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Acerca de Reencarnação...

  Relacionamentos, de qualquer natureza, são uma construção, embora influenciados por experiências de outras vidas, ou seja, não importando ...

terça-feira, outubro 08, 2013

A minha música...(Guacira Maciel)

Gosto do brilho nos olhos, da translucidez e da inquietude de pupilas que buscam e que me dão respostas mudas, sem necessitar palavras...não preciso de sorrisos rasos, mas de olhos rasos d'água...não preciso de abraços lassos e de frouxos apertos de mão...prefiro um sorriso ambíguo, que pode conter o inesperado, porque abomino o previsível...prefiro a crisálida à borboleta e o botão à rosa... 
 Quero a fantasia, o sonho, o impalpável e um simples pedido de desculpa por uma pisada de bola. Não preciso de respostas certinhas e inquestionáveis. Gosto de pessoas distraídas, de pessoas leves que riam comigo, de mim e de si mesmas risos inesperados que explodem sem razão e inexplicáveis, mas abomino o choro piedoso. 
Quero perdão pelas minhas bobagens, minhas ausências e compreensão pelos meus muitos defeitos sem maldade, minhas fragilidades e meus medos, ainda que infundados... Preciso, principalmente, de pessoas que tenham "os olhos na caixa de brinquedos"; pessoas que não levem tudo a sério e mudem de opinião se for preciso, mas tão sérias que saibam refletir sem se tornarem chatas. Quero pessoas loucas, poetas, sensíveis, inquietas...pessoas que tenham a sua música pessoal, mas considerem dançar  o compasso da minha quando for preciso...

quarta-feira, agosto 28, 2013

Sou monofásica (Guacira Maciel)



 Não...não é nada disso...eu não tenho limites como ser humano; quanto aos limites físicos, quem não os tem? meu corpo e minha mente me dão respostas fantásticas! para mim o que vale mesmo é estar viva. Muitos morrem jovens e outros vivem muito, como se lhes estivesse sendo mostrado algo maior, mas jogam a vida fora com coisas inúteis; eu nunca tive fase do ter...nunca me preocupei com coisas dessa ordem, porque não tive (e ainda bem...) uma criação que posta sobre a vida  um olhar materialista, limitado e imediatista... Nesse sentido sou monofásica, mas não monocromática; a única fase que conheço é a do construir, sempre. Sempre me envolvi com os sentimentos e valorizei o amor; fui criada por um pai maravilhoso e de alma pura, um artista; tive uma criação suave e amorosa, e assimilei tudo isso, que, infelizmente, só explodiu depois que ele se foi; na minha vida doméstica não houve  violência.
Mas o meu desabafo é motivado pelo cansaço, pelo cansaço de perceber que até hoje, quando um único país, cheio de pretensão e arrogância se acha com direito de, com um simples toque, ameaçar o mundo com um final tão prosaico ou tão estúpido, ainda existem pessoas que só pensam em guardar, em amealhar coisas inúteis para o “futuro”... mas que futuro? e se ele não chegar? o que terão feito por si mesmas, pelo que são, de verdade?
Eu estou falando desse cansaço de ver a inutilidade de tanto desamor, do cansaço meio sádico de chegar exausta e feliz depois de um dia de trabalho árduo em que minha mente é sugada até a ultima gota de seiva, realimentada por um curso fértil de conhecimento construído com determinação, e de ter enfrentado um engarrafamento desumano no trânsito desta cidade sem jeito, e ainda ver, perplexa, meu carro explodir em jatos de água e uma cortina de vapor quente... e eu não saber o que fazer...nesse sentido sou inútil...
Eu não vivo do discurso para sustentar uma tese fatalista, fugaz como aquele vapor...sou forte na minha fragilidade; resisto e recomeço! tenho muita gana de viver e ter experiências que me façam crescer e, sempre que possível, partilhar com os outros... eu quero amar; eu não desisto; eu amo estar viva.  Ontem passou...hoje renasci junto com o sol.
Não pretendo desistir de mim, principalmente. Não vou fingir que está tudo bem, não vou ignorar as sensações mais humanas e ao mesmo tempo mais sublimes que me são permitidas sentir, e não vou permitir que me tirem essa vontade e esse encanto pela vida...ninguém, nem eu mesma, tem esse direito, graças à consciência dos direitos que reconheço em mim como mulher e ser humano... eu não tenho medo da vida nem das pessoas...o que me faz humana e me diferencia do monstro (porque os bichos são maravilhosos e tão ou mais conscientes que muitos de nós), é essa consciência da importância de ser parte de algo maior e sempre novo, e de partilhar essa percepção...
Me desculpem, não quero entender o egoísmo - e o medo - que alguns têm em dividir o que lhes foi dado de melhor, a sua alma e um coração que, muitas vezes, pula louco pra se mostrar e se derrete no peito, mas é ignorado e submetido...isso não é viver...

