Da mais alta janela da minha casa, com um lenço branco, digo adeus aos meus versos que partem para a humanidade. E não estou alegre nem triste; este é o destino dos versos [...]. Quem sabe quem os lerá? Quem sabe a que mãos irão? Fernando Pessoa.

Obs. usando a autonomia que a licença poética e a própria cultura brasileira me permitem, não adoto linearmente essa segunda outorga (arbitrária) da língua portuguesa.


domingo, julho 10, 2011

Lusofonia (guacira maciel)


Tenho visto na Internet alguns sites e blogs portugueses com um símbolo que diz: “aqui não se adota a reforma ortográfica” e eu sou totalmente a favor...Palmas para os portugueses, que tiveram a coragem e o interesse em se posicionar contra essa “unificação”, que eu diria massificação de identidades, porque lá, como entre os nossos verdes, não deve ter havido uma ampla discussão com a sociedade!
Darei início a essa reflexão, trazendo o significado da palavra que a motiva: lusofonia é o conjunto de identidades culturais, com ênfase no idioma, existentes em países de Língua Portuguesa. No entanto, em relação ao Brasil e Portugal essa identidade se dilui a partir do momento em que sofremos fortes influências de outras culturas, notadamente a profunda influência africana, tão presentes na vida do país, assim como o fato de haver – por parte de Portugal - uma demonstração de interesse em manter a hegemonia, apenas, quanto ao idioma que falamos aqui, apesar de o Brasil se ter distanciado tanto da famosa outorga por ocasião da criação da Constituição Brasileira.
Os elementos discursivos usados na prática dão sentido ao falar; dessa forma, a oralidade é fundamental como expressão, porque possibilita a socialização do conhecimento e subsidia a produção escrita. Um bom exemplo nos vem das culturas ancestres do Continente Africano, onde a forma de comunicação e registro oral foram, a priori, por ene razões, as bases para a continuidade da sua historia, hoje conhecida.
Logo, vê-se, essas práticas deverão ser foco de um estudo mais sistemático, uma vez que os textos que se constituem os discursos que se produzem nas várias situações, permitem aos autores a construção de suas identidades próprias. Percebe-se aí, a necessidade de efetivação de uma proposta que integre língua/linguagem na relação de construção do pensamento simbólico do individuo e da sociedade. Assim, a linguagem torna-se um pressuposto de constituição dos sujeitos e das práticas sociais, organicamente ligados.
Muitíssimo importante também é a “leitura”, como condição de produção de sentidos, não só concretizada em textos, sejam orais ou escritos, como a sua relação com outros textos vivenciados em sociedade, a exemplo da expressão corporal em todas as suas formas cotidianas, assim como as manifestações e expressões artísticas (posturas e expressões das vivências do dia a dia e mais, dança, teatro, música, jogo, desenho, filme, pintura, vídeo, TV.). Todas elas se constituindo um potencial para a produção de textos, que poderão ser lidos, falados e incorporados à Língua, em cujo contexto se deverá estudar a gramática, que assim, migra do seu isolamento passando a ser uma forma bem didática, porque vivenciada, para a compreensão, interpretação e produção de textos que irão reforçar a necessidade de reflexão sobre a utilização da Língua.
Convém enfatizar que a Literatura (escrita ou não...) não está desvinculada da “leitura”, ao contrário, este será o seu ponto de partida, enquanto condição de compreensão dos significados das obras e do pensamento dos seus autores; reflexões; análises; críticas, e até a fruição. Nesse aspecto precisa-se incluir e valorizar os autores representativos das culturas constitutivas do patrimônio luso seja no Brasil, em Portugal, na África, na Ásia... não apenas em se tratando dos clássicos – ricas e imprescindíveis referências - mas muito fortemente os autores contemporâneos, uma vez que seus discursos incluem formas de expressão dos contextos agora vivenciados (culturas juvenis, internet e outros...).
Nessa perspectiva, há que se entender fundamental a capacitação dos professores, no sentido de sua atualização, além da produção de livros didáticos que discutam e valorizem essas formas que se vão incorporando à cultura.
Mas que língua falamos no Brasil?
