Escrevo
e assim faço parar o tempo
pra ficar no exato momento
em que estou com você
antes que a chuva suceda as nuvens
que a poeira retorne à terra
que a vazante suceda a cheia
que à paz suceda a guerra
pra ficar no exato momento
em que durmo com você
segura e aquecida em seus braços
sentindo sua pele cheirosa
colorida que nem manga rosa
depois
que se quebre a bilha na fonte
e regando a terra
a semente
se derrame em fio de prata
e o sol
após dourada orgia
ainda sonolento
apareça no horizonte.
Este espaço foi criado para me aproximar das pessoas que têm interesse pela poética, como um mundo de possibilidades a ser conhecido, inclusive, relacionando-o com as chamadas "exatas", que, veremos, não são tão exatas assim. Contém o meu pensar sobre cultura, ciência e sua relação com o mundo, e a chance de um olhar mais amplo sobre ele e suas questões. Está aberto aos comentários, às opiniões divergentes, às discussões e a tudo que nos permita essa amplitude.
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Acerca de Reencarnação...
Relacionamentos, de qualquer natureza, são uma construção, embora influenciados por experiências de outras vidas, ou seja, não importando ...
sexta-feira, janeiro 15, 2010
segunda-feira, janeiro 11, 2010
Margens (guacira maciel)
A tua lembrança
suave ou caótica
prevalece em meu coração
em minha cabeça
à margem do encontro
entre o rio e o mar
sim
ali ela é possível
num tempo inexistente
como um interregno
estás sempre no limite.
Dos pores de sol
como das auroras
da penumbra
ou círculo de luz dos abajures
da metamorfose da crisálida
e do voejar das borboletas
entre a dor e a felicidade
entre a presença e a saudade
entre os rouxinóis
e os corvos
entre o aprisionar
e a liberdade
entre a aurora boreal
e a tropicália
entre a chegada
e o adeus
entre o zênite e o nadir
entre os demônios e Zeus...
suave ou caótica
prevalece em meu coração
em minha cabeça
à margem do encontro
entre o rio e o mar
sim
ali ela é possível
num tempo inexistente
como um interregno
estás sempre no limite.
Dos pores de sol
como das auroras
da penumbra
ou círculo de luz dos abajures
da metamorfose da crisálida
e do voejar das borboletas
entre a dor e a felicidade
entre a presença e a saudade
entre os rouxinóis
e os corvos
entre o aprisionar
e a liberdade
entre a aurora boreal
e a tropicália
entre a chegada
e o adeus
entre o zênite e o nadir
entre os demônios e Zeus...
quinta-feira, janeiro 07, 2010
Zênite fecundo
Te alimentas
da nobreza da guerreira celta em seus opostos
intrépida fêmea
Boudicca rainha
Invencível Andraste
e fértil
como a terra bronze.
E liberta...
Entre a sombra e a luz
te fazes amor e morte.
Profunda literatura espiralada.
Em teus retornos
escondem-se limites insuspeitados
irreconhecidos.
Na volúpia das curvas orgânicas sensíveis,
acolhedora Xangai tresloucada
vaticínio de submersas águas
de torvelinhos de cristal divinizados
percebo-te o zênite fecundo.
Abertos
ofertados
arrulhas a mim
incontrolável
palavras aladas
versos...
da nobreza da guerreira celta em seus opostos
intrépida fêmea
Boudicca rainha
Invencível Andraste
e fértil
como a terra bronze.
E liberta...
Entre a sombra e a luz
te fazes amor e morte.
Profunda literatura espiralada.
Em teus retornos
escondem-se limites insuspeitados
irreconhecidos.
Na volúpia das curvas orgânicas sensíveis,
acolhedora Xangai tresloucada
vaticínio de submersas águas
de torvelinhos de cristal divinizados
percebo-te o zênite fecundo.