terça-feira, julho 23, 2013

O que restaria...(Guacira Maciel)

 O silêncio é o mesmo; triste... esperando, vejo transformar-se o meu rosto, mas sempre te vais e sempre da mesma forma, te vais... a luz resplandecente há pouco, começa a diluir-se. Percebo  aproximar-se o limbo que gestará a próxima chegada, e milagrosamente permaneço parada esperando-a; a milionésima talvez e ela em nada será diferente da primeira nem da décima, que já nem lembro quando foi...e de novo te irás e levarás contigo a luminosidade que assoma à porta na tua chegada.
Os atrasos eram piores que a desesperança da costumeira ausência, porque eu esperava... Mas as partidas eram sempre iguais; nada mudava nem de vez em quando. Eu já sabia o que viria depois e tinha medo, mas esperava... medo, não pela partida, que eu já conhecia; sentia mais medo do que restaria de mim do que de mais uma partida...o que restaria...isso, sim, eu não sabia como seria da próxima vez....e era a única coisa que poderia mudar...

sexta-feira, junho 07, 2013

A festa dos teus olhos...(Guacira Maciel)



Me leva à festa
que o mar faz em teus olhos
pega a minha mão
e me ensina a dançar
como os raios dourados do sol
dançam na tua iris azul
não quero mais
sentir essa saudade devagar
não quero mais o silêncio da lembrança
que tanto faz doer a tua ausência
me leva à festa dos teus olhos
segura a minha mão
me ensina a dançar
o mistério
da eternidade da nossa melodia
preenche com teu abraço
o vazio da tua saída
mais uma vez
agasalha-te em minha pele
e ressona sem cuidado
esquecerei então o amanhecer
incerto de ti e de mim mesma
mas terei ouvido já
palavras doces
promessas vãs
ainda quero ouvir teu riso
quero dançar no mar
me leva pela mão
à festa azul do teu olhar...

quinta-feira, maio 23, 2013

Sobre os telhados (Guacira Maciel)

Sobre as velhas telhas
pedaços aconchegados de história
pairo sonâmbula
na cabeça a música barroca
se debate eclusa
a noite cai silenciosa e alaranjada
mais um pouco o brilho da lua prateia
a argamassa de musgos
e reconstroi o espectro
do teu semblante
mas é só uma lembrança difusa
és mestre em ilusões
o teu fantasma lunar assombra-me
como a gestar o próprio corpo em mim
perversamente
respiro forte e te expulso
da minha presença
és só uma lembrança
reafirmo
colada à minha alma
qual canto canta o imperfeito (?)
ah...dá-me a luz do dia
apaga do meu ser
esse olhar sem sonhos
e ainda bem que amanheço
com a fecunda lucidez
e os fantasmas
são só cansadas telhas...



sexta-feira, maio 17, 2013

Extrema (Guacira Maciel)

Que me tenhas extrema
e seja eu inteira
mas que me queiras utópica
e percebas sem fronteiras o sublime
que morre em mim se te aproximas
e me pertença e a ti
a mesma humanidade
que possa deixar inteira lá a minha alma
se te apossas do meu eu
e que te ergas sobre o corpo
cuja pele em cetim te afaga
ah... que te esvaias
e possa eu arder e apaziguar o teu cansaço
e ser tua manhã
 aurora
a tua harpa e teu compasso
se em minha carne te alimentas
e te banhas no sangue
que aflora rubro em minhas faces
depois repouses
na leveza de espuma e te adormeça
o aconchego frágil em meu regaço

quinta-feira, maio 09, 2013

Submerso...(Guacira Maciel)



