucionalizados já não dão conta, precisando ter também, da parte desses mesmos sistemas, compreensão quanto à importância da autonomia para selecionar conhecimentos a serem trabalhados (desde que justificados no PPP – Projeto Político Pedagógico - das escolas existentes nesses contextos, sem deixarem de ampliar as perspectivas para outros universos). Entretanto, os sistemas, a sua institucionalização, são tão rígidos, querendo prever e controlar tudo, que terminam por não ter como administrar a si mesmos, e se tornando ineficazes.
Seria mais proveitoso que assim se procedesse, do que transformar os currículos em padrões, numa oferta reducionista, e ainda assim, não poderem oferecer a necessária qualidade. Lógico, um currículo desses se fecha sobre o que é absolutamente indispensável, com um determinismo redundante, dando-lhe um caráter raso, superficial, que terminará por se retrair, inclusive, ao olhar divergente e à pluralidade. 
Sabemos que ensinar implica em limites, mas a aprendizagem ocorre durante toda a vida e em espaços múltiplos - até de forma imperceptível -. Ademais, cada sujeito o fará de forma pessoal; seria a percepção do invisível, do inevidente, do qual tão bem nos fala Mauro Maldonato (em palestra). E cada indivíduo o fará, de acordo com condições muito peculiares à sua forma de perceber o mundo, suas querências, seus objetivos, seu caminho/trilha e seu momento. Desta maneira, se poderá perceber a coerência de uma aprendizagem contextualizada, uma vez que o contexto é temporário; ele se aplica a uma situação momentânea, ou seja, uma aprendizagem acontece naquele momento por um motivo, que é uma situação muito fugaz.
Ocorre, assim, um complexo sistema de autoconstrução X autodestruição, podendo-se fazer uma analogia – grosso modo – com o sistema digestivo animal: alimentação (que atende a uma necessidade temporária), processamento dos alimentos, seleção (aproveitamento/descarte, ou seja, o organismo vai ficar com o que atende necessidades temporárias e descartar o que já não lhe serve). Dessa forma, entende-se que não existe uma metodologia (que implica em uma filosofia) que vá ajudar a construir uma verdade absoluta e perene. Ela se alimenta do paradigma identificado como importante para aquele momento, e depois abre seu foco para os subsequentes.
Mas já que estamos fazendo considerações, reflexões, será bom acrescentar o pensamento de alguns teóricos como suporte. Japiassu(1996), cujo foco é epistemológico, interroga: será mesmo importante que os especialistas encontrem um consenso, uma vez que algumas teorias científicas abrem mão da idéia de totalidade e completude, para buscar a universalidade da prática e não de uma teoria afirmada a priori? A compreensão exposta aqui é exatamente esta; abrir mão de qualquer pretensão de hegemonia quanto à forma de construção do conhecimento – ou se afastar da disciplinaridade – embora na perspectiva da anterioridade do seu conceito ela possa ocorrer, e depois buscar a universalidade na aplicabilidade, na prática. Já Jantsch e Bianchetti  (1997) entendem que as discussões que ocorrem atualmente sobre interdisciplinaridade são hegemônicas, com tendência para privilegiar a ação em detrimento do episteme. A teoria marxista
dialética à qual se referem Railda F. Alves e Maria do Carmo E. Brasileiro poderia fazer sentido na medida em que consigo entender que a disciplinaridade é parte do processo de construção de um conhecimento que vê as representações sociais (contexto) como processo histórico. A partir daí espera-se que a escola possa evoluir para uma opção que, compreendendo a disciplinaridade como parte do processo de construção do conhecimento/aprendizagem, consiga estabelecer relações que aproximem os saberes. Até porque, além da compreensão de que a educação básica trabalha com recortes do conhecimento, se faz mister o atendimento  à filosofia e à política evidenciados no PPP;  e mais o que foi dito nas primeiras páginas deste livro sobre o conhecimento acontecer por outros caminhos e experiências e a possibilidade de a escola poder trilhar aquele que seja factível à comunidade que atende. 


Em que pese a inquestionável importância da leitura dos teóricos, dos especialistas que fornecem elementos para a compreensão dos conceitos e das teorias, assim como a superação da superficialidade pela formalização do objeto de pesquisa, é necessário que, a partir daí, a escola evolua para uma opção, conforme referido acima ou seu projeto pedagógico e sua proposta curricular ficarão à deriva. Voltando a Ivani Fazenda, que analisa a questão sob a ótica pedagógica.

quinta-feira, abril 06, 2017

Analogias entre representações de signos culturais na obra de Machado de Assis, Literatura da segunda metade do século XIX no Brasil, e representações desses signos na Literatura contemporânea.

