Da mais alta janela da minha casa, com um lenço branco, digo adeus aos meus versos que partem para a humanidade. E não estou alegre nem triste; este é o destino dos versos [...]. Quem sabe quem os lerá? Quem sabe a que mãos irão? Fernando Pessoa.

Obs. usando a autonomia que a licença poética e a própria cultura brasileira me permitem, não adoto linearmente essa segunda outorga (arbitrária) da língua portuguesa.


terça-feira, fevereiro 08, 2011

(Des)ordem (guacira maciel)

Existe uma dimensão desconhecida por quem lê a obra de um autor, que é o processo de criação, o momento primeiro, quando as idéias vão surgindo por impulso, por qualquer motivo; esse momento tem uma nuance de caos, em consequência da velocidade com que os pensamentos brotam; da forma incontrolável com que chegam à mente e vão estabelecendo vínculos entre si, ainda que pareçam totalmente incoerentes. Se fosse escrever nessa não-ordem absoluta, seria difícil a alguns a compreensão daquilo que preciso dizer. Entretanto, o fato de tentar estabelecer alguma coerência não deverá tirar o que existe de melhor na criação, que é essa aparente desordem, ou mesmo incoerência que a mim se configura o verdadeiro encanto de escrever. Até porque o próprio mundo parece ter-se desvinculado de qualquer vislumbre dos anteriores paradigmas e entrado numa vertiginosa busca, não por uma, mas por novas ordens, novas pedras filosofais... e embora isso não seja novidade, mas um acontecimento recorrente na trajetória da humanidade, no momento em que ocorre parece novo
Venho buscando explicar a mim mesma as coisas que percebo ao meu redor, a forma como as compreendo, ou seja, como elas se mostram a mim, à minha sensibilidade, ao meu universo íntimo, de acordo com essa percepção e por que o fazem...ou seria o contrário?...na verdade, isso é muito difícil de ter um ordenamento linear; elas também poderiam se mostrar à minha percepção de acordo com a sensibilidade...até achei melhor assim...a minha percepção é desencadeada pela minha sensibilidade. É isso aí, acho...vê-se, dessa forma, como não existe uma única ordem na complexidade do Universo. Vê-se como não existe certo e errado a não ser em universos pessoais, que partem de valores e conceitos específicos nos quais também não se pode interferir, mas que precisarão se abrir à consideração dos opostos complementares (mecânica quântica). Cada um que ler este e, talvez, todos os meus textos, vai achar que a ordem seria outra, e a intenção é esta mesmo: rever conceitos, e a compreensão que qualquer que seja ela, significa que uma possibilidade não exclui outras.
Não me proponho a dizer nenhuma verdade; neste momento penso desta forma, mas, à medida que vou vivendo, aprendendo, estudando, me relacionando, também vou incorporando outras visões, ampliando ou mudando as que pretendo evidenciar aqui ou em qualquer lugar, podendo reescrever tudo a partir de uma nova visão de mundo reconstruída ou elaborada nas interseções, uma vez que o todo não representa, apenas, as partes, mas também um terceiro espaço. Aliás, vou logo avisando, porque pode ocorrer que um dos meus trabalhos seja lido em outro lugar e contexto, com outras proposições (excluindo-se o plágio, claro!).
O mais importante para mim é expor essa inquietação e reafirmar a inexistência de uma verdade imutável e única. Tudo é fruto das elaborações de um íntimo e desconhecido universo pessoal inerente a cada ser (cada observador), estimulado pelas vivências, buscas, interesses, emoções e estados de espírito momentâneos, que na dinâmica da vida, quase sempre são representados sob diferentes linguagens e nuances novas.
Não vou me estender muito nos preâmbulos; este é um diálogo íntimo que me acompanha sempre, e poderia me sentir muito estimulada a não parar mais... vejam-no como um espaço vestibular a todos os meus trabalhos.

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