Abertos
ofertados
arrulhas a mim
incontrolável
palavras aladas
versos...
domingo, janeiro 03, 2010
Orpheu (guacira maciel)
...deu-me figos e castanhas
vinho doce como água de regato
e nada precisou ser dito
por interferência dos deuses
nos uniu a Eternidade...
vinho doce como água de regato
e nada precisou ser dito
por interferência dos deuses
nos uniu a Eternidade...
segunda-feira, dezembro 28, 2009
A quatro mãos (II) (guacira maciel)
Eu fui o porto
que abrigou
o desconforto pelas investidas
contra as frágeis velas enfunadas
por ventos infestos
na tormenta das grandes marés...
eu fui a enseada fértil e esmeralda
que acolheu na mornidade
a cópula de águas complementares
tornadas insalubres
o teu desejo em brasa...
eu fui abrigo
do impudor do teu amor
de inocência quase púbere
fui incentivo para as tuas asas coloridas
experimentadas sem perícia
em vôos de grandes altitudes
destroçadas pela incompreensão...
mas à calidez do regaço da pequena ecologia
ao abrigo silencioso da preamar na madrugada
às rendas brincalhonas feitas pela luz do sol
nas superfícies cristalinas
preferiste a solidão
bronze do alto mar
as investidas superficiais e inférteis
do fausto e do brilho do navio pirata
cujo casco é arremessado contra a aridez das ondas sólidas do nada afinal
que no entardecer
errante
sobrevive da nostalgia
da frieza do assalto fortuito
buscando na frágil linha do horizonte
uma promessa ilusória...
que abrigou
o desconforto pelas investidas
contra as frágeis velas enfunadas
por ventos infestos
na tormenta das grandes marés...
eu fui a enseada fértil e esmeralda
que acolheu na mornidade
a cópula de águas complementares
tornadas insalubres
o teu desejo em brasa...
eu fui abrigo
do impudor do teu amor
de inocência quase púbere
fui incentivo para as tuas asas coloridas
experimentadas sem perícia
em vôos de grandes altitudes
destroçadas pela incompreensão...
mas à calidez do regaço da pequena ecologia
ao abrigo silencioso da preamar na madrugada
às rendas brincalhonas feitas pela luz do sol
nas superfícies cristalinas
preferiste a solidão
bronze do alto mar
as investidas superficiais e inférteis
do fausto e do brilho do navio pirata
cujo casco é arremessado contra a aridez das ondas sólidas do nada afinal
que no entardecer
errante
sobrevive da nostalgia
da frieza do assalto fortuito
buscando na frágil linha do horizonte
uma promessa ilusória...
domingo, dezembro 20, 2009
O discurso da arte (guacira maciel)
A qualquer referência ouve-se dizer que arte não se discute, parecendo consenso que ela é para ser, apenas sentida, não oferecendo nenhuma possibilidade de estímulo à reflexão, restringindo-se a atender especificamente as necessidades estéticas estando, portanto, sujeita ao sabor do gosto de cada um. Entretanto, contrariando essas afirmações, ouso dizer que a arte nos remete, sim, à reflexão, saindo da tirania dos sentidos e dos sentimentos, o que é comprovado quando, após vista e apreciada, uma obra de arte nos leva à tentação de ser tocada. Essa vontade, incontrolável às vezes, não é um estímulo puramente mecânico; ela é gerada no pensamento. Ao olhar sua beleza, sua plasticidade, refletimos, buscamos referências e fazemos conjecturas de como se nos parece macia, sensual, quente, viva...O que nos deixa loucos para tocá-la! Aliás, creio que a proibição de que levemos a efeito esse ato, deve ser, principalmente, para evitar a saciedade (eu acho mais expressivo saciamento) ou uma decepção, podendo seu autor manter o clima de dúvida e de mistério, fazendo com que se perpetue, assim, o estado de reflexão. O maior exemplo disto é o clima que envolve a Mona Lisa, um retrato de mulher que também não se tem certeza quanto à identidade (o mistério já começa ai...), tendo suscitado reflexões em todas as gerações, continentes e classes sociais em todos os tempos.
