Da mais alta janela da minha casa, com um lenço branco, digo adeus aos meus versos que partem para a humanidade. E não estou alegre nem triste; este é o destino dos versos [...]. Quem sabe quem os lerá? Quem sabe a que mãos irão? Fernando Pessoa.

Obs. usando a autonomia que a licença poética e a própria cultura brasileira me permitem, não adoto linearmente essa segunda outorga (arbitrária) da língua portuguesa.


sábado, dezembro 15, 2012

O fio da barba (Guacira Maciel)


Eu não era uma criança diferente; sentia pelo Natal o mesmo encanto que as outras crianças. Porém, o meu maior sonho não era ganhar os presentes; eu tinha um desejo secreto: tocar na barba do Papai Noel para saber se ela era maciinha como a espuma que fazia o meu sabonete na hora do banho... Quando minha mãe começava a tirar do armário as caixas que continham os enfeites da árvore e os novelos embaraçados, por mais que ela tentasse evitar isso, de luzinhas coloridas que deixavam a casa toda com uma cara de caixa de presentes, eu começava a ficar pensativa e ansiosa. Sempre tinha esperança que naquele Natal acontecesse um milagre e eu conseguisse ficar acordada para ver a chegada daquele velhinho mágico, que só aparecia uma vez ao ano. Minha mãe adorava aquela época de festas e cuidava de todos os detalhes com a maior alegria. Apesar de nossa casa parecer estar sempre em festa, porque meus pais eram muito alegres e sempre tínhamos visitas, almoços, danças, contagem de história, filmes e coisas assim, no Natal tudo tinha um brilho diferente. E então, começava para mim a contagem regressiva. Mas certa manhã de domingo, a excitação me tirou mais cedo da cama e corri para a sala com os pés descalços e as tranças desfeitas pensando em me certificar de que a árvore já estava arrumada, quando percebi meu pai sentado tenso no sofá e minha mãe, quase pendurada sobre sua cabeça, tentando fazer alguma coisa que terminou por arrancar-lhe um __ Aiii!... abafado, com receio de nos acordar. Não dei muita importância ao inusitado da cena e continuei escondida olhando deslumbrada o brilho dos enfeites até adormecer ali mesmo e ser levada de volta à cama, acho... Quando, finalmente, chegou a esperada noite, após todas as brincadeiras e comilanças, fomos enviados às nossas camas, porque o velhino “só distribuiria os presentes se estivéssemos dormindo”. Na manhã seguite, em meio a toda a confusão para que cada um encontrasse o seu pacote (éramos seis filhos), notei um pequeno envelope branco preso àquele que tinha meu nome  e tratei de abrí-lo intrigada. Para meu espanto e decepção, lá dentro estava um fio de cabelo branco acompanhado de um bilhetinho: “Se for uma menina cuidadosa, guardará este fio da minha barba e me entregará no próximo Natal. Assinado: Papai Noel”

Um comentário:

O Sibarita disse...

Belo conto, porreta mesmo!

Essa magia de papai Noel é algo que levamos para o resto da vida, o lúdico que nos faz bem, né não? kkkkkkk

Ei mulher porreta meu Deus! kkkk

O Sibarita