Da mais alta janela da minha casa, com um lenço branco, digo adeus aos meus versos que partem para a humanidade. E não estou alegre nem triste; este é o destino dos versos [...]. Quem sabe quem os lerá? Quem sabe a que mãos irão? Fernando Pessoa.

Obs. usando a autonomia que a licença poética e a própria cultura brasileira me permitem, não adoto linearmente essa segunda outorga (arbitrária) da língua portuguesa.


quarta-feira, junho 20, 2007

Teus olhos (Guacira Maciel)

A última vez que olhei teus olhos
não os encontrei
perplexa
os teus olhos não estavam lá
naquelas órbitas não havia nada
elas estavam vazias de ti
o que estava ali
eram órbitas ocas
pupilas congeladas
mortas
O teu olhar de antes
era similar ao horizonte
promessa enigma antigo
um misterioso mar
no teu morno e manso olhar
Ah e o teu sorriso
o teu sorriso prolongava o teu olhar
e me lembro bem ele era úmido
ora fogo labareda azul
que me queria devorar
ora chuva fina diáfana asa de borboleta
era uma aurora boreal o teu olhar
Mas o teu olhar já não tem alma
ele passa por sobre mim
sobre o meu eu inexistente
com olhos errantes fugidios febris
buscando outro lugar
O teu olhar me desilude
está quase perverso aquele olhar
sinto frio quando olho teus olhos vítreos
no teu olhar vazio branco nenhum
O teu olhar também já desistiu
o teu olhar como o último náufrago
também se foi
o teu olhar se foi
ele também partiu
sem ti.

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