Da mais alta janela da minha casa, com um lenço branco, digo adeus aos meus versos que partem para a humanidade. E não estou alegre nem triste; este é o destino dos versos [...]. Quem sabe quem os lerá? Quem sabe a que mãos irão? Fernando Pessoa.

Obs. usando a autonomia que a licença poética e a própria cultura brasileira me permitem, não adoto linearmente essa segunda outorga (arbitrária) da língua portuguesa.


segunda-feira, junho 27, 2011

"Cruz do Meu Rosário" (fragmento II - guacira maciel)

Carlos presenciara uma realidade inimaginável;sempre pensara na lavra do diamante como uma grande aventura, cheia de emoções quixotescas...
Algumas vezes, encontrando-se perto de garimpeiros ele ouvia conversas à meia voz, nos raros momentos em que se davam o luxo de sonhar com planos de futuro:
-- Seu Zequinha, o qui o sinhô vai fazê primero quando encontrá aquele bichão piscando com uns oio de todas cor qui se pode pensá?
-- Hum...moço, sei não...nem quero pensá...é tantas coisa qui eu quero nessa vida de Deus...
-- Home, diz só a primera qui ocê tem na cabeça; eu, por mim, já sei o que vô fazê...
-- Intão conta aí!
-- Eu dô um berro como a fera qui sô; um urro das onça qui nois ovia vim de dentro da mata quando ia caçá...
-- Onça? aquilo lá é onça sô? era jaguatirica, qui aqui num tem onça das verdadera mermo!
-- É, eu sei, home...
-- Mas ocê só vai berrá qui nem a jaguatirica? é poco!
-- Não... depois eu disimbesto nesse mundão de meu Deus, qui nunca mais ocês bota os oio n'eu.
-- É... eu sei cuma é qui ocês fais ... e depois de ocê encher o rabo de toda cachaça e cumê todas as puta do arraiá, vorta morto de fome pra cumeçá tudinho otra vez. Eu sô mais veio qui tu e já vi muito minino fazê o mermo e depois vortá chorano cum o rabo entre as perna pidi trabaio di novo.
--O quê? cumigo não sô!...tô dizendo? eu num vorto nesse inferno é nunca mais; é bastante uma pedrinha das boa!
--Tá bom...pára de caçá cunversa qui o jagunço do coroné tá oiando pensando que nois tá cum arguma tramóia...
-- Cuma?
-- Ocê nunca viu falar das coisa qui os pesoá faz pra iscondê uma pedrinha mixuruca, não?
-- Conta o sinhô, intão...
-- Eu sô macaco veio e já vi coisa qui o Todo Puderoso duvida...
A essa altura ele tira respeitosamente da cabeça, frangalhos do que fora um chapéu.--Pois eu tô dizendo... por essa luz que me alumia, qui muitas vez chamaro o dotô Filício já cheio das cachaça pra tirá do rabo de muito macho aqui, um carbonato de nadinha, que iscondero lá pra robá o dono do garimpo...
-- Vixe Maria!...e o dotô, ele faz isso bebo mermo?
-- Ôxe! diz o povo, qui quanto mais incharcado das cachaça, mió ele trabaia; já vi muito macho chorando com as tripa de fora, de tanto tomá olio de rícino pra botá na bosta a pedrinha que robô...

-- Moço!... é mermo verdade, é?
Quando ouvia essas conversas, Carlos, decepcionado, sentia-se enjoado; o estômago contraindo-se embrulhado com tanta miséria...
Então, era isso a lavra do diamante? aquelas pedras maravilhosas que enchiam os olhos do seu pai e proporcionavam-lhe uma vida de príncipe, eram lavradas à custa de tanta desgraça alheia?...
O encanto de Carlos se devia ao fato de muitas e muitas vezes ter ficado embevecido a ouvir as estórias contadas pelos tropeiros ao final do dia - após intermináveis semanas de confinamento na serra - sentados nas mesinhas toscas dos botequins tomando cachaça de má qualidade. Eram, apenas, fantasias elocubradas naquele isolamento como forma de se protegerem da loucura absoluta, sobre o duro dia a dia vivido nas grotas, sem sequer perceberem que suas vidas se esvaiam junto com o suor que lhes brotava da pele crestada pelo sol implacável durante verões que chegavam à beira dos infernos, acrescidos da temperatura interna dos seus corpos tensos; pelo frio de rachar dos invernos ou das noites de qualquer estação, já que aquela região, como acontece nos desertos, tem noites extrememente frias e úmidas.
Naquele cenário dantesco eles iam gradualmente esquecendo da própria humanidade, cabendo ao delírio preservar tão somente, a vida que mantinha o sonho, como uma tênue chama, e assim, criavam uma supra realidade que gestava a esperança do tal bambúrrio.
Muitos adoeciam pelas mais variadas razões, desde a desnutrição, porque o pouco que tinham haviam comprado o equipamento para iniciar a jornada, ficando uma miséria para a precária alimentação, que mal os mantinha como elemtento de combustão para a mortal lavra; a maioria não por muito tempo. Então, à medida que os fortes iam perdendo a saúde, eram substituídos por corpos jovens (apenas corpos) e saudáveis. Para a imensa maioria a velhice prematura chegava e ainda encontrava uma delirante esperança de riqueza.
Em uma das turmas de recém chegados encontrava-se Carlos, cujo sobrenome era totalmente desconhecido, pois seu pai, o velho coronel, não lhe permitira regalias de filho do dono do garimpo. Naquele ambiente podia-se dizer que havia igualdade, nem que fosse de uma forma que os tornava desiguais em relação aos outros seres humanos. No domingo do primeiro final de semana, único dia em que podiam fazer uma pausa naquela exaustiva labuta, tendo febrilmente preseo em uma das mãos, um ramo de uma das espécies nativas - e até então desconhecidas - de belíssima orquídea, Carlos desceu a serra...

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