Da mais alta janela da minha casa, com um lenço branco, digo adeus aos meus versos que partem para a humanidade. E não estou alegre nem triste; este é o destino dos versos [...]. Quem sabe quem os lerá? Quem sabe a que mãos irão? Fernando Pessoa.

Obs. usando a autonomia que a licença poética e a própria cultura brasileira me permitem, não adoto linearmente essa segunda outorga (arbitrária) da língua portuguesa.


terça-feira, fevereiro 24, 2009

Voltando ao "Elogio da loucura..." (guacira maciel)

Neste momento gostaria de começar, fazendo não exatamente uma defesa, mas a exposição de uma constatação – não conseguiria calar-me – acerca do bom senso feminino, tomando como referência o amor do Rei Salomão e a Rainha de Sabá e o que diz o famoso e polêmico filósofo holandês Erasmo de Rotterdam, em seu Elogio da Loucura, sobre a mulher: assim falou a irreverente personagem (a loucura): “Tendo o homem nascido para o manejo e administração dos negócios, era justo aumentar sua pequeníssima dose de razão, mas querendo Júpiter prevenir melhor esse inconveniente achou de me consultar a respeito, como, aliás, costuma fazer quanto ao resto. Dei-lhe uma opinião verdadeiramente digna de mim – Senhor, disse-lhe eu: dê uma mulher ao homem, porque embora seja a mulher um animal inepto e estúpido, não deixa, contudo, de ser mais alegre e suave, e, vivendo familiarmente com o homem, saberá temperar com sua loucura o humor áspero e triste do mesmo”.
Vejamos apenas dois pontos fundamentais na nossa argumentação, para evidenciar a configuração dessa trama, dessa urdidura; disse a loucura: “tendo o homem nascido para o manejo e administração dos negócios...” Ora, o que observamos na história dos nossos famosos reis foi exatamente o oposto; uma absoluta demonstração de inaptidão masculina para administração dos negócios, visto que ele, conhecido por sua sabedoria, naufragou fragorosamente o destino do reino sob sua responsabilidade, por não ter tido equilíbrio ao lidar com a perda da mulher amada. Uma coisa seria sofrer por essa perda e outra colocar em perigo a segurança do reino e do seu povo, até porque essa foi, segundo consta, uma herança advinda de uma promessa do Criador a seu pai. O outro ponto revelou a mais absoluta contradição sobre o que foi dito sobre a mulher: “embora seja a mulher um animal inepto e estúpido...” Mas vimos que a rainha deu um inegável exemplo de equilíbrio, quando tão sabiamente soube trabalhar a perda do seu amor, aliada ao fato de estar a esperar dele um filho, e mais, voltando à governança do seu reino, por avaliar com muita lucidez a importância dos seus deveres de soberana para com o seu destino e o destino do seu povo. Logo...
Continuando, gostaria de pedir um pouco – não seria justo pedir total - de imparcialidade em relação às questões religiosas para que pensássemos juntos sobre o universo implícito na dimensão humana de Salomão, mesmo que ele não soubesse disso. Teria ele, sido um homem de fé convicta, ainda que já tenha nascido sem possibilidade de escolher a vida que gostaria de ter? Teria tido a condição de refletir ou possibilidade de autonomia para mudar o imutável? Sabemos que fora prometido a Davi, seu pai, a governança daqueles reinos, por ele e seus descendentes. Quais sentimentos, verdadeiramente, o teriam movido a pedir apenas conhecimento e sabedoria, quando lhe fora oferecida a possibilidade de pedir tudo o que quisesse? Ou não teria sido assim, e uma profecia teria que ser cumprida, para que a história chegasse ao desfecho previsto? Teria sua humanidade sido pilhada por um sentimento incontrolável como o amor, apesar de toda disposição de cumprir seu destino junto a seu povo e a promessa feita ao Senhor?
Essas seriam só perguntas iniciais para desencadear nosso diálogo e incitar a análise, porque precisarei usar uma metodologia que me mantenha, o mais possível, com os pés no chão para não me perder, visto ser esse um assunto tão rico e polêmico.
Nossos reis tiveram contra si mesmos (ou a favor), nessas circunstâncias: Em ralação a ele, perceber vaidoso (afinal era humano)a grande admiração, o encantamento que causara a uma mulher tão sensível, jovem e bela, o que envaidece sempre os homens, além de, falando-se de forma bastante contemporânea, ver a possibilidade de testar o mito da superioridade masculina, ainda que naquela época não se tivesse acesso a esse conhecimento da forma como o temos hoje, mas o tivesse Salomão, implícito na sua condição de humanidade.
Quanto a ela, colocando-me em seu lugar como mulher, e tão jovem, consideraria um privilégio essa oportunidade, e mais, constatar que estava havendo reciprocidade nessa atitude. Ele estava encantando-se com ela, mesmo sendo tão inexperiente e sequiosa de saber. Quer dizer: seu herói estava considerando sua existência, porque, convenhamos viajar naquela época, com tanta pompa e circunstância, só mesmo por uma motivação muito grande.