Com a arte literária ocorre um processo parecido, só que sem o estímulo da visão ou do toque, em busca da beleza; uma beleza que não precisa ser objetivada dessa forma, podendo permanecer na dimensão do refletido, o que significa uma outra estética, muito embora ela não esteja aprisionada no cérebro.
Realmente, a arte tem em sua essência a condição da transcendência, tornando o infinito possível.Porque ela lida com a construção de um universo estético, filosófico, sensorial, criar deve dar uma ilusão de poder, de Criador e, sendo a literatura uma maravilhosa e complexa arte, parte fundamental da cultura enquanto produção humana, constatando, informando, associando, comparando, contrapondo, ela expõe as mais variadas emoções e facetas das infinitas dimensões em que esse mesmo homem transita, porque quem escreve pode se movimentar no imaginário de quem lê. Essas emoções e sentimentos tão intrínsecos à sua natureza, à natureza humana, mostram uma impressionante atualidade, evidenciando o quanto o homem não evoluiu, o quanto suas questões sempre estiveram no presente, o quanto elas são universais desde sempre, sem qualquer aprisionamento, suscitando sentimentos de vulnerabilidade, algumas vezes dramáticos.
Estou querendo aqui, posicionar a literatura em especial, como um veículo de reflexão, sem deixar de ser arte, que nos possibilita a nós, milênios mais experientes e mais sofridos, a constatação do quanto abrigamos sentimentos e emoções ancestrais, primitivas. Às vezes chego a duvidar que partilhamos do divino em nossa essência. E isso muito me incomoda, porque, como pessoa que sempre acreditou na arte como possibilidade de busca e exposição do melhor ser humano que possamos ser, percebo, também, o quanto a nossa condição de “não-humanidade” é verdadeira. E não estou, absolutamente, me referindo às patologias; essas não são objeto de análise do artista, mas do médico.
Quero tomar como referência Marcos Palácios (Pilhagem dos imaginários, 1985), pela absoluta necessidade de demonstrar o quanto da Criatura Frankenstein, obra do Dr. Victor Frankenstein, temos todos nós. Tendo encontrado e lido obras literárias, esquecidas num canto por alguém, estando entre elas, “Os Sofrimentos do Jovem Worther”, de Goethe, o famoso monstro pode conhecer a dimensão do que seria “o humano”, através do discurso da arte e, para sua tristeza, pode também entender a dor da sua condição de “não-humanidade”. Também estou analisando o potencial da arte literária, enquanto elemento desencadeador de sensibilidades, a ponto de emocionar, ainda que por frações de segundo, essa Criatura, refém da vaidade ou genialidade de um ser (ou não ser) humano, e mais, analisando essas polaridades observamos o quanto de Criatura tem seu criador, isto é, o quanto um se aproxima do outro, embora em posições diferentes: o criador tendo o controle, o poder, o egoísmo se aproxima da monstruosidade da Criatura, e esta, embora condicionada e manipulada também querendo se aproximar da humanidade deste.
A intenção é expor uma inquietação; uma forma de alertar, de sinalizar a todos nós, humanidade, totalidade perigosamente sem identidade e abstrata, o quanto somos capazes de ferir, de destruir, o quanto somos egoístas, manipuladores, escravizadores e escravizados por sentimentos menores; mas também capazes de atos maravilhosos de amor, de desapego, de amizade, e, se somos capazes de produzir arte, é porque, como unidade, como ser individual, privado, obra-prima da criação, paradoxalmente criatura e criador, não somos um caso perdido...
Com a arte literária ocorre um processo parecido, só que sem o estímulo da visão ou do toque, em busca da beleza; uma beleza que não precisa ser objetivada dessa forma, podendo permanecer na dimensão do refletido, o que significa uma outra estética, muito embora ela não esteja aprisionada no cérebro.
