Da mais alta janela da minha casa, com um lenço branco, digo adeus aos meus versos que partem para a humanidade. E não estou alegre nem triste; este é o destino dos versos [...]. Quem sabe quem os lerá? Quem sabe a que mãos irão? Fernando Pessoa.

Obs. usando a autonomia que a licença poética e a própria cultura brasileira me permitem, não adoto linearmente essa segunda outorga (arbitrária) da língua portuguesa.


domingo, janeiro 22, 2012

Inatingível...(guacira maciel)

Para Machado, Saramago, entre outros, ainda que com polêmica, só escreve quem lê, ou a escrita é fruto das leituras que realizamos, ou...não importa... Fui cuidar das unhas em um salão de beleza, na cidade de Senhor do Bonfim, onde fora trabalhar por uns dias e, movida pelo tedioso ambiente, peguei uma revista e comecei a ler aleatoriamente. Então, bati com os olhos em duas reportagens que, aparentemente, não tinham nenhuma relação, mas me levaram numa viagem... e comecei a escrever quase freneticamente em um pequeno pedaço de papel que encontrei sobre uma mesinha. A primeira delas dizia: “porque Gisele Bundchen é inatingível,[...] sem a arruaça venal que contaminou a Internet” ai fala de sua sofisticação, etc. etc. Eu concordei até certo ponto; no todo, a moça, esteticamente, tem uma imagem linda, é sofisticada, elegante, e quando desfila, adquire um brilho que induz a uma aparição, os cabelos esvoaçantes dão ideia de fuga, que seria uma das formas como eu poderia representar a fuga numa imagem, e tal...
Mas a outra reportagem me levou a fazer algumas reflexões sobre o inatingível, e para mim, uma pessoa que traduz a imagem do inatingível é o fantástico Maestro João Carlos Martins. Gente! que pessoa é essa? a própria encarnação do inatingível na sua fragilidade carnal, a própria encarnação da superação, da capacidade de resiliência! inclusive, ao ser inquirido pelo repórter se “dar a volta por cima dá barato?” ele, com a energia que emana da sua imagem (não o conheço pessoalmente, mas bem que gostaria...) respondeu que, “embora isso aconteça, também o leva a ficar emocionalmente mais sensível”, porque,” a cada momento de superação, a cada momento forte em minha vida começo a chorar, porque vejo que é uma conquista interior".
Esse homem é um dos pianistas brasileiros mais conhecidos, e um dos mais conceituados intérpretes de Bach ao piano, uma sensibilidade tão à flor da pele que lhe dá asas, e que poderia ser abatida por tanto sofrimento, mas que, ao contrário, o fortalece e o faz buscar outros caminhos para expressar sua Arte, quando o anterior lhe é negado pelas contingências da vida.
Um lutador, e também um exemplo de amor e respeito à vida, e compreensão do seu transcendente e importante papel no Universo; em 1965, levou um tombo brutal no futebol e as conseqüências o levaram a interromper a carreira em 1970; voltando, mesmo com os movimentos comprometidos, continuou a realizar seu magnífico trabalho, quando uma pancada na cabeça durante um assalto lhe imobilizou totalmente o movimento das mãos; não bastando, em 2002 um tumor na mão esquerda parecia ter dado o golpe de misericórdia em sua atuação, porém, não satisfeito e movido por seu espírito superior, retorna esse lutador como maestro, com uma energia, uma entrega admirável; com maior sensibilidade, se isso fosse possível...Na verdade, ele usou a batuta com uma força e uma delicadeza descomunais para orquestrar a sinfonia da própria vida, e nos dar a felicidade que poucos conseguiriam na área...Palmas para o Maestro João Carlos Martins, um homem de espírito inatingível.

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