Aqui me reporto ao êxtase de Louis Lane, ao constatar que o Super-homem ao menos lhe dedica um olhar, percebendo que ela existe, ainda que não o soubesse como mulher. Quanto mais ser carregada em seus braços até o infinito. Querida leitora tenha a idade que tiver - isso hoje já não tem importância (as coisas boas da modernidade) - ponha-se nesse exato lugar: os braços do Super-homem e reflita sobre o que sente.
Bem, saiamos do espaço infinito e voltemos a nossa análise. Temos ainda que considerar todo o clima de intimidade estabelecido entre nossos soberanos, porque era um convívio diário e a sós quase todo o tempo. No recolhimento da sua condição de servo, deveria ele orar agradecendo ao Senhor pela oportunidade de realizar Sua obra. Mas sua humanidade deveria estar gritando o quanto era bom estar tão próximo e constatar a admiração de uma mulher jovem e bela como aquela.
Ela, por seu turno, deveria encontrar-se em permanente estado de êxtase ao perceber que um homem tão famoso por sua sabedoria e conhecimentos, com quem teria ido aprender, estivesse lhe dedicando tanta atenção...
Finalizando, quero crer que, na dimensão desse ser individual, muitas vezes entregue ao próprio desamparo e sensibilidade enquanto homem, seria muito difícil identificar algum perigo ou possibilidade de sofrimento em algo tão bom, num sentimento tão gostoso de ser sentido e, ao mesmo tempo, tão sem sentido, sem nexo.
Quem poderá dizer que Salomão, sendo um instrumento de Deus, jamais poderia se ter deixado levar por um sentimento tão pouco espiritual, ou tão carnal? Qual ser humano, de forma ampla, poderá dizer que jamais seria surpreendido por um sentimento tão incontrolável, porque indetectável aos tentáculos da razão, como o amor?
Talvez jamais tenha de vocês essas respostas, porém eu, pessoalmente, tenho cá a minha tese (e se não perceberam, venho sendo tendenciosa desde o começo).
Classificaria este, o que é minha proposta em ralação aos outros sentimentos que permeiam o amor, como sendo um amor especificamente de renúncia. A mais dolorosa de todas elas. Renunciar a um amor é profundamente doído e cruel.
Porém, reflitamos, para que isso serviu, terá valido a pena? Não haveria uma possibilidade de ser diferente? Qual o saldo positivo desse ato? Salomão, principalmente, se destruiu com ele. Seria ainda possível a seu povo, olhá-lo como exemplo, no estado de degradação em que se recolheu ao mundo dos vícios, da licenciosidade, da adoração de deuses pagãos?
Perceberam a consistente trama, a fortíssima urdidura sobre a qual essa história repousa, seja ela verdadeira ou não? É possível, com a maior clareza, detectar-se a grande variedade de fios usados na sua composição; fios que se entrelaçam, não importando a origem ou época, formando uma base argumentativa sólida sobre a qual se assentará o texto; o tecido, como resultado.
Ainda que sua origem não seja nosso objeto de análise - ambos se confundem – e percebendo-se que a própria dúvida faz parte da sua urdidura. De qualquer forma, seja qual for o ângulo analisado, chegaríamos a uma trama ainda mais intrincada e mais rica, com vários ângulos a serem observados, tornando-se, para usar uma linguagem e uma visão de mundo bastante atual, um verdadeiro hipertexto, o que nos leva a constatar uma realidade irreversível, que é a impossibilidade de tratar-se qualquer conhecimento, qualquer dimensão humana de forma unilateral, porque as relações se vão estabelecendo naturalmente, tirando-nos das mãos a condição de continuar a fragmentá-la, senão vejamos: seria essa uma história verossímil? E qual seria essa verdade? Se a contássemos sob o ponto de vista bíblico, supondo-se que fosse esse o nosso objetivo, como já me referi, chegaríamos à historicidade do próprio Continente Africano, que fala da fundação do reino da Etiópia, pelo filho do casal em questão, que, por sua vez, teria recebido do pai as Tábuas da Lei; e aí voltamos outra vez à história bíblica. Por outro lado, se começássemos pela historicidade africana, tratando da existência dos grandes impérios, sua organização política e sócio-econômica, as formas culturais de escravidão praticada, etc., retornaríamos, inevitavelmente, às referências bíblicas, porque a fundação do imponente império etíope nos traria de volta ao filho do discutido romance entre Salomão e a rainha de Sabá. Ainda bem que não é essa a nossa missão e sim, analisar a imensa teia, enquanto construção, que essa história de amor – seja bíblica ou puramente histórica – representa, assim como a grande variedade de fios que compõem sua urdidura, a base que sustenta texto final.
Quanto a Salomão, ser um sábio de nada lhe valeu. Sua sabedoria não o instrumentalizou, não o capacitou a lidar com sua mais humana dimensão: a do amor, transversalizado por outro sentimento (outro fio) tão intrínseco à natureza humana e tão difícil de ser sublimado, porque arrebatador como ventos fortes, como tempestade: a paixão, o encantar-se. E mais, os homens não sabiam àquela época, nem aprenderam ainda, a renunciar, apesar de ser quase consenso no mundo contemporâneo que eles são mais racionais, porque teriam mais neurônios e os usariam melhor, o que após nossa análise ficou evidente não ser verdadeiro.
Concordam que tudo isso não passa de um grande mito?
E eu adoro os homens...Que jeito?

