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Acerca de Reencarnação...

  Relacionamentos, de qualquer natureza, são uma construção, embora influenciados por experiências de outras vidas, ou seja, não importando ...

quarta-feira, junho 20, 2007

Teus olhos (Guacira Maciel)

A última vez que olhei teus olhos
não os encontrei
perplexa
os teus olhos não estavam lá
naquelas órbitas não havia nada
elas estavam vazias de ti
o que estava ali
eram órbitas ocas
pupilas congeladas
mortas
O teu olhar de antes
era similar ao horizonte
promessa enigma antigo
um misterioso mar
no teu morno e manso olhar
Ah e o teu sorriso
o teu sorriso prolongava o teu olhar
e me lembro bem ele era úmido
ora fogo labareda azul
que me queria devorar
ora chuva fina diáfana asa de borboleta
era uma aurora boreal o teu olhar
Mas o teu olhar já não tem alma
ele passa por sobre mim
sobre o meu eu inexistente
com olhos errantes fugidios febris
buscando outro lugar
O teu olhar me desilude
está quase perverso aquele olhar
sinto frio quando olho teus olhos vítreos
no teu olhar vazio branco nenhum
O teu olhar também já desistiu
o teu olhar como o último náufrago
também se foi
o teu olhar se foi
ele também partiu
sem ti.

terça-feira, junho 19, 2007

Constatações (guacira maciel)

Você é im
a presença implacável do ser
o impossível
o imponderável

o improvável;
e eu imprevidente
absurdamente aqui
você é ir(r)

o encontro irresponsável
a presença irrequieta
a falta irreparável
a mudança irreversível
e a perda irrecuperável
a mim a oferta irrecusável..
mas ao final
desesperadamente in

o desejo incontrolável
a realização inevitável
o adeus inegociável
em mim
a lembrança inesquecível

sexta-feira, junho 08, 2007

Fuga (guacira maciel)




Não adormeça ainda
é cedo
o tempo nosso
é tão pequeno
é cedo
ainda não é finda
a abstração crepuscular

Não adormeça ainda
é cedo
nosso futuro é tão fugaz
tão temporariamente
contido no presente
não dormeça ainda
é cedo
deixa que eu sinta
a minha pele arrepiar-se
nos pêlos louros
do teu braço
no teu abraço
não adormeça ainda
é cedo
ao dormir te vais de mim
e vagas por onde
não me leva a tua mão
o teu olhar
ao dormir jazes à mercê
sabe-se lá de quê
um outro amor
talvez
não adormeça ainda
é cedo
no teu dormir te vais
e o que amo em ti
nos braços de Morfeu se esvai
esse é o fundamento
do meu medo
o teu regresso
te traz vazio de volta a mim
não adormeça ainda
é cedo
não adormeça ainda...

quinta-feira, junho 07, 2007

As tuas mãos (guacira maciel)

As tuas mãos são grandes
as tuas mãos são grandes
como asas
as tuas mãos são belas
se olho as tuas mãos
elas me fazem flutuar
até perder o chão
as tuas mãos acolhem
as tuas mãos afagam
as tuas mãos são fundas
como grandes conchas
elas carregariam a água
que mataria a minha sede
sinto as tuas mãos
elas poderiam conter
partes de mim
abrigar-me do frio
amparar a chuva
mesmo que caísse em torrentes
as tuas mãos me abrigariam
do zênite solar
amo as tuas mãos de asas
grandes
belas
fundas
pródigas

sexta-feira, junho 01, 2007

O mito e o amor (Síntese; guacira maciel)

