Da mais alta janela da minha casa, com um lenço branco, digo adeus aos meus versos que partem para a humanidade. E não estou alegre nem triste; este é o destino dos versos [...]. Quem sabe quem os lerá? Quem sabe a que mãos irão? Fernando Pessoa.

Obs. usando a autonomia que a licença poética e a própria cultura brasileira me permitem, não adoto linearmente essa segunda outorga (arbitrária) da língua portuguesa.


segunda-feira, agosto 20, 2012

Essência feminina...(guacira)

O ser humano tem uma natureza essencial e esta não muda; assim, a mulher, como o homem, não mudou em sua gênese, apesar de todos os avanços nos estudos que tentam compreender essa natureza.
Talvez vá causar alguma perplexidade com o que direi a seguir sobre um desses depoimentos que estão muito em moda; todo mundo repetindo o mesmo discurso para parecer inserido no mundo contemporâneo; mas não é como percebo tudo isso, e estarei sendo verdadeira, é o que preciso e o que me basta. Os sentimentos de cada pessoa devem estar coerentes com ela mesma, unicamente. Cada um tem o direito de se posicionar e mais, se sentir segundo suas necessidades íntimas, pessoais...
Vamos lá: outro dia, pela enésima vez (e depois de ouvir outras tantas...), recebi uma mensagem pela Internet, em que uma mulher (não lembro o nome, nem sei se era alguém conhecido) dizia ser muito bom viver só, e dava mil razões (dela) para a questão. Eu respondi para quem me enviou o texto (alguém que não vive só, claro!), o seguinte: amiga, eu discordo veementemente desse discurso vazio, e não sei por que, logo você, o está divulgando para tantas pessoas, se sabemos que não é o que pensa e quer, verdadeiramente; isto porque eu lhe havia dito: se é tão ruim ter alguém, ter o seu companheiro, por que não o deixa, uma vez que ele, sendo humano, não é perfeito? ela não soube argumentar, claro. Voltemos à mensagem... em seguida, dei a ela o meu depoimento por escrito sobre a questão. E repito-o quase na íntegra agora.
Eu sou mulher e creio que a mulher comum, onde me insiro, não gosta e não fica feliz  tendo que viver só, coisa nenhuma! aliás, não acredito que qualquer ser humano que não tenha vocação para monge tibetano ou eremita, pode ser feliz assim. Creio que fomos criados para a partilha, para a convivência. Por mais que seja difícil viver junto, também é gostoso... não estou dizendo aqui que o convívio diário com qualquer pessoa, mesmo da nossa família (pais, irmãos, etc) seja fácil, logo, não o será com um estranho, que tem hábitos, educação, cultura, história e necessidades diferentes. Aí veio à lembrança aquela conversa, que não é  mais  que um chavão: mas eu tenho muitos amigos... sei... porém, há que chegar, e chega, o momento em que os amigos têm que cuidar da própria vida, das suas questões e da própria solidão, se for o caso; aquele momento em que você fecha a porta atrás de si à noite, se vira para o lado e não encontra ninguém que lhe dê uma palavra...e você começa a falar sozinho ou liga a TV para ouvir uma voz humana...isso é o fim da picada, literalmente! e também não creio que a convivência tire a privacidade, isso é paranoia do mundo contemporâneo em que as pessoas não sabem e não querem e, muitas vezes, não estimulam a própria a sensibilidade para conviver com respeito ao outro; que é muito bom ter amizades coloridas, cada um na sua, etc, etc., pois, acho que para a maioria de nós, mulheres principalmente, chega o momento em que sentimos necessidade de permanência, de sentir sob os pés um terreno mais firme onde deitar raízes...a gente precisa “pertencer” a alguma coisa, estar inserida em algum contexto para poder viver bem; é natural no ser humano, não apenas para as mulheres. Apesar de belíssima flor, eu não sou uma vitória-régia, que não fixa raízes; que está sempre flutuando sem se prender em nada, sem porto. O sentimento de pertença dá conforto, segurança de não estar rolando pelas estradas do mundo sem o encontro verdadeiro...
E, por mais que essa prédica seja tão constante que virou um verdadeiro massacre repetitivo e falso, o que se vê é que todos, absolutamente todos nós nos cuidamos, nos enfeitamos para encantar a alguém; não apenas para nos sentirmos bem conosco, o que é importantíssimo; não tenho nada contra isso, muito pelo contrário. Essa é uma prática e uma necessidade recorrente em todas as culturas através dos tempos, sendo que os meios de sedução são inerentes a cada uma delas. Não fora assim, o que explicaria esse verdadeiro êxodo para as academias em busca do corpo e da performance perfeitos? o que explicaria o consumismo absurdo de todos os tipos de produtos para todos os fins? o que explicaria a mais absurda e quase irracional busca pelo prolongamento da beleza e da juventude em clínicas de rejuvenescimento? o que explicaria a proliferação dos sites de relacionamento, na tentativa de acabar com a própria solidão ou seria para satisfazer-se diante do espelho, com uma dose exagerada de sentimento narcisista e depois ir deitar-se sozinho, batendo no peito: eu sou maravilhoso e me basto a mim mesmo; estou muito feliz, fulano, um avatar, está encantado comigo... e depois devorar-se com todos os requintes antropofágicos?
Não é não...vamos ser honestos; vamos admitir que, apesar de todo esse discurso na tentativa de sublimação, de convencimento de si mesmo e do outro, e dessa busca quase desesperada por algo que se posiciona cada vez mais, fora do nosso alcance, somos  pessoas que se sentem cada vez mais sozinhas, e isso amedronta, porque percebemos que o cerco da solidão e da vida se fecha cada vez mais e nos sentimos claustrofóbicos nesse estreito. Evidentemente, não estou dizendo que devamos colocar a nossa vida, a nossa realização pessoal, as nossa buscas intimas e a nossa felicidade sob a responsabilidade do outro, ao contrário, precisamos estar tão equilibrados quanto possível, para que estar com alguém, seja bom, de fato; que o encontro seja bom, e só o será se houver sintonia, sensibilidade, do contrário, seria um fardo pesado, porque o outro já tem o seu quinhão.
Na minha análise, o que nos levou a esse estado de solidão absoluta e, por outro lado, essa busca desesperada pelo encontro, foi o nosso egoismo, a nossa intolerância, a nossa prepotência, o nosso apego à matéria, o receio das perdas materiais e essa necessidade avara e doentia de ter, de ajuntar bens e depois, sentar em cima de uma montanha de coisas feito o famigerado Tio Patinhas, e olhar para o lado sempre com receio do outro,  com receio de ser roubado por ele...
Agora me veio ao pensamento algo que li sobre “Alexandre, o Grande”: ele teria ordenado que quando morresse queria que os seus generais pegassem na alça do seu caixão, que seus bens fossem sendo deixado ao longo do caminho para sua ultima morada, e que suas mão ficassem para o lado de fora do caixão, para que as pessoas soubessem que o poder, encarnado pelos generais, não tinha nenhum valor para a eternidade, que dessa vida não se leva bens materiais e que chegamos de mão vazias e assim temos que partir.
Quem assistiu ao filme, "E ai, comeu ?", pode perceber que, no fundo, no fundo, todos ali se sentiam profundamente solitários, frustrados e infelizes com a possibilidade de perder o companheiro,o  seu amor! os homens, então... iam aos bares, em busca de "putas" e "surubas", mas não faziam NADA! Queriam, apenas, a volta daquela de quem gostavam. Gente, pelo amor de Deus!...
 Me contem outra; eu detesto solidão - e adianto que me dou muito bem comigo mesma - o que não significa dizer que não seja bom e saudável desejar ter momentos em que precise ficar só, se assim desejar; solidão é muito diferente de estar só, ficar só é muito definitivo, porque implica em compulsoriedade e não, em momentaneidade, em transitoriedade. Isso é uma falácia...não acredito que alguém fique feliz tendo que ficar só, que é muito diferente de optar por momentos consigo mesmo para reflexão, para dar-se um tempo, ler um livro, etc, etc. É isso aí...