2 comentários:

Laura disse...

Gostei da sua crónica. E a respeito da loucura, deixo aqui um poema fantástico de Almada Negreiros, intitulado precisamente: Reconhecimento à Loucura

"Já alguém sentiu a loucura
vestir de repente o nosso corpo?
Já.
E tomar a forma dos objectos?
Sim.
E acender relâmpagos no pensamento?
Também.
E às vezes parecer ser o fim?
Exactamente.
Como o cavalo do soneto de Ângelo de Lima?
Tal e qual.
E depois mostrar-nos o que há-de vir
muito melhor do que está?
E dar-nos a cheirar uma cor
que nos faz seguir viagem
sem paragem
nem resignação?
E sentirmo-nos empurrados pelos rins
na aula de descer abismos
e fazer dos abismos descidas de recreio
e covas de encher novidade?
E de uns fazer gigantes
e de outros alienados?
E fazer frente ao impossível
atrevidamente
e ganhar-Ihe, e ganhar-Ihe
a ponto do impossível ficar possível?
E quando tudo parece perfeito
poder-se ir ainda mais além?
E isto de desencantar vidas
aos que julgam que a vida é só uma?
E isto de haver sempre ainda mais uma maneira pra tudo?

Tu Só, loucura, és capaz de transformar
o mundo tantas vezes quantas sejam as necessárias para olhos individuais
Só tu és capaz de fazer que tenham razão
tantas razões que hão-de viver juntas.
Tudo, excepto tu, é rotina peganhenta.
Só tu tens asas para dar
a quem tas vier buscar"

José de Almada Negreiros
Poemas
Assírio & Alvim

Abraço,
Laura

PS: Foi bom encontrar o seu blog.

Guacira Maciel disse...

Oi, Laura.

Muito obrigada por seu comentário, e volte sempre.
Beijo, Guacira.