Na verdade, esta é uma indecisão recorrente, uma vez que a discussão acontece desde 1823, por ocasião da outorga da Constituição Brasileira por D. Pedro, em que ficou decidido que a língua falada no Brasil seria a língua portuguesa. Já nesse momento encontro algumas contradições, a exemplo de: o fato de termos sido “descobertos” para o seu mundo, não significa que por cá não existisse a comunicação verbal e escrita; outra análise é que desde que o Brasil se independeu, teria que assumir sua identidade brasileira e se expressar segundo sua forma, ainda que essa língua se tenha constituído na diversidade, ou principalmente por isso, e que não foi apenas portuguesa, mas africana e indígena entre outras... logo, evidencia-se uma identidade própria do povo que passou a formar esta nação.
Nesse jogo, que diria fortemente político, oscilamos desde aquela época até hoje, pelo menos entre três formações discursivas: aqueles que se decidiram por uma língua brasileira, os que entendiam ser certo uma língua padrão portuguesa e a “formação discursiva jurídica” que se decidiu pela língua legitimada, a língua portuguesa. Em conseqüência, sempre transitamos pendularmente entre uma língua intocável, recebida como legado de Portugal à qual o fato de incorporar nossa própria forma de expressão, poderia ser considerada uma heresia, e uma língua nossa de cada dia, que expressa o sentir do povo brasileiro, sua forma de estar no mundo e de se relacionar, a língua brasileira, que muito bem o representa. Em sendo assim, teríamos uma “língua fluida”, o brasileiro, que usaríamos no cotidiano, embora impregnada das formas africana e indígena para nos expressar e sentir, e uma língua com nuances de imaginário, de longitudes (o português), outorgada, desvinculada do nosso contexto, portanto, que não expressaria nosso sentir, uma vez que não incorporaria nossa identidade, especialmente em relação às nossas vivências na atualidade, cujas influências vimos nos preocupando cada vez mais em conhecer com profundidade.
Em 1826 o deputado José Clemente apresentou um projeto para que os diplomas dos médicos brasileiros tivessem sua redação em “língua brasileira”. Em 1870 registrou-se uma polêmica entre o romancista brasileiro José de Alencar e o português Pinheiro Chagas, em que o primeiro defendeu nossa autonomia e direito de respeito às diferenças, e o segundo argumentava defendendo o legado português. Já em 1927 foi aprovada uma lei para que os professores ensinassem a gramática nacional do Brasil, realidade que permaneceu até agora. Mais uma vez, em 2007, o assunto volta à ribalta, com a possível aprovação de uma lei de unificação gramatical, sem abertura de discussões com a sociedade, principalmente os educadores, ferindo as liberdades dos dois povos, uma vez que ambos teriam mudanças impositivas. Apesar de ter parecido que seria usado o bom senso, isso não ocorreu e a imposição de mais uma lei mudou definitivamente (?) a nossa vida, sem que tenhamos sido consultados; Portugal, finalmente, decide assinar o acordo e cabendo ao Brasil aceitá-lo, porque duas ou três cabeças assim o entenderam, já que está claro que o povo, constituinte principal de uma nação, não!...
Meu posicionamento, que não implica em nenhuma retaliação ou restrição cultural ou de nenhuma outra espécie, é que deveria ser preservada a identidade íntima de todos os povos que no passado foram considerados colônias do estado português, uma vez que todos têm sua própria cultura, portanto uma identidade anterior a esse período, cuja forma mais forte se faz presente através da língua e, tomando a Semiótica como referência, sendo uma representação das formas intrínsecas de sentir e pensar, mesmo tendo valores alienígenas a elas incorporados.
Entendo que essa imposição quanto à preservação de um legado outorgado no passado já não se explica, já não tem sentido algum, a não ser que ainda seja entendido algum poder imaginário sobre ex-colônias ou um pacto de interesses puramente político de ambos, até perante a comunidade européia, quem sabe?... Inclusive, poderia tomar como referência o fato de haver um tratado de apoio mútuo entre países lusófonos, que não se faz presente em suas trajetórias na contemporaneidade; nenhuma ação efetiva nesse sentido é percebida nas realidades vividas por cada um, que se possa entender como interesse de preservação ou proteção de identidades culturais anteriores. O estado português argumenta que a língua portuguesa é um patrimônio “seu” que precisa ser preservado; quanto à essa questão, haveria de se avaliar qual o sentido de nossa participação e quais interesses reais servem como urdidura nesse texto da nossa vida, enquanto povo livre. Pode ser um patrimônio seu, mas, uma vez legado como herança, embora por outorga, este é um símbolo de identidade nacional brasileira também – salvaguardada essa identidade em suas formas de expressão _; portanto, um patrimônio de todos os brasileiros e um dos símbