Da mais alta janela da minha casa, com um lenço branco, digo adeus aos meus versos que partem para a humanidade. E não estou alegre nem triste; este é o destino dos versos [...]. Quem sabe quem os lerá? Quem sabe a que mãos irão? Fernando Pessoa.

Obs. usando a autonomia que a licença poética e a própria cultura brasileira me permitem, não adoto linearmente essa segunda outorga (arbitrária) da língua portuguesa.


segunda-feira, outubro 23, 2006

Os outros...para não cansá-los. (guacira)

Os poetas...
Este é um pais de gente criativa, eu sei. Entretanto, hoje gostaria de falar de um poeta português chamado José Régio, pseudônimo de José Maria dos Reis. Ele também foi romancista, ensaísta e crítico, mas como poeta foi arrebatador: por vezes extremamente amargo, angustiado, em consequência de sua visão de mundo, outras ácido, sarcástico, contraditório, mas também doce, suave e até ingênuo, como uma criança...
O meu olhar aqui, é um olhar que extrapola fronteiras... transcendendo todas as questões comezinhas, históricas, as violências cometidas e, embora entenda que não podemos retirar capítulos sofridos da nossa vida, também entendo que a Arte não pode ser preconceituosa, não pode estar a serviço dos rancores, dos revides, ou mesmo das reparações que, eventualmente, devam ser feitas (o que não será tratado aqui).
O poema desse grande autor que, indiscutivelmente, é um dos maiores representantes da poesia portuguesa a ser aqui comentado é "Cântico Negro" , meu predileto, por considerá-lo uma viagem à alma humana, com todas as suas contradições, necessidades, dores e propostas; uma espécie de confronto entre o ser individual e o coletivo, numa tentativa de afirmação, pela recusa em seguir a "manada" que desumaniza e despersonaliza o ser humano, na dimensão da sua individualidade, sua identidade mais intima; sua essência.
Repito que terei o cuidado de ser isenta de paixões menores, mas terei que ser justa e verdadeira, ao colocar as questões pretendidas.
Já no título do poema começam as referidas contradições...vejamos:
A palavra cântico ( do latim canticu) pressupõe uma homenagem; canto em honra da divindade; hino; ode; poema.
Negro ( do latim nigru) de cor preta; indivíduo de raça negra, preto; sujo; encardido; (algo) muito triste; lúgubre; maldito; sinistro.
No poema em questão, está implícita uma idéia de maldição, condenação, submissão, escravidão...então, logo a partir daí, percebe-se uma intensa contradição, pensamento e sentimento que permeia toda esta obra (especificamente). A idéia foi a de um grito de dor, assim representado: canto, ode = grito... e negro = dor, negação, onde reencontro certa consciência da analogia ente a cor negra e o sofrimento...
Há um antagonismo implícito, uma vez que cântico e negro não se combinam, por sua natureza diversa. Seria essa a representação do olhar do poeta José Régio sobre a vida: contradição, desencontro, negação, mas também esperança e sensação de incompreensão.
Outra evidência de negação do sujeito, de insegurança é demonstrada por sua indeterminação: "dizem"; "alguns", como se aí não fosse assumida a identidade do ser, a sua opção por uma individualidade...e sim , o sujeito indeterminado, ou todos as dimensões desse mesmo sujeito.
Mais uma forte contradição relaciona-se à resistência em obedecer regras (coletivo), demonstrando a vontade de seguir os próprios instintos (individual)...ou uma espécie de submissão do "eu", pelo qual optara, a estes, à impulsividade: "prefiro escorregar nos becos lamacentos"...como farrapos arrastar os pés sangrentos"...
Todo o tempo demonstra a guerra íntima dessa opção do "eu" (do que sente ser naquele momento) , com o mundo em que tem que viver, na perspectiva de propostas novas, de romper paradigmas para construir ou, antes, instalar o seu olhar sobre a vida.
Em meio a todas essas inconformidades, contradições e segurança do que não quer, volta e, ingenuamente, como uma última esperança, diz: "se ao que busco saber nenhum de vós reponde"... como se naquela condicional "se" esperasse, ainda, uma resposta às incompreensões: "porque me repetis vem por aqui?"
Aí, perante todas as impossibiliddes de respostas em si mesmo e no outro, entrega-se ao acaso, às forças da natureza, como uma saída para a opção primordial (ou uma quase morte...?), transcendendo o humano.
Mais adiante volta às forças opostas e incompatíveis ao evocar Deus e o Diabo, em que continua a busca das identidades antagônicas do 'eu' individual pelo qual optara e o 'eu' coletivo; o bem (Deus - eu, opção por si mesmo) e o mal (Diabo - humanidade, sujeito indeterminado). Tendo, mesmo percebendo outras possibilidades, que fazer opção por um , apenas...
Ao final, fica evidente a reafirmação deste; a opção pelo sujeito individual: "ninguém me peça definições (...) sei que não vou por ai". Uma proposta nova de vida , uma vontade de escrever a própria história, evidenciando a incompatibilidade entre forças poderosas, entre valores, que , mesmo na convivência, não se integram, ao contrário se distanciam...porque machucam...

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