O meu interesse em relação à Literatura, é tentar entender (e
desvendar)o que chamaria de mistérios;
uma compreensão muito pessoal, intima mesmo, do que sobrevive sem ter
sido dito, porque o interdiscurso só se constitui a partir de outro que já
existe, e pode ser descoberto através da exposição, que pode ser diferente para
cada explorador, a depender da sua percepção, história, interesses e memórias;
aqui, poderia invocar os postulados da Semiótica, que, transitando em todos os
espaços, evidencia sua capacidade de estabelecer e entender as relações
existentes entre representado e representante, e, em sendo assim, não
posso submeter minha liberdade pessoal à cânones, sejam quais forem eles, mesmo
que acadêmicos. Um interdiscurso carrega em si outros discursos, já ditos ou
ainda por serem produzidos, podendo ocorrer por apropriação de ideias já expressas
num texto.
Um texto literário, como criação, referindo-me ao “não dito”, em que são expressas compreensões de mundo e experiências pessoais, é tão plástico quanto uma pintura, um desenho e, dessa forma, como esses, sobrevive a partir da compreensão do leitor, que o interpreta, por se tratar de percepção, o que é subjetivo, porque, como já referido, estarão presentes elementos da sua experiência, da sua história, da sua memória, inclusive, porque a memória fala em outro lugar, tornando o já dito um discurso móvel e sem fronteiras. Quando deixo escorregar o pincel sobre a tela, embora tenha uma ideia inicial do que penso pintar, não tenho total controle sobre o resultado final... muitas vezes o pincel é arrebatado e o trabalho escapa à minha determinação. Assim é o ato de se expressar escrevendo; a Literatura, diferentemente de um texto acadêmico, é simbolista, metafórica, carregada de subjetividade, de representações, do que está submerso em nós. Escrevo, para me expressar, para me fazer representar em meu tempo humano, para deleite pessoal e, quem sabe, estimular a percepção do interdiscurso em quem me lê, não havendo ai, desejo nem obrigação de legitimar qualquer coisa, nem na relação do discurso e interdiscurso, até porque, posso ser lida por uma diversidade tão grande de pessoas, com histórias pessoais, ideologias e memórias tão diversas, em momentos sociais, políticos e históricos também tão diversos, que o “já dito” vai se ressignificando sem controle, para que o discurso faça sentido. O meu trabalho pode ser lido por qualquer público, inclusive aquele caracterizado por alguns como iletrado, que poderá interpretá-lo segundo sua condição ou necessidade, ou entendimento do próprio texto e concepção de mundo, suas experiências, história, sua condição social, cultural e, até espiritual, uma vez que a obra, depois de publicada, depois de entregue ao público, não pertence mais ao seu autor, no sentido do domínio interpretativo e terá tantos co-autores quantos o possam ler...
Além dessa estética do discurso, no sentido mais profundo ou
profano, eu também preciso expor a estética da minha percepção daquilo sobre o
que escrevo. A minha literatura carrega
minhas impressões, minhas memórias subjacentes ou não, minha história pessoal,
a minha fantasia, a minha música particular, tudo, aliado ao que percebo da
vida, das relações, das coisas, das experiências, da paisagem, das pessoas que,
às vezes, apenas passam por mim ou daquelas que cruzam o meu caminho e me
afetam profundamente por instantes que poderão jamais se repetir... toda essa
sinfonia, sei, tem um forte caráter de "nonsense", porque o meu
discurso é móvel e impermanente, é, mesmo, imperfeito, como eu, pois nele
imprimo quem sou, aliado às memória da minha história, construída pela minha
experiência social. Além dessa carga social, cultural e espiritual, e meu ritmo
e pausas, que vão refletir o meu sentimento naquele exato momento, assim como a
dramaticidade que quero demonstrar, aliando a minha atmosfera íntima, à
atmosfera externa, na tentativa de capturar ou “imprimir” aquele fragmento de
tempo através do discurso, que será, entenda-se, um cenário para o
interdiscurso.