Da mais alta janela da minha casa, com um lenço branco, digo adeus aos meus versos que partem para a humanidade. E não estou alegre nem triste; este é o destino dos versos [...]. Quem sabe quem os lerá? Quem sabe a que mãos irão? Fernando Pessoa.

Obs. usando a autonomia que a licença poética e a própria cultura brasileira me permitem, não adoto linearmente essa segunda outorga (arbitrária) da língua portuguesa.


quinta-feira, outubro 21, 2010

Supermundo (guacira maciel)

Parece um sonho recorrente da humanidade, viver no mundo perfeito, embora historicamente o homem não venha fazendo nenhum esforço para que isso ocorra, apesar das tentativas infrutíferas de alguns grupos específicos em conscientizar a todos sobre a fundamental importância de conviver num mundo com menos injustiças, mais respeito à sua natureza ampla, mais sensibilidade, mais tolerância, com aspirações menos materialistas e mais nobres, e a compreensão de que a perfeição não existe, uma vez que o homem é insaciável em suas ambições.
Ao encontro dessas reflexões vieram outras, estimuladas por um filme que assisti sobre o Super Homem e sua parceira Louis Lane, em que o vilão encontrava-se terrivelmente entediado porque vivia no mundo perfeito da utopia, idealizado pelo casal em questão. A partir daí a cabeça deu voltas à imaginação e foi invadida por um turbilhão de pensamentos, de analogias e referências, principalmente no âmbito da Filosofia e da Literatura, que me deixaram meio tonta. Viver no mundo perfeito teria muitas implicações, vantagens e desvantagens, satisfações e insatisfações, que interfeririam também em suas relações e seus mistérios.
Por outro lado, algumas questões que hoje são alvo de muitas discussões, muitas de conotação ética, precisariam ser analisadas... Bem, a partir daí lembrei da maior pretensão de vida harmônica e fraterna considerada a grande referência da maioria das sociedades em se tratando de reformas sociais: a proposta de Platão em sua “República”, escrita mais ou menos em 370 a 380 a. C. , em que foi usado, inclusive, o Mito da Caverna como fundamento e forma de superação do caos da realidade, tendo a racionalidade como estrutura, o que já se poderia considerar um ritual de passagem em relação à percepção das realidades, porque ocorre aí uma profunda ruptura que encaminha o homem ao conhecimento de si mesmo e de outros universos possíveis.
Aliás, os diálogos de “O Banquete” ocorridos mais ou menos à mesma época (380 a. C.), são vistos por mim como um acalorado papo de ressaca em que se elocubrava não apenas sobre o amor, de certa forma antecede o que foi proposto para “A República”, levando a crer que o “Simposion”, uma resposta da Polis contra as acusações da Filosofia, propõe que as cidades se pautem por um novo modelo, baseado na civilização ocidental e governada pelos “politikos”, ou seja, homens nascidos naquele solo, livres e iguais. Lá no “quarto passo” da escada do amor, Platão retoma o amor mais abrangente conduzindo ao “quinto passo” que evidencia o modo de funcionamento de uma sociedade harmônica e equilibrada, que “A República” cita como sendo amor pelas instituições belas, incluindo o interesse pelo bem comum. No “sexto passo” estabelecem-se elos entre as leis que “governam o indivíduo, a família e a sociedade”, embora indo além desse universo; o discurso ultrapassa o que seria um modelo de sociedade ideal e se reveste de um caráter completamente utópico, bem evidente no livro IX, em que o ideal humano tem foco na figura do filósofo como sendo um ser de elite, acima e além do homem real, animal. Entretanto, também se percebe algum bom senso e, de certa forma, um retorno àquele homem ‘primitivo’ mais puro, que produzia para obter o necessário à sobrevivência, sem a valorização doentia do supérfluo, entendido como excesso de cobiça que governa os desejos levando-os à insaciedade nas conquistas materiais, e à violência.
Platão entende que esses homens seriam ideais como administradores; ele estava falando de uma classe específica de pessoas à qual poucos pertenciam. Não seria essa supremacia intelectual uma forma de eugenia? Que, embora não se refira à questão étnica, me leva a perguntar: a que classe social pertenceriam esses sujeitos? Seu pensamento também se aproxima do homem ideal de Nietzsche, marcado pela força de caráter e de personalidade. Mas um super homem, “salvador”, também seria um ser incomum, dotado de virtudes e talentos especiais com condição de conduzir os destinos da humanidade; nessa questão, me parece, embora ambos promovam algum tipo de restrição, também sonham com uma vida que se fundamenta no bem estar comum, sendo que para Nietzsche o super homem é tão autônomo e poderoso que nos encaminharia ao mesmo homem contemporâneo, ávido de poder e de conquistas materiais...

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