Da mais alta janela da minha casa, com um lenço branco, digo adeus aos meus versos que partem para a humanidade. E não estou alegre nem triste; este é o destino dos versos [...]. Quem sabe quem os lerá? Quem sabe a que mãos irão? Fernando Pessoa.

Obs. usando a autonomia que a licença poética e a própria cultura brasileira me permitem, não adoto linearmente essa segunda outorga (arbitrária) da língua portuguesa.


terça-feira, junho 14, 2011

Fernando Pessoa...(guacira maciel)

...imortal, porque os gênios não morrem; eles vão descansar. Afinal, deve ser muito cansativo conviver com a mediocridade, com a brutalidade, com a aridez de espírito. Eu amo esses homens geniais...amo Vincent VanGogh (dêm uma olhadinha aí ao lado, bem à sua esquerda...). Amo Einstein, Antonin Artaud e muitos outros. Os gênios são pessoas com as quais o mundo teve o privilégio de conviver, mas não entendeu. Eles existiram – estou falando no passado, porque gênios não andam nascendo às pencas por ai – exatamente, para nos mostrar o quanto somos medíocres. E percebam que eles não se acharam gênios, porque esses seres são humildes e sabem o quanto são limitados – imaginem! –; eles tinham consciência que quanto mais estudavam, mais tinham o que aprender...
Fernando Pessoa não foi compreendido também. Aliás, um amigo – português – fala que eu não sei o que digo, porque Pessoa nada mais é que um esquizofrênico. Bem, esta avaliação acerca deles – os gênios – não é novidade, porque todos sempre foram considerados loucos e muitos deles internados em manicômios... O caso de Artaud, inclusive, é atípico, porque seu próprio médico incentivava e lia o que ele escrevia, mas tratava-o como louco...
Posso entender com muita clareza que Pessoa foi uma dessas pessoas que compreendeu que um único eu, aquele pelo qual fazemos a opção primordial, é muito limitante...
No meu livro “A importância da Arte na aprendizagem” trago essa discussão; será que o fato de ter fazer a opção por uma dimensão individual traz essa insatisfação, permanecendo a sensação de ausência, de incompletude? Será que precisamos ser mais que apenas o ‘eu’ pelo qual optamos? Haveria angústia na solidão desse ‘eu’? Nos sentiríamos aprisionados e limitados a essa escolha e buscamos ampliá-la através de uma espécie de alteridade? Haveria um sentimento inconsciente de que a Arte poderia socializar nosso ‘eu’, oferecendo-lhe uma existência coletiva, ou alguma outra possibilidade?
Neste caso, me pergunto, qual seria, verdadeiramente, a natureza do homem? Imagino que não temos a necessária compreensão da amplitude dessa natureza. Talvez isso possa indicar que buscamos na arte a possibilidade de um homem coletivo e menos solitário, admitindo que o homem se sente parte da totalidade (homem coletivo) que a humanidade representa, pela possibilidade de ser um com esse todo, ou o homem completo, remetendo-nos à visão mitológica da busca da totalidade perdida, da sua outra metade. Seria esta também função da Arte? Em sendo assim, seria ela uma oportunidade de libertação de uma vida que nos subjuga e submete, podendo transformar-se numa espécie de redenção do observador, pela representação dessa realidade? Nessa perspectiva, comecei a pensar e achar que por esse caminho teria uma possibilidade de entender o enigma Fernando Pessoa e seus heterônimos... Eles me parecem essa oportunidade de representação de outros ‘eus’ percebidos pelo observador e extremamente necessitados de extrapolar e explorar a incompletude de um único sujeito pelo qual Pessoa, como todos nós, teve que optar. Sabemos que Alberto Caeiro, Ricardo Reis e Álvaro de Campos, entre outros, têm personalidades, modos de pensar, e vidas completamente diferentes e independentes dos outros. Teria Pessoa encontrado nesse caminho uma forma de desdobrar-se e sobreviver ao sujeito “ele mesmo”?
Entendo que a Arte tem, além da função de busca e exposição do ‘eu’, pela representação, uma função libertadora, pois ao se identificar com uma realidade fictícia o sujeito consegue se libertar dele, através do afrouxamento dos laços desse ‘eu’ primordial que o aprisionam numa unica dimensão emocional, psicológica, que impossibilita outras oportunidades de representação...
Uma das obras mais geniais de Pessoa é “Mensagem”; sugiro que a leiam...

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