2 comentários:

O Sibarita disse...

Aimôpai, viver só, é? kkkkkk

Moça, quem prega uma coisa dessa bom sujeito não é, é ruim da cabeça ou do pé, (parodiando o Samba da Minha Terra do magistral Caymmi) né não? Repare... kkkkkk

Seu brilhante texto já diz tudo! A pregação de se viver só, ao meu ver, é fruto do individualismo de muitos que não quer repartir, que não quer ser parceiro, que não quer ouvir e ser ouvido, que não quer dividir suas alegrias e suas tristezas, que não pensa no próximo, estes, reforçando acima, são individualistas por coviniência ou por se acharem acima de tudo e de todos, uma pena...

Estas pessoas, creio, são frustadas, só podem ser, acredite! Eles me lembram os que se dizem ateus e na menor dificuldade, exclamam: "Ó meu Deus!" kkkkk Assim, os que pregam viver sozinhos, em alguns momentos de pura solidão entre quatro paredes com certeza vai procurar alguém para conversar, para desabafar porque nenhuma lua, nenhuma estrela, nenhum sol vai penetrar na sua sala, no seu quarto, na sua janela, é tudo penumbra! kkkkkkkkkk

Oí Fia, deixa lá eles, isso é onde, no fundo todos eles querem ter alguém por perto, mas, são frustados... kkkkkkkkkkkkkkkkkkk

Demais seu texto!

O Sibarita

Guacira Maciel disse...

Pois é, meu querido...já pensou? Eu hein? rsss...

Obrigada pelo comentário.
Beijo,
Guacira