Realmente, a arte tem em sua essência a condição da transcendência, tornando o infinito possível.Porque ela lida com a construção de um universo estético, filosófico, sensorial, criar deve dar uma ilusão de poder, de Criador e, sendo a literatura uma maravilhosa e complexa arte, parte fundamental da cultura enquanto produção humana, constatando, informando, associando, comparando, contrapondo, ela expõe as mais variadas emoções e facetas das infinitas dimensões em que esse mesmo homem transita, porque quem escreve pode se movimentar no imaginário de quem lê. Essas emoções e sentimentos tão intrínsecos à sua natureza, à natureza humana, mostram uma impressionante atualidade, evidenciando o quanto o homem não evoluiu, o quanto suas questões sempre estiveram no presente, o quanto elas são universais desde sempre, sem qualquer aprisionamento, suscitando sentimentos de vulnerabilidade, algumas vezes dramáticos.
Estou querendo aqui, posicionar a literatura em especial, como um veículo de reflexão, sem deixar de ser arte, que nos possibilita a nós, milênios mais experientes e mais sofridos, a constatação do quanto abrigamos sentimentos e emoções ancestrais, primitivas. Às vezes chego a duvidar que partilhamos do divino em nossa essência. E isso muito me incomoda, porque, como pessoa que sempre acreditou na arte como possibilidade de busca e exposição do melhor ser humano que possamos ser, percebo, também, o quanto a nossa condição de “não-humanidade” é verdadeira. E não estou, absolutamente, me referindo às patologias; essas não são objeto de análise do artista, mas do médico.
Quero tomar como referência Marcos Palácios (Pilhagem dos imaginários, 1985), pela absoluta necessidade de demonstrar o quanto da Criatura Frankenstein, obra do Dr. Victor Frankenstein, temos todos nós. Tendo encontrado e lido obras literárias, esquecidas num canto por alguém, estando entre elas, “Os Sofrimentos do Jovem Worther”, de Goethe, o famoso monstro pode conhecer a dimensão do que seria “o humano”, através do discurso da arte e, para sua tristeza, pode também entender a dor da sua condição de “não-humanidade”. Também estou analisando o potencial da arte literária, enquanto elemento desencadeador de sensibilidades, a ponto de emocionar, ainda que por frações de segundo, essa Criatura, refém da vaidade ou genialidade de um ser (ou não ser) humano, e mais, analisando essas polaridades observamos o quanto de Criatura tem seu criador, isto é, o quanto um se aproxima do outro, embora em posições diferentes: o criador tendo o controle, o poder, o egoísmo se aproxima da monstruosidade da Criatura, e esta, embora condicionada e manipulada também querendo se aproximar da humanidade deste.
A intenção é expor uma inquietação; uma forma de alertar, de sinalizar a todos nós, humanidade, totalidade perigosamente sem identidade e abstrata, o quanto somos capazes de ferir, de destruir, o quanto somos egoístas, manipuladores, escravizadores e escravizados por sentimentos menores; mas também capazes de atos maravilhosos de amor, de desapego, de amizade, e, se somos capazes de produzir arte, é porque, como unidade, como ser individual, privado, obra-prima da criação, paradoxalmente criatura e criador, não somos um caso perdido...
domingo, dezembro 06, 2009
Em botão... (guacira maciel)
A mucosa da minha boca
ainda retém o gosto
das palavras em botão
agora flor despetalada
ditas em fluxo rubro
hemorrágico
nascido das tuas profundezas
ora barcos a vela
ora preamares
em horizontes sem limites
abertos selváticos
expostos à pálida luz
restos nostálgicos
da recente cópula de outro poema
vivida entre o sol e a lua
na pele do meu rosto
ainda escaldante
as impressões das tuas mãos suaves
pérfida seda
cujos toques eram sonoros
em minh’alma
acima das nossas cabeças
o teto de infinito azul
gazebo imaginário
não abrigava dos ventos oceânicos
os meus cabelos
refrescados intempestivamente
cegando meus olhos
se derramaram lágrimas
nascidas no coração
como enchentes dos teus
nossos segredos revelados
na geografia das nossas almas
cujas aversão à solidão
nos fizeram voltar e voltar
são o enigma que nos fascina
e nos obriga a retornar das auroras
ao crepúsculo
como pequeninos pontos
imóveis ao olhar de quem fica.
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