Da mais alta janela da minha casa, com um lenço branco, digo adeus aos meus versos que partem para a humanidade. E não estou alegre nem triste; este é o destino dos versos [...]. Quem sabe quem os lerá? Quem sabe a que mãos irão? Fernando Pessoa.

Obs. usando a autonomia que a licença poética e a própria cultura brasileira me permitem, não adoto linearmente essa segunda outorga (arbitrária) da língua portuguesa.


terça-feira, setembro 25, 2012

(Sub)urbano (Guacira )

E a marginália tropical
 não esperada
 inaceita
de identidade suspeita
sem esperança nem fé?
vivendo abaixo da linha
do Equador
 da pobreza
debaixo da linha do trem
sub urbano submundo que aos olhos da superfície
causa pesar profundo
só postas expostas aos olhos e às narinas
de delicadeza ferina
sem esperança nem fé...

Um comentário:

O Sibarita disse...

Pois é, né dona moça! kkkk Eu que vim do (Sub)urbano das palafitas sei bem o que é isso, mas, sempre tive fé e esperança de vencer, ir em frente...
Realmente a marginália tropical!
Peço licensa deixo um poema que falo dessa minha infância.
Alagados(Palafitas)

Dedicada aos meus amigos de infância da pontes Santo Antônio, Copacabana, Chile, Almirante Tamandaré, Monteiro Lobato, Gelasio Farias, Castro Alves...

Em memória aos que se foram: Gilson Caruru, Lurdes, Carlinhos Negão, Gilcéia, Vando, Mário Nagô, Valtemir, Luiza, Toínho Magriça, Luiz Bilita, Paulo Paiapaia...

Alagados (Palafitas)

Os versos,
são memórias e sonhos
da maré como lembrança
nos desejos da infância
vivida nas palafitas...

De pés descalços
correndo sobre as pontes
catando raios de sol
nas asas de um beija-flor!
Meu coração tinha enredos:
Melancolia e fantasias
palpitavam como folias
e desfilavam sem alegorias...

À noite
os momentos eram
infinitos, um fifó aceso
espantando a escuridão,
gatos lânguidos esfomeados,
ratos correndo dos algozes,
pés descalços e tamancos rachados
fugindo da leptospirose...

O tempo à noite
sempre se estendia.
Eu tentava empurrá-lo
com as mãos, pura agonia!
Ele teimava desfilar, entre,
os meus dedos lentamente...
Segundos, minutos, horas e dias.
Parava o tempo!

Uma Ave Maria e um Pai Nosso
para amenizar o sofrimento...

Pela fresta,
viam-se as últimas gotas
de estrelas trêmulas
circulando sobre
tábuas podres sobrepostas
e esqueletos de caibros
sob a lua que ludibriava
os telhados...

O dia
florescia na enchente
atiçada pela maré de março.
Em cada barraco, olhos velados
retiravam o que tinha e o que não tinha...
Sufoco! O povo dos alagados
recorria a todos os santos,
sob a luz de um sol minguado...

Correi marezeiros!

Há nas pontes,
dependurados e sombreados:
desejos da vida, sangue em lágrimas,
trapos velhos e penicos furados
rasgando o ventre dos sonhos,
sempre, macerados!

Bocas de caranguejos
asas de morcegos
e nenhuma flor como desejo...

A maré cheia
convidava ao mergulho.
Crianças davam caídas,
era o prazer do corpo na água,
o debater de braços e pernas, nadar!
Ingenuidade da flor idade,
na borda do prazer,
a cilada montava o cenário,
entre, lixos, galhos e estacas.

O perigo é fatal... Tarde demais!
No azul, um sol de tempestades.
A morte é crua, a felicidade é fugaz,
na adversidade mais um que se vai!

Erguia-se um silêncio,
havia uma alma desesperada,
em fuga, pedia a extrema-unção!

A tarde uivava, a dor se curvava,
nenhum padre, nenhuma benção,
mas, à noite te virá em orações!
Naqueles momentos,
a maré cumpria a sua sina,
vestia-se de cinza
e na desesperança das lágrimas,
uma chuva fina...

Mas, não sei, era paradoxal!
Pratos vazios, tripas em revoluções,
urubus, cachorros e ganhamuns
lutavam por comidas no beira mangue.
Siris magros e mariscos aferventados,
crianças amareladas exangues.
O prato se repartia, mercúrio disputados,
lombrigas faziam greve de fome...

Um novo dia pintava, era a dona esperança!
Ela enganava a todos, saia de fininho e
se jogava das pontes, comida para pratos vazios.
Ai Deus! A fome rugia nos alagados, nua e crua!
Enquanto, a morte, despudoradamente deitada
nos telhados filmava a cena de binóculo
na aba de pratos sonhados...

Sob um céu de jade,
natal chegava com luas estreladas!
Nos olhares quanta alegria
escondendo a dor, a melancolia...

Os barracos eram enfeitados,
no piso de tábuas carcomidas
a areia branca dava um toque mágico,
nos alagados enfim, tinha vida!

Nos jarros barro,
galhos de pitanga e espada de Ogum.
Folhas de arruda presas nas portas,
sal grosso nos telhados e alfazema
para espantar os maus olhados,
gatos pretos ludibriados...

A noite é o olhar e virá em clarões!

Nas janelas:
nenhum chinelo, nenhum tamanco...
Papai Noel nunca vem, disfarça!
Nem ao menos uma bola, uma boneca,
crianças da maré sonham descalças!

No fundo de nós,
uns olhos de tormentos
torturados por natais iguais
a procura de manhãs desiguais!

Valei-nos Jesus menino!
Lembrai dos seus pequeninos,
em suas mãos os nossos destinos!

O Sibarita