Seria o amor apenas um mito?
Talvez fosse mais prudente permanecer nas minhas conjecturas pessoais sobre este sentimento, mas “navegar é preciso” e elas se constituiriam fios outros para ampliar o olhar sobre algumas reflexões mais amplas.
Em nossa sociedade alguns descreveriam o mito como uma história sem fundamento. Outros diriam que através deles contamos histórias verdadeiras; que através deles nos é revelado o que os homens têm em comum; que seria esta uma forma de buscar o real sentido da vida, ou o relato da “experiência da vida”... Mas, qual seria o sentido da vida? Penso que o sentido (a essência) de qualquer coisa que tem vida é o amor; qualquer manifestação da natureza, simplesmente ser; existir, é a própria manifestação do amor.
Por que estamos sempre na periferia das coisas? Da sua essência? Na periferia de nós mesmos? Da nossa existência e sua vibração? Posso dizer que os mitos nos apontam caminhos de busca; de possibilidades; caminhos de temperança... Nas histórias contadas a adultos, citaria como exemplo, dentre inumeráveis outros, a incessante procura do santo Graal (como temos visto nos filmes); que se revela uma história de busca para a cura de uma terra devastada, aliás, uma história recorrente no caminhar da humanidade e eu diria, terrivelmente sintomática da beirada do caos... e não já estamos, nós, vivendo esses tempos de profunda e ampla devastação? Penso que cada um precisa buscar o seu próprio Graal, sua própria cura, o que nos instalaria num mundo melhor para todos...
Por que teria Buda tomado o caminho do meio? E quanto a Jesus Cristo, por que se deixaria crucificar entre dois homens que tomaram caminhos diferentes naquela última hora? Não seriam ambas as histórias, a representação da temperança, do amor? O que elas nos estariam querendo dizer? E quanto à riqueza dos rituais de passagem, o que poderíamos entender da sua importância para as culturas? Ainda hoje acontecem e se constituem uma consistente urdidura, enraizada nos mitos, até como práxis pedagógica para que o conhecimento ancestral seja relatado e entendido pelos mais jovens.
Quanto ao amor, esse sentimento indescritível, do ponto de vista filosófico, seria um fenômeno metafísico, portanto algo que não se realiza concretamente, permanecendo uma experiência do nosso imaginário. Entretanto, sabemos por experiência própria, que quando sentimos amor, que é uma experiência do corpo, ocorrem mudanças de ordem biológica, física, bioquímica, evidenciadas no fluxo sanguíneo, tônus muscular (batimentos cardíacos), respiratório... mas como conseqüência de um processo emocional, advindo da consciência da simples existência/aproximação (até não física) do alvo do nosso amor. Então, essas são duas realidades acontecendo simultaneamente (como nos refere a Física Quântica!); dois lados da mesma moeda, que não se excluem; uma soma da emoção e do corpo.
O poeta Aristófanes, em O Banquete, de Platão, se utilizou de um mito para explicar o amor, segundo o qual duas pessoas que se amam não sabem dizer o que uma espera da outra, porque em tempos ancestres os humanos teriam sido um só ser; a saudade desse outro eu e a vontade de reintegrá-lo é o que chamamos amor. Com isso o poeta quis dizer que a vontade de estar junto não seria apenas uma manifestação do corpo, mas da alma, da essência; a consciência da incompletude. Seria essa a solução do “puzzle” da vida? Seria esse o fim ultimo do amor, encontrar sua outra metade perdida e retornar à sua natureza primitiva?
Há um grande equívoco em relação ao entendimento do “amor platônico”; para o filósofo, amar não se restringiria a desejar, de longe, de forma assexuada, o objeto do seu amor. Para ele o amor sexual é um ato natural, com infinitas e profundas raízes, que aconteceria num processo de gradação, iniciando-se com o amor físico até a sua forma mais universal e superior. Diz ele do amor: “é uma loucura que é dádiva divina, fonte das principais bênçãos concedidas ao homem...” E eu concordo! Esse é um estado de graça, sem deixar de ser um misto de encanto e amor/verdade, desde que nos disponhamos a entender as vulnerabilidades, os medos, as humanidades do outro; no amor também é preciso que se realize o exercício da empatia, para que se obtenha a tão cobiçada cumplicidade.
Diante dessas reflexões posso concluir que, embora exista uma tendência da sociedade em sublimar as realidades do corpo, podemos viver plena e responsavelmente essas experiências sem nos tornarmos seres do instinto ou da selvageria; não havendo nada de errado nisso! Então, mitologia e sentimento se completam, na medida em que decidamos viver essas imagens, essas histórias, tornando-as uma experiência pessoal plena de possibilidades, já que entendo que transitamos em dimensões que se completam; não é o ser que se completa no outro, porque somos únicos e inteiros; não somos frações de seres; não somos metade de absolutamente nada, uma vez que não concebo colocar nos ombros de outrem a responsabilidade da minha felicidade! Seria o mito ajudando-nos a estruturar a experiência do corpo. E como isso é bom, gente!...

quarta-feira, maio 16, 2007

Sísifo contemporâneo (guacira maciel)

