Da mais alta janela da minha casa, com um lenço branco, digo adeus aos meus versos que partem para a humanidade. E não estou alegre nem triste; este é o destino dos versos [...]. Quem sabe quem os lerá? Quem sabe a que mãos irão? Fernando Pessoa.

Obs. usando a autonomia que a licença poética e a própria cultura brasileira me permitem, não adoto linearmente essa segunda outorga (arbitrária) da língua portuguesa.


quarta-feira, outubro 03, 2012

Esmeralda (Guacira)

  
__ Minha fia, o que ocê tá fazendo aqui nesse lugar essas hora? Vai pra casa...aqui num é lugar pra  moça como ocê.
__ Num posso. Tô percurando uns "baguio" pra comprá de comer pra nois...
__ Aqui?? Se sobra arguma coisinha de nada qui serve, eles carrega, fia.
__ Mais eu vou "dissaroiar" mais um poquinho, quem sabe num dô sorte?
__ Num sobra nada qui preste, fia! tô dizeno? eu cunheço isso aqui como a parma das minha mão...
__ Mas a sinhora num tá cum a fome qui  nem eu tô...eu e mãe...
__ Oia, eu sei o qui é fome braba...vamo lá im casa, que eu te dou arguma coisa...
__Brigada, mais num carece. E amanhã?
__ Prendi qui  o qui conta é matar a fome hoje,  no outro dia nois vê depois...  Cuma ocê se chama?
__ Ismeralda.
 __ Nome bonito... vamo qui nois cunvesa cum carma.
__ Tá bom, hoje eu vou...
Dona  Tonha levou  Esmeralda rapidamente...era importante sair logo dali...Quando chegaram em sua casa, a senhora fez a moça entrar, sentar-se à mesa e serviu-lhe um jantar caprichado.  Esmeralda não abriu a boca para outra coisa que não fosse para enfiar a colher  lotada daquela deliciosa e quente comidinha. [Meu Deus, pensou...faz quanto tempo  qui num sinto esse gostim de  comida de verdade? Nem se lembrava mais...].
De repente deu-se conta:
 [ nem olhei para essa dona tão boazinha...]
E parou, largando a colher sobre a mesa:
__ A dona me discurpe, eu fiz que  nem bicho quando vi a comida.
__ Num carece se discurpá, fia. Eu intendo, já fui qui nem ocê...
__ E foi? Mas tem essa casa boa...
__ É...eu sei quanto mi custô...
Esmeralda olhou-a intrigada; não entendeu, mas não quis perguntar, com receio de parecer curiosa; em seu meio as perguntas não eram bem vindas. Terminou de comer, levantou-se educadamente de cabeça baixa, agradeceu e saiu.
__Se cuida, fia! E se puder, vá pra bem longe daqui.
Não conseguiu dormir, pensando naquela moça. Levantou-se pela madrugada e, como de costume, foi pitar seu cachimbo acocorada à porta de casa, olhando ao longe, absorta.
[Hum, aquela minina não demora pura...é muito bonita e muito pobre].
Mal acabara de pensar nela, observou uma poeira ao longe
 [Hum... dessa vez foi mais rapidim ainda].
__Dia, Dona Tonha!
Falou Cosme, seu conhecido, com o chapéu numa das mãos.
__Dia. O que traz vosmecê aqui a essas hora?
__Cadê a moça? O Seu Hermano qué  que a sinhora leve ela lá.
__ Vô não, tô muito veia. O qui ocês qué cum ela? num chega? ela é muito nova prá ir pra Serra, sô!
__A sinhora sabe, né? Quanto mais nova mió...
A “Serra” é como se referem  simplificadamente às minas de onde se extrai , de forma quase improvisada, a esmeralda na região da Serra da Carnaíba, no Estado da Bahia, que tem as maiores reservas da preciosa pedra no Brasil. Ali, como em todos esse lugares, a prostituição de mulheres quase crianças é uma barbárie; além de riquezas, também se “extrai” a inocência, a beleza e a pureza dessas  meninas para satisfazer os instintos mais brutais, muitas vezes com a conivência de autoridades e até das próprias famílias, que vivem numa miséria tão absoluta, que entregam suas filhas em troca de comida, de uma fugaz melhora de vida, para não morrerem todos de fome. Entretanto,  em pouco tempo  essas mulheres-crianças  caem no desagrado e vão aumentar  as multidões de pequenos e magros fantasmas a perambular  sem rumo e sem esperança no entorno dos restos da garimpagem , em busca de um "dente de jegue" que lhe possa mitigar a fome por algumas horas.
Esmeralda subiu a “serra”, com os olhos cheios de esperança...
__Cumigo, vai sê diferente! Eu juro, mãe! 
__Minha fia, Deus te proteja...

__ Ei, ocê ai....o que faiz nesse lugá, essas hora? Vai pra casa, anda!
Esmaralda virou-se, os olhos baços contornados por um círculo vermelho fitaram dona Tonha tristemente.  Amarrado  ao percoço trazia um cordãozinho barato de onde pendia solitário, sem brilho e sem verdor, como a própria dona, um “dente de jegue” trocado, enganadoramente, por sua juventude e inocência.

Glossário:
bagulho (baguio) - restos de lavra, cascalho imprestável, descartável.
dessarolhar (dissaroiar) - procurar, buscar
dente de jegue - pequeno pedaço de esmeralda sem valor.

4 comentários:

Daniel Costa disse...

Guacira

Saborosa prosa nordestina, além de ser suporte de um magnifico conto.
Adorei, como tudo o que é nodestino.
Beijos

Moça disse...

mto bom ler uma prosa e parecer ouvir o gostoso sotaque nordestino!!

opinandoemtudo.blogspot.com

Guacira Maciel disse...

Daniel e Moça obrigada pelos comentários, é um prazer tê-los aqui no Blog. Mas essa não é uma prosa nordestina; é a prosa de uma pessoa matuta, que, neste acaso, é nordestina. Mas poderia ser paulista, mineira, ou de Goias, não é verdade?
Assim também, essa situação social, a prostituição de menores, etc.
Beijo,

Guacira

O Sibarita disse...

kkkkkk Belo parodia social, entre, a esmeralda pedra preciosa e a esmeralda gente boa, moça inocente dos esteios dos cascalhos da Serra do Cincorá, de Andarai, da Chapada Diamantina.

Excelente, viu sua menina retada! kkk

O Sibarita