Da mais alta janela da minha casa, com um lenço branco, digo adeus aos meus versos que partem para a humanidade. E não estou alegre nem triste; este é o destino dos versos [...]. Quem sabe quem os lerá? Quem sabe a que mãos irão? Fernando Pessoa.

Obs. usando a autonomia que a licença poética e a própria cultura brasileira me permitem, não adoto linearmente essa segunda outorga (arbitrária) da língua portuguesa.


quinta-feira, março 08, 2012

Penhoar de seda (guacira maciel)

Sou feliz por ser mulher, não em ser lembrada uma vez por ano, por todas as possibilidades e o prazer de estar viva que essa condição me oferece.


Quero homenagear a todas nós, contando um episódio da vida de uma guerreira...


A Chapada Diamantina, exaustivamente referida no meu trabalho, é uma região de muitos encantos, incluindo uma rica e diversa cultura, que incorpora fortíssima crença no seu imaginário sobrenatural, recheado dos famosos “causos”. O que vou relatar aqui foi contado por meu pai, que jurou de pés juntos ter sido a “mais pura verdade”. Minha mãe, dessa vez não questionou, por ter tido, ela mesma, uma experiência semelhante naquela região, onde “filho chora e mãe não ouve”.
Meu pai tinha certo e questionável prazer, para os padrões da Psicologia de hoje, em nos fazer, a nós seus seis filhos, quase morrer de medo com suas histórias horripilantes que nos levavam a gritar, agarrados uns aos outros, com os olhos quase fora dos seus limites orbitais, ao ouvi-las, embora aqueles momentos nos dessem também certo prazer em sua morbidez.
Por ser um importante exportador de diamantes, dos seus próprios garimpos naquela região, meu avô adquirira certos hábitos apenas facultados aos apaniguados da fortuna, arrancada da vida e da rocha à força de muito e duro trabalho seu e dos lavradores nas minas, pois no início sua vida foi de muitas privações, já que seu objetivo teria que ser alcançado: ficaria rico. Um desses novos hábitos era ser recebido por sua mulher, minha avó, quando retornava de uma das suas cansativas viagens de negócio, usando um elegante penhoar de puríssima seda importada especialmente para ela, como agora era de hábito, uma vez que viviam em meio ao luxo, com acesso a todos ao artigos, como de vestuário, bebidas, peles, alimentação, móveis (ela ganhara um piano de cauda vindo da Alemanha, pois tocava o instrumento muitíssimo bem, depois de ter aprendido a fazer isso com aulas particulares ministradas por uma professora estrangeira que chegara à região).
Pois... essas peças de seda eram caprichosa e carinhosamente costurados pela própria esposa, que também possuía uma belíssima máquina de costura...importada!...Certa feita, tendo ficado ocupada com os preparativos para esperar a volta do marido, ela não tivera tempo suficiente para concluir a dita indumentária e assim, já pela madrugada, cansadíssima, colocou-o por sobre a máquina ainda aberta, com intenção de terminá-lo na manhã seguinte, bem cedinho...
Não foi assim, que dormiu mais que o previsto e perdeu a hora, tendo acordado lá pelas tantas, apavorada com a perspectiva de não satisfazer um dos poucos caprichos do marido a seu respeito.
----Pronto! Meu Deus!...e agora?
Olhou o delicado relógio de pulso, todinho cravejado de pequenos brilhantes, lapidados especialmente...
---- Tá quase na hora dele chegar...
Levantou-se tropegamente e correu para a sala de costura, onde, para seu pavor, o penhoar estava no mesmo lugar em que deixara, só que... todinho costurado e pronto para ser usado.
Tentou pegar a bela peça, mas sentindo um tremendo frio seguido de um “arrepio que lhe desceu da nuca até os pés”, largou-a caída ao chão, saindo em disparada daquele lugar.
---- Não pode ser! Quem custurô meu robe, se eu tava sozinha? A casa ainda tá toda fechada...
Quando a doméstica que cuidava da casa chegou, viu-a transida, com o pavor estampado nos olhos, e perguntou:
---- Dona Honória, o que acunteceu cum a sinhora?
Ela então contou o acontecido, e a moça respondeu sem tergiversar:
--- Dona Honória, intão a sinhora num vê qui foi um fantasma que custurô seu robe?
--- O quêêê?
E saíram as duas em louca disparada para fora daquela sala, disputando quem passava primeiro pela porta estreita, só parando no quintal, tendo o penhoar de seda ficado esquecido e abandonado ao chão...

2 comentários:

O Sibarita disse...

Dona moça! O penhor da seda, é uma seda de texto, muito do porreta dona moça, oi que bom! kkkkkkkkk

Foi o fantasma, viu fia! kkkkkkkkk Naquela época ocorreram muitos "causos" que nos são contados hoje em dia.

Sua menina, por que sumiu? Oxente... kkkkkk Suma mais não, viu?

Vim parabeniza-la pelo dia das mulheres, se bem, que o dia das mulheres são todos e não específico dia 08 de março que no caso é uma homenagem as trabalhadoras americanas que foram queimadas vivas dentro da fábrica que trabalhavam por reivindicar melhores salários, melhores condições de trabalho.

PARABÉNS, EITA MULHER RETADA ESSA GUACIRA MEU DEUS!

Peço sua licença e deixo uma poesia homenagem ao dia.

Marias do mundo.

Dedicada à todas elas!

Chama por Deus, em clamor, lagrimas no rosto.
É, corta o vento da noite sacudindo o relento
Acorda Maria, anda de um lado para o outro
Olha para o céu num azul às avessas, cinzento

Pelo chão, vários filhos em caixas de papelão
O dia já lhe nasce banguelo, pedindo penico
Negra e do mundo, basta ouvir o seu coração
Mas, ninguém olha, ninguém vê esse abismo...

Assim, ronca a fome na palidez dos pratos vazios
Maria, mira os restos de lixos em manhãs ditosas
Dos afortunados nos espelhos refinados e frios
No mal dos nossos dias, em misérias expostas...

É mais um dia sudário, na cruz, Jesus sangra.
Penetra a fome no fundo, é uma faca azulada
Sem cabo, sem lâmina, sem dó, arma branca
Adentra dilacerando, auroras esquartejadas...

Ò meu Deus! Maria de fibra, guerreira Maria
Oito de março é o dia internacional da mulher
Glória a você, é seu dia também, mas, cadê?
Lembro você na essência, estranha ausência...

O Sibarita

Guacira Maciel disse...

Obrigada, querido...Uma honra que esteja de volta ao meu bloguinho (rss).
Sumi nada; por duas vezes tentei postar um comentário em seu Blog e não consegui...
Gosto de ler seus textos e o faço sempre que possível.
Adorei esta homenagem; lindo poema.
beijo,

Guacira (Dona moça, sua menina...rss).