Da mais alta janela da minha casa, com um lenço branco, digo adeus aos meus versos que partem para a humanidade. E não estou alegre nem triste; este é o destino dos versos [...]. Quem sabe quem os lerá? Quem sabe a que mãos irão? Fernando Pessoa.

Obs. usando a autonomia que a licença poética e a própria cultura brasileira me permitem, não adoto linearmente essa segunda outorga (arbitrária) da língua portuguesa.


terça-feira, setembro 12, 2006

Exatas? (guacira maciel)

Através da poética, que é o meu caminho de busca, cheguei à Física e descobri que esta, ao contrário do que se fala, não é uma ciência "dura" ou da área de exatas, como vem sendo injustamente classificada. Na verdade ,devemos-lhe o indiscutível e merecido lugar entre as humanidades! Aliás, antes, tanto ela, quanto a Química, eram chamadas de Filosofia Natural (Ciência grega, séc. VII a.C. até final do séc. XVI). Existe um conceito mais apropriado para a ciência que se aplica às questões do homem e ao seu estar no mundo?
A ciência moderna sentiu necessidade de comprovar suas teses, seus conceitos,e a consequente experimentação tornou-se fundamental, o que viria a mudar os conceitos no seu próprio âmbito (séc. XVI até meados do séc. XX), tornando-a uma experiência engessada no pragmatismo e enquadrada em caixinhas, como se dessa forma o homem pudesse dar conta do espaço das subjetividades e possibilidades em que a vida acontece.O que, afinal, representam as infindáveis especializações, que nada mais são que a fragmentação do conhecimento? Entendo que essa forma "nova" fragilizou a vida ao separá-la por pequenas partes, pequenas porções, tirando o todo do seu eixo, e colocando o homem em posição de perplexidade diante de partes de si mesmo, analisadas e dissecadas, tão alheias a sua integridade, que ele acabou perdendo-se nas próprias dimensões, sem a condição de nelas transitar como um todo; uno.
Temos a tendência de submeter pela autoridade aquilo que não podemos controlar, por que não entendemos.Tomemos como referência a clássica atitude do professor rígido e "dono da verdade" que, não sabendo como encaminhar pedagogicamente mentes inquietas, sedentas e cheias de vida e, não tendo sensibiliade para usar outras propostas de atendimento, o que faz? castiga, submete, ameaça...
O caminho trilhado nessa marcha nos colocou diante de questões inexplicáveis a uma ótica unilateral, porque as mudanças são tantas, coloridas com tantas nuances, e tão velozes, que essa colcha de retalhos tornou-se quase impossível de ser unida, costurada, tantos e tão pequenos esses retalhos se tornaram. Observemos que Platão em "A República", já nos fala da necessidade de "cardar e fiar" porque a missão de um político(no caso específico) seria misturar o tecido maior e o menor para adequar a vestimenta, que é o todo de que vimos falando que somos.
Precisamos, outra vez, nos colocar humildemente na condição de aprendizes; aqui, volto a lançar mão de uma forte referência, o próprio Einstein, para quem o ser humano só constrói até os 18 anos; a partir daí tudo se resume a especulações e experimentações...E o que somos senão aprendizes, mesmo? É preciso que ampliemos o olhar para procurar entender e absorver esse imenso universo de possibilidades do qual nos fala a Física Quântica e que nos coloca diante da fundamental questão:quem somos, de verdade?
É importante entender que não vamos perder o controle, porque não o temos! O novo amedronta, o desconhecido gera receios, mas a própria ciência, generosa e sem rancores nos ensinará a lidar com eles. A Física é uma ciência que nos coloca perante nossas humanidades, é ela que nos ensina suavemente ser preciso olhar o mundo com um olhar novo, porque sob pontos de vista diferentes; o olhar que nos traz o entendimento de que pelo fato de nada ser terminado, tudo é possibilidade. E será através da necessária sensibilidade que precisaremos reinterpretar nossos conceitos de ciência; reconhecer humildemente a necessidade de uma forma nova de relação com a natureza, não o nosso domínio sobre ela, e com o outro, o que estabelecerá uma teia que se entrelaça e se complementa.
Estou tentando mostrar a mim mesma que o olhar sobre a ciência precisará ser o mesmo que temos sobre a arte, em que uma das funções é estabelecer o espírito de comunhão e não de comprovar verdades finais, porque, como a ciência, ela e sua condição não se esgotam. Essa olhar será resultante dos diferentes ângulos; um olhar amplo; o das possibilidades, ou seja o de que nada está terminado. As diferenças restringem-se aos saberes específicos de cada uma, até para que busquem caminhos mais largos, mas que não servirão para outra coisa senão para explicar seu próprio âmbito e o elo/gênese que as liga, num encontro inevitável para um novo recomeço.
Será através da sensibiliade que precisaremos reinterpretar a ciência, enfatizo.Nos dispor a rever velhos conceitos enraizados numa exatidão que eu diria temporária, uma vez que nada no homem é terminado; e a ciência só terá sentido se em sua trajetória aceitar a mobilidade, porque vida significa mudança, movimento; nada que tem vida é estático ou finalizado. Dessa forma, se a vida não tem limites ou fronteiras, a ciência também não os terá já que trata das suas questões.
Filosofia é uma espécie de amor, portanto faz sentido que a Física já tenha sido denominada Filosofia Natural, porque lida e busca caminhos para a vida, como todos os saberes. Não faz sentido?
Quanto mais reflito, quanto mais busco um olhar novo sobre essas questões, mais laços e coerência encontro entre essa ciência e a sensibilidade, a arte, a vida. Então, o que são as "linhas de força", afinal, senão LAÇOS?Para que haja interação entre as partículas (nós não somos partículas nesse universo infinito?)são neessárias as tais "linhas de força"! É só questão de ampliar o olhar, porque sob ângulos diferentes, para que se estabeleçam as relações; uma questão de sair do meu casulo, me espreguiçar com os braços bem abertos e acolher...

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