Postagem em destaque

Acerca de Reencarnação...

  Relacionamentos, de qualquer natureza, são uma construção, embora influenciados por experiências de outras vidas, ou seja, não importando ...

sábado, setembro 17, 2011

Varanda alta (guacira maciel)

É uma tortura tê-lo guardado lá, naquela varanda alta da nossa adolescência, cabelos dourados como o sol, cuidadosamente penteados; um príncipe encantado e quase triste, de calções, sem roupa de gala, espada e, principalmente, sem cavalo branco, mas um príncipe.
Gostaria de poder tirá-lo daquela varanda adolescente e levá-lo para minha infância, amor de infância é mais suave, não dói tanto; acho que é porque a gente não tem ainda os hormônios que mobilizam as emoções, explodem tudo, gravando a ferro e fogo as imagens no coração.
Mas decidi despedir-me da varanda. Quero esvaziá-la e sair rápido, sem olhar pra trás, como se sai de uma velha casa em ruínas, onde a gente passou toda a vida e da qual, agora, está sendo despejado; uma saída compulsória, porque ela já não tem condição de abrigar nada. Mas para isso é preciso expulsar um morador antigo, que se instalou lá naquela varanda alta e é mais teimoso do que eu.
Como abandonar a velha morada se lá existe alguém que não quer sair? Tudo está desmoronando ao redor, mas o teimoso coração, como a casa, insiste em se manter abrigo, ainda que tudo seja desabrigo: janelas fechadas como olhos baços pela ausência, (dizem que eles são as janelas da alma); encanamentos enferrujados por falta do correr impetuoso da água em seu interior, as pobres válvulas com suas roscas aluídas, já não mantêm a necessária pressão; os móveis, o sofá da sala, que já acolheu corpos jovens, dilacerado expondo vergonhosamente suas entranhas; e o jardim? este, já não tem canteiros floridos, grama úmida e fresca, mas galhos secos retorcidos, como garras.
Só ficou teimosamente verde e viva a velha árvore (que pode nem ter existido), agora cabide de todas as lembranças. Ela, sim, ainda abriga flores, frutos e pássaros que vêm a cada primavera, como a esperança, qual uma promessa ainda não cumprida. Isso, porque possui raízes fortes e profundas fincadas no jardim lá daquela casa com varanda alta, da nossa adolescência, que por instantes pareceu voltar impetuosa, latejando e derramando sangue novo, como artérias desobstruídas após a quase-morte, trazendo vida e flores, e frutos, trazendo novas cores, vento fresco e muito azul.
Como trancar a velha casa de varanda alta, sair silenciosamente, para evitar que o velho morador, teimoso, volte ao aconchego do antigo abrigo?

Nenhum comentário: