Da mais alta janela da minha casa, com um lenço branco, digo adeus aos meus versos que partem para a humanidade. E não estou alegre nem triste; este é o destino dos versos [...]. Quem sabe quem os lerá? Quem sabe a que mãos irão? Fernando Pessoa.

Obs. usando a autonomia que a licença poética e a própria cultura brasileira me permitem, não adoto linearmente essa segunda outorga (arbitrária) da língua portuguesa.


domingo, fevereiro 10, 2013

Literatura com os olhos e os ouvidos...(Guacira Maciel)



 Ao fazer a minha caminhada de todo santo dia, exceto aos domingos, tive uma experiência nova, que, embora simples, foi um verdadeiro exercício de percepção. Resolvi inovar e levei um MP3 ou 4? (para mim não faz a menor diferença) com intenção de escutar um pouco de música, como havia observado que muitas pessoas fazem quando caminham. Coloquei os fones, liguei o aparelhinho e nada aconteceu; a magia de todas as manhãs, mal punha os pés na pista de caminhada da orla, hoje, não foi a mesma. Então, me dei conta, não sem alguma perplexidade, que estava fora do contexto esperado; havia algo errado, e no primeiro momento nem pensei que fosse causado pela música que entrava pelos meus ouvidos de forma compulsória, sem necessitar reflexão... eu não estava lá, não éramos um... Ao olhar todo aquele espetáculo da Natureza, senti que faltava algo essencial: eu não conseguia me integrar a ele; eu não entrava na sua sintonia...me senti uma estranha àquele ambiente que me recebe todas as manhãs encenando um espetáculo novo...sabia que ele estava ali, mas era eu quem permanecia à porta. De repente me dei conta de que ocorrera uma espécie de fuga daquela sonoridade tão inerente, tão orgânica; compreendi que, além da observação visual, a presença daqueles sons suaves e naturais que deixavam impressas em minha sensibilidade imagens tão fortes, embora tão fugazes, capturadas e expressas nos meus "poemas impressionistas", neste verão de 2013, eram fundamentais às impressões oferecidas pela visão. Comecei então a entender, além da luz,  como os sons se encaixam e compõem a obra; como sou influenciada por eles, e como eles potencializam as impressões visuais, seja o latido dos cães vira latas disputando uma cadelinha no cio ou a primeira refeição que o tratorzinho da limpeza retira das praias; um grito ao longe trazido pelo vento ou simplesmente o som que a  brisa matinal provoca nos meus ouvidos...Comecei a perceber  que cada elemento visual refletido nos meus poemas se integra ao outro também pelo som que produzem individualmente, compondo uma sinfonia. Até mesmo o som que a energia do sol, ainda que a uma distância infinitesimal, produz ao vir afagar as águas do mar, uma espécie de murmúrio que posso perceber naquele contexto, se integra a  esse fantástico mistério. Também percebi que se faz Literatura com todos os sentidos...  e reafirmei a compreesão de que não existem limites para a Natureza, da qual sou parte integrante e simbiótica, que sempre deixa em mim uma sensação de eternidade...

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