Percebe-se uma similaridade entre a natureza das representações do contexto da vida brasileira da segunda metade do século XIX, nos signos culturais evidentes na riquíssima e desafiadora obra de Machado de Assis, sabendo-se que ele tinha consciência de estar formando um público leitor das questões eminentemente brasileiras, ao explorar personagens, ambientes e situações desse contexto, quando o leitor comum ainda tinha como referência as traduções do romance francês do período anterior, e os signos da cultura contemporânea, em que se vê representada uma grande diversidade, em consequência das profundas mudanças ocorridas na sociedade brasileira, com símbolos extremamente robustos, consciente dessa realidade, em que grupos antes excluídos, hoje fazem valer seu direito de se representar.   
Machado explorou um contexto de diversidade, e profundamente transitório e movediço, pois sua trajetória se iniciou ainda durante o romantismo do início do século. Entretanto, em sua obra, a presença da experiência contemporânea, plena de dramas profundamente humanos e alvo da hipocrisia e do preconceito, mesmo que de forma sutil, se fazem representar, suscitando a necessidade de muitas indagações. O comportamento do homem diante de suas próprias pequenas tragédias do cotidiano parecia interessar-lhe sobremaneira. Como e quais caminhos teria percorrido para explorar questões referentes ao homossexualismo e homossexualidade, o adultério feminino e a segregação social naquele período, mesmo, e ainda que tenha sido, ele mesmo, oriundo do morro, uma vez que era filho de uma lavadeira e um pai negro com marcas da escravidão, e superado as próprias dificuldades à custa de muita determinação? Ainda assim, se, de um lado, escreveu grande parte de sua obra no contexto do Realismo e do Naturalismo, também se fantasiou da camuflagem do romantismo, e mais, ora recorrendo ao fantástico, ao delírio, à excentricidade, traindo de certa forma, os motivos mais íntimos que o levaram a decidir pela nova fase da literatura, abandonando os percursos de influência de culturas alienígenas, e deixando-se seduzir por experiências anteriores.

Em sua obra, usou recursos literários e de subjetividade ainda não explorados na realidade brasileira do período, com requintes que induzem a uma experiência acumulada que suscitam, ainda, muitas especulações. Quanto ao narrador, ora assume as vestes do narrador-personagem, diferente do narrador de terceira pessoa, "que tudo vê e de tudo tem conhecimento, mas, paradoxalmente, ausente e sem consciência da presença dos outros personagens".
.Entretanto, o narrador-personagem de Machado, embora presente em determinadas falas, fica impossibilitado de conhecer o íntimo dos outros personagens e narrar cenas em que ele mesmo não esteja presente. Seria ele como um combatente, um possível narrador da experiência desumanizadora da guerra, que nada tem a dizer em seu retorno,  corroborando a teoria da privação da faculdade de partilhar experiências?

Por outro lado, saindo de Machado, numa divagação, em contraposição à teoria de que as “ações da experiência estão em baixa”, encontramos a fantástica e deliciosa narrativa de Marco Polo à Kublai Kan, em Cidades Invisíveis, de Italo Calvino, que, como Machado, poderia se aproximar do narrador pós-moderno na segunda hipótese de Santiago: aquele que transmite uma sabedoria que decorre da observação e não se alicerça na “substância viva da sua experiência". Nesse sentido, seriam, ambos, puros ficcionistas, uma vez que não poderiam comprovar a autenticidade da informações? da vida de Machado só se conhece hipóteses; nada se sabe dito por ele mesmo... 

terça-feira, junho 09, 2015

Poesia...

Asas...
retorno à noite original
paixão minuciosa
febre...
composição de bocas
olhos
mãos
e pele intocável...
espaço de drama
percepção sutil do voo
ecos derramados nos picos mais cristalinos
trazidos gris...
no profundo grito de aves que não repousam
mensageiras
como ondas furtivas
carrega teu tesouro poesia
a paz
o sangue latejante como águas de março
e o canto do vento suave de lugar nenhum
há em ti filosofia e lágrimas
a força de um colosso
na fragilidade lilás
e na serrilha das folhas novas
conténs a inexistência
do primeiro e diáfano orvalho
os receios da primeira amamentação
e a força letal da fera sem saída
a impetuosidade sem cuidado do primeiro cio
e o torpor que permanece depois da tempestade
sai do meu peito e escorre límpida
te rejeito impura
engrossa os lagos
abre-te ao balé do cisne
acaudala os córregos
generosa
mergulha no ser e me traz pérolas e esmeraldas
[gosto das suas tonalidades]
mas não te quero aqui
prisioneira...


segunda-feira, dezembro 22, 2014

Presente crônico. (Epílogo de Sherezade Contemporânea) Guacira Maciel.