 Meu livro “Cruz do meu Rosário; um amor na Chapada Diamantina” poderia - ainda não tenho certeza - ser compreendido como um desdobramento do meu eu singular; uma representação de algo que chamaria de meu universo inconsciente, que se manteve submerso, preservado e aparentemente aceito como apenas remotas lembranças de infância, mas que vem interferindo na minha vida de forma subliminar desde que tive uma compreensão mais profunda, através da minha experiência pessoal, com um amor que considero não ser possível ser experimentado de novo na mesma perspectiva, talvez até por ter começado na minha quase infância. Creio que o amor amplo e profundo só se sente uma vez a cada encarnação; uma experiência dessas, em que a alma é afetada, como se tivesse sido capturada de forma tão íntima, tão contundente, mesmo que traga sofrimentos que pensamos ser insuportáveis a ponto de ser paradoxal pensar na morte, não poderia ser vivido muitas vezes, como uma experiência corriqueira. O amor desses dois (os personagens do livro) será representado e apresentado ao meu próprio consciente e a vocês, através da linguagem que considero a mais nobre: a  literária.
É incrível como venho percebendo aflorar ao pensamento coisas que aparentemente desconhecia. Considero esse livro um verdadeiro exercício de labor (entender como elaboração, (re)construção), pois conta, registra, imprime, deixando marcas dessa história de amor que esteve presente na minha vida, desde a infância. Os personagens principais são meus pais... ah, nem me apresentei! eu sou Sherazade (contemporânea, claro!).
Carlos e Marta, o centro das minhas atenções nessa história, já faleceram. Ela foi primeiro, vítima de uma enfermidade cruel e avassaladora; ele se foi poucos anos mais tarde, vitima de um mal que também causa muito sofrimentos a quem o adquire, mas, na minha compreensão, o motivo fundamental ou o que desencadeou o seu processo de desistência da vida foi a tristeza da ausência de Marta. Não vê-la mais, não ouvirem música juntos logo de manhãzinha tomando um “menor”, e até não ouvi-la “falar como uma vitrola” era-lhe insuportável. Ele começou a sentir-se fora do contexto; o mundo que a partir daquela ausência teria que enfrentar sozinho, sem sua companheira e sua mais profunda e antiga referência nele, era muito ruim; esse novo mundo deixava-o muito solto; cortaram-se as raízes que o fixavam à vida; agora estava ao sabor das correntezas definidas por ventos imprecisos, não identificados. A Chapada Diamantina, sua terra tão amada e tão peculiar e especial, a “terra onde filho chora e mãe não ouve” e para onde levara o seu amor, era só uma lembrança muito tênue do passado...nunca mais voltou lá... ela existira?
Pois é... ainda não sei se vou, simplesmente, reavivar minhas próprias lembranças contando e deixando para meus netos uma história bonita, pois nem participei de grande parte dela - embora Carlos tenha tratado de preservá-la contando-a aos filhos, que as consideravam como histórias de um imaginário fantástico - ou se vou viver um personagem, assumindo o alterego de Marta, como é tão comum na literatura, embora não seja provável que o faça; meu desejo é que Marta exponha um desdobramento de si mesma ou algo parecido com um heterônimo, com personalidade diferente, sem que isso possa ser considerado uma patologia; Marta era muito saudável, muito equilibrada.
Esse eu subliminar, que no livro chamo de Persona, como um nome próprio, foi imaginada desde o princípio como a persona alternativa (alterego) de Marta,  que sentiria, ocasionalmente, necessidade de se reconstruir, voltando sempre à dimensão que a divide, e fraciona sua personalidade (consciente), se entendemos que o alterego sobrevive numa zona mais profunda do ser.
Entretanto, seria Persona, algo ainda desconhecido, confiável à Marta? ela, por desconhecimento àquela época, início do século XX, das questões que só muito depois a Ciência desvendou, confia nele, entretanto, sem questionar, e nem teria outra alternativa, já que não encontraria mesmo, as explicações que precisaria para compreender o que estava acontecendo consigo e com sua vida...
Pode ser que eu (autora) assuma ser esse alterego ( o Persona), por puro cuidado em preservar a memória e a vida de Marta, já que se fala até que esses desdobramentos  seriam patologias, como se referem alguns à fantástica capacidade de Fernando Pessoa de criar seus vários hoterônimos...alguns dos quais, disputam o lugar de seu alterego oficial...
Depois pensei que o alterego de Marta poderia emergir do seu próprio ID, cujos impulsos estariam vindo à tona após um longo período em que, depois de tantos sofrimentos e perdas, ainda teve que viver tão reprimida como agregada na casa dos tios milionários, arrogantes e rancorosos, incluindo nessa volta a sua própria sexualidade, já que era-lhe vetado qualquer contato com possíveis namorados, razão pela qual aceitou a orientação de Persona para que fugisse e escolhesse ser feliz, já que se apaixonara por Carlos, e já que nosso ID é chamado “princípio do prazer”...

Vamos para frente, verei até quando aguentarei sem assumir o alterego da minha protagonista...