Já havia lido há algum tempo o Mito de Sísifo, de Albert Camus, que o escreveu aos 24 anos; quanta lucidez para tão pouca idade!...
Dias atrás, pesquisando na Internet, encontrei-o e tive curiosidade de ler alguns trechos e, como sempre faço com trabalhos lidos há muito tempo, comecei a repensar o tema sob o olhar que hoje tenho de velhas questões inseridas num contexto novo.
Li, inclusive, o comentário de Mauro Gama, que seria interessante colocar aqui, como referência para o âmago desse pensar. Em sua análise, ele fala dos profundos e devastadores conflitos do homem contemporâneo, que superariam os de todas as épocas anteriores. Os desdobramentos destes, com os quais convivemos hoje, tendo como precursores os grandes pensadores e homens de ciência, nos remeteram a uma tão profunda solidão e desespero, que somos inexoravelmente impelidos à busca de valores aos quais nos apegar.
Não saberia, eu, se valores novos, se os há, ou aqueles dos quais nos distanciamos tanto, que nos saíram, até, da lembrança e assim, os imaginamos novos.
Esse ser contemporâneo tão só e sem amigos, conta apenas consigo mesmo; com medo das ciladas do cotidiano ele tenta desesperadamente manter-se lúcido. A partir da análise que hoje faço de Sísifo, a história da mitologia grega, que, segundo Homero, ousada e inteligentemente acorrentou a morte ( eu faria o mesmo se pudesse), apreendo uma nova realidade; uma formulação do absurdo da sua condição. Com perplexidade percebo o quanto a condição do herói absurdo se ampliou e se estendeu, chegando ao absurdo do homem (anti-herói) que nos é referido pelo comentário acima; adquirindo novas máscaras ele se posta fora, sem lucidez alguma; Sísifo, ao menos tem consciência do seu trágico e inevitável destino, conseqüente, por ter-se rebelado e usado a inteligência.
Assim, falo aqui do absurdo do homem; a teia em que se viu aprisionado sem ao menos se dar conta que foi devorado por “obrigações e incumbências inúteis”; atitudes inócuas, porque individuais e egoístas. Esse homem contemporâneo se impõe rolar a pedra morro acima como única forma de manter-se um vivo/anestesiado e assim, pensando-se protegido, imune... Porque nem ao menos nos intervalos, depois que a pedra rola ladeira abaixo, até que a pegue de novo, ele reflete, se renova, ou toma consciência. Ao contrário, prefere a intimidade da pedra, que muitas vezes o impede de enxergar, e está tão bom nisso que chegará a passar à sua frente até que ela acabe por esmagá-lo! “É preciso imaginar Sísifo feliz...”.

OBS. No início do século XX, Maiakovski, poeta russo escreveu sobre esse homem; assim como Bertold Brecht; Marin Niemoller, símbolo de resistência aos nazistas, e mais recentemente, em fevereiro de 2007, Cláudio Humberto, um brasileiro, nos fala da indiferença em relação ao outro, no cotidiano, até que a violência o atinja também.
Ou seja, estamos “aperfeiçoando” esse homem; estamos inertes e submetidos, vivendo a ruína moral quase absoluta.

domingo, março 04, 2007

Olhares (guacira maciel)

O sol é o mesmo, o mundo é o mesmo, mas a cada dia acordo com um novo olhar sobre as mesmas coisas...e isso muda tudo, não? se pensarmos que todas as verdades são precárias... assim, seria bom, se pudéssemos, fazer uma força para entender a verdade que mobiliza quem nos fere; até nisso há lições, ensinamentos...
Não descobrimos o absurdo até conhecermos a felicidade; são dois lados da mesma moeda, indissociáveis, e que não são excludentes, como na Física Quântica; mas uma outra possibilidade...o nosso olhar é que exclui!

Albert Camus...fantástico!! Um homem extremamente lúcido, realista, mas sensível, profundamente amoroso e apaixonado pela vida.

A cada vez que leio ou releio sua obra, descubro coisas novas...é desses homens eternos...
Olha só: Em O mito de Sísifo, encontrei pérolas...

Quando o chamamento da felicidade se torna demasiado premente; a tristeza se ergue no coração do homem...é a vitoria do rochedo...e o infortúnio se torna pesado demais pra carregar.
A própria luta para atingir os píncaros basta para encher um coração de homem.É preciso ima ginar Sísifo feliz...

Não há amor generoso senão aquele que se sabe ao mesmo tempo passageiro e singular.
Eu amo a vida, eis a minha verdadeira fraqueza.Amo-a tanto, que não tenho nenhuma imaginação para o que não for vida.

Um grande escritor sempre traz consigo seu mundo e sua prédica.

O que é, com efeito, o homem absurdo...aquele que sem o negar, nada faz pelo eterno.