Da mais alta janela da minha casa, com um lenço branco, digo adeus aos meus versos que partem para a humanidade. E não estou alegre nem triste; este é o destino dos versos [...]. Quem sabe quem os lerá? Quem sabe a que mãos irão? Fernando Pessoa.

Obs. usando a autonomia que a licença poética e a própria cultura brasileira me permitem, não adoto linearmente essa segunda outorga (arbitrária) da língua portuguesa.


sábado, dezembro 10, 2011

O encanto se desfaz (cap. de Cruz do meu Rosário...) guacira maciel

Daquela luta, só conhecia o brilho dos diamantes já lapidados, que lhe garantiam toda sorte de luxos.
O encanto de Carlos se devia ao fato de muitas e muitas vezes ter ficado embevecido a ouvir as estórias contadas pelos tropeiros ao final do dia - após intermináveis semanas de confinamento na serra - sentados nas mesinhas toscas dos botecos tomando cachaça de má qualidade. Eram, na verdade, fantasias elocubradas naquele isolamento como forma de se protegerem da loucura absoluta, sobre o duro dia a dia vivido nas grotas, sem sequer perceberem que suas vidas se esvaiam junto com o suor que lhes brotava da pele crestada pelo sol implacável durante verões que chegavam à beira dos infernos, acrescidos da temperatura interna dos seus corpos tensos; pelo frio de rachar dos invernos, ou das noites de qualquer estação, já que a região, como acontece nos desertos, tem noites extremamente frias e úmidas. Naquele cenário dantesco eles iam gradualmente esquecendo da própria humanidade, cabendo ao delírio preservar apenas a sobrevivência que mantinha o sonho, como uma tênue chama, e assim, criavam uma supra realidade que gestava a esperança do tal bambúrrio. Mas muitos não sobreviviam, inclusive por causa da violência que se impunha naquela realidade, ou se mantinham em condição de seguirem, apenas, como elemento de combustão para a mortal lavra; então, à medida que os 'fortes' iam perdendo a saúde , eram substituídos por corpos jovens (apenas corpos...) e saudáveis. Para a imensa maioria, a velhice prematura chegava e ainda encontrava uma delirante esperança de riqueza. Numa dessas turmas de recém chegados encontrava-se Carlos, cujo sobrenome era totalmente desconhecido; era perigoso ter sua identidade de filho do patrão divulgada. Naquele ambiente não havia necessidade dessas considerações; pelo menos ali, podia-se dizer que existia igualdade, nem que fosse de uma forma que os tornava desiguais em relação aos outros seres humanos.
Então, Carlos presenciara uma realidade inimaginável; sempre pensara na lavra do diamante como uma grande aventura, cheia de emoções quixotescas... Algumas vezes, encontrando-se perto de garimpeiros ele ouvia conversas à meia voz, nos raros momentos em que se davam o luxo de sonhar com planos de futuro:

-- Seu Zequinha, o qui o sinhô vai fazê primero quando incontrá aquele bichão piscando com uns oio de todas cor qui se pode pensá?

-- Home, diz só a primera qui ocê tem na cabeça; eu, por mim, já sei o que vô fazê...

-- Intão conta aí!

-- Eu dô um berro como a fera qui sô; um urro das onça qui nois ovia vim de dentro da mata quando ia caçá... -- Onça? aquilo era jaguatirica, qui aqui num tem onça das verdadera mermo!

-- É, eu sei...

-- Mas ocê só vai berrá qui nem a jaguatirica? é poco!

-- Não... depois eu disimbesto nesse mundão de meu Deus, qui nunca mais ocês bota os oio n'eu.

-- É... eu sei...e depois de ocê encher o rabo de toda cachaça e cumê todas as puta do arraiá, vorta morto de fome pra cumeçá tudinho otra vez. Eu sô mais veio qui ocê e já vi minino fazê o mermo e depois vortá chorano.

-- O quê? cumigo não!...tô dizendo? eu num vorto nesse inferno é nunca mais; é bastante uma pedrinha das boa!

-- Tá bom... vamo pará com essa cunversa qui o jagunço do coroné tá oiando pensando que nois tá cum arguma tramóia...

-- O que ocê disse?

-- Ocê nunca viu falar das coisa qui os pesoá faz pra iscondê uma pedrinha mixuruca, não?

-- Conta o sinhô, intão...

-- Eu sô macaco veio e já vi coisa qui o Todo Puderoso duvida...


Nesse momento, faz desajeitadamente o sinal da Cruz e tira respeitosamente da cabeça frangalhos do que fora um chapéu.


-- Apois eu tô dizendo... por essa luz que me alumia, qui muitas vez chamaro o dotô Filício já cheio das cachaça pra tirá do rabo de muito macho aqui, um carbonato de nadinha, que iscondero lá pra robá o dono do garimpo...

-- Vixe Maria!...e o dotô faz isso bebo ?

-- Ôxe! diz o povo, qui quanto mais incharcado, mió ele trabaia; já vi muito macho chorando com as tripa de fora, de tanto tomá olio de rícino pra botá na bosta a pedrinha que robô...

-- Moço!... é mermo verdade, é?
-- Se é? Ôxe! E eu sô cabra de mintira? Isso é nadinha, moço. Tu ainda ta nos cuêro, mas vai vê muita coisa ruim se vivê pra vê...
-- Vixe Maria!! E eu tenho iscoia de outra vida? Vô tê qui ficá é aqui mermo.
---Intão se cuida, macho! Num tenta nem im pensamento robá os home...
---É...
Retrucou, pensativo, o jovem interlocutor. Na verdade, já vinha planejando alguma coisa nessa perspectiva, para abreviar aquela experiência tão sofrida, mas teria que adiar seus planos até se sentir mais seguro...


No domingo do primeiro final de semana, único dia em que podiam dar uma parada para descanso daquela exaustiva labuta, tendo febrilmente preso a uma das mãos um ramo de uma das espécies nativas de desconhecida e belíssima orquídea, Carlos desceu a serra...





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