Da mais alta janela da minha casa, com um lenço branco, digo adeus aos meus versos que partem para a humanidade. E não estou alegre nem triste; este é o destino dos versos [...]. Quem sabe quem os lerá? Quem sabe a que mãos irão? Fernando Pessoa.

Obs. usando a autonomia que a licença poética e a própria cultura brasileira me permitem, não adoto linearmente essa segunda outorga (arbitrária) da língua portuguesa.


sexta-feira, abril 08, 2011

Outra história de amor...Sibila; um amor canino.

Ao escrever histórias de amor, venho sendo perseguida pela certeza de que esta também é uma história de amor. Um amor novo, mas nem por isso de menor valor, muito pelo contrário, ele me tem servido como forte referencial para as análises que hoje faço sobre esse sentimento que dizem ser privilégio dos seres humanos. Será?

Sibila é uma cadelinha insuportável, de seis meses de idade; uma linda vira-lata que virou princesa, mas por não ter uma ascendência registrável sofre preconceitos por parte de seres humanos, os únicos que se dizem capazes de amar. Minha filha e eu vivemos numa casa e assim pude realizar seu sonho de ter um cachorro. Nós ganhamos Sibila de uma veterinária que lhe buscava uma família, porque a tinha encontrado na rua e não podia adotar mais um cão...

Foi-nos entregue desidratada, magrinha, doente e infestada de pulgas. Logo percebi nela a fragilidade própria dos que não crêem; dos que aceitam o abandono como destino e a consequente solidão. Internei-a em uma clínica para tratamento emergencial, e depois minha filha e eu iniciamos uma verdadeira maratona com uso de medicamentos e alimentação adequada para que se recuperasse.

Ela nos causava momentos hilariantes quando era chegada a hora de tomar os antibióticos, administrados por via oral com seringas, pelo estado de euforia em que ficava, só ao lhes sentir o cheiro; adorava esses momentos e saía me lambendo as mãos para aproveitar os menores vestígios do remédio.

Pois, como nosso objeto de análise é esse sentimento tão controverso, mal compreendido e maltratado (e mal tratado também rss), posso afirmar jamais ter observado um amor tão sem reservas, tão puro, tão espontâneo, sem máscaras e incondicional, o que me levou a refletir, a poucos dias, que os nossos próprios filhos jamais nos dariam por toda a vida (deles e nossa) essa sensação, essa segurança.

Ao voltar para casa à noite, após um cansativo dia de trabalho, às vezes desesperançosa e com receio de estar só, sou recebida por ela, assim que abro o portão de casa, com uma manifestação de felicidade, de saudade acumulada, que chega a me parecer um desvario, um acesso de loucura...Então, começa a correr de um lado para outro, desenfreada, sem cuidado e sem medo de se machucar. Quando saio do carro pula sobre mim, me arranha e me puxa a roupa, numa demonstração de extravasamento, de entrega sem limites e sem cobrança pelo fato de tê-la abandonado por todo o dia; aí, se deita aos meus pés pedindo um carinho e isso a faz feliz...e isso basta.... Outro dia, ao falar sobre esse assunto com um professor, me veio a resposta de que essa demonstração eufórica não seria amor, porque os animais são irracionais e, se não pensam, não amam; seria apenas instinto. Mas que definição, que conceito temos de amor? O que seria amar? O que nós, seres humanos, sabemos sobre isso? Por que, pretensiosamente nos achamos os únicos seres capazes abrigar esse sentimento? Nós, que somos considerados animais superiores, somos capazes de ferir em nome desse sentimento (e de outros...), oferecendo uma incontestável prova de irracionalidade.

Não creio que o amor, esse sentimento espontâneo e puro que vejo em Sibila, possa estar aprisionado na racionalidade. E se os cães são capazes de amar, das duas uma: ou eles não são irracionais ou os homens, que ferem invocando o seu nome é que o são.

Obs. Aqui ainda caberia uma outra discussão: o nível de irracionalidade contido no amor..Será que amamos, exatamente, quando deixamos de lado a racionalidade? quando nos despojamos da pretensão de sermos seres pensantes? ou o amor é que nos tira essa capacidade momentaneamente, e amamos exatamente porque a perdemos, ainda que por determinados períodos da nossa vida?

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