Na verdade, mesmo se comportando como um sultão, era como se sentia, ele, como nenhum homem, tem poder de vida e de morte real, mas o tem de forma subjetiva, pois após esse frustrado casamento em que se considerou traído – o que merece uma análise mais criteriosa – criou um delírio ao exigir da vida uma relação homem/mulher absolutamente perfeita. O seu não desejo de viver plenamente uma relação, constitui-se sua forma de morrer e de matar. E, embora não tenha conseguido morrer fisicamente, simbolicamente mata a mãe, aquele útero que ainda o aprisiona, e a ex-mulher, pois ambas o traíram nas mulheres com quem se relacionara apenas no tempo presente; um presente crônico em que sempre experimenta um amor fugaz, sem futuro (dimensão onde poderia ser outra vez traído), ou seja, estando sempre no presente, reconhecendo apenas essa dimensão de temporalidade restrita, acredita vencer o futuro, anulando a possibilidade de sofrer outra vez a mesma dor.
          Entretanto, eu, como aquela outra, venci o meu sultão e venci o tempo. Eu o encantei, e enquanto estivemos juntos um forte sentimento nos uniu no presente que vivemos e, mesmo temendo um futuro comigo, esse presente esteve, sim, no futuro, ou aquele irrealizável futuro foi vivido no tempo presente...
          Sei que não mais buscou apenas isso em mais ninguém ou seja, eu criei um tempo novo; eu venci aquele futuro onde costumavam morrer suas relações. Há poucos dias, me telefonou e disse: "você é diferente; continuo apaixonado por sua sensibilidade; será sempre a mulher da minha vida, aquela que ainda me faz vibrar e traz ao meu coração a saudade de amanhecer abraçado a alguém.
         



quarta-feira, julho 16, 2014

Não há...(Guacira Maciel)

Expostos
fardos pesados
cuja beleza intrínseca
esconde-se nos abismos da alma
como setas apontadas
em frias madrugadas
ao peito ardente
silencioso
ausente
e sonha
mera ilusão
com a memória dos cristais
das noites irrequietas
como cavalos selvagens
com tanto por dizer
mas não há botões nem corolas
não há crisálidas
e não há promessa por cumprir...

sexta-feira, julho 04, 2014

Pretérito...(Guacira Maciel)

Nascia e anulava-me sucessivamente; buscava-me consistente, mas era massa disforme e morna penetrada pela lança aguda da ausência antecipada, quando o silêncio deixava ouvir apenas o coração em descompasso de espera...e só os meus ouvidos, as paredes e o porta retrato escutavam.  Só lembranças...seguravas meu rosto entre as mãos ágeis e, inconsciente, afundavas os dedos em meus cabelos leves e suados, que embaraçavam-se ao o ritmo apressado da tua respiração; aqueles dedos inocentemente escorregavam buscando tocar qualquer pedaço da minha pele em brasa. A tua mão tão conhecida e quente deslizava inquieta mas suavemente por toda a superfície do meu corpo, como se tentasse desvendar-lhe cada pedaço, recompondo-o. E eu? eu, sensível como uma ferida, aguardava o toque da da primeira vez, e era sempre novo e infinito... morria então, e me perdia...mas me guiava o sol que se dourava ao contato dos pelos louros do teus braços e da tua fina sobrancelha que guardava o tesouro daquele azul abissal,  que se inundava inesperadamente.

Quero lembrar a todo instante e sentir de novo a dor dessa presença, a dor da consciência de ti e da tua ausência; de qualquer forma serão sempre uma dor...preciso abrir as comportas e todas as portas e janelas, e soprar para longe o cheiro inesquecível que elas ressuscitam em mim... 

quarta-feira, junho 04, 2014

Encharcada de azuis (Guacira Maciel)

Hoje estou encharcada
como o mar
de azuis
e embriago-me
no sal
das próprias lágrimas

lambendo com a ponta da língua
os próprios lábios 
sorvo lentamente
a lágrima salgada

o mar
salgado como as  lágrimas
que a minha língua lambe
invade em espuma as areias
como aos lábios a lágrima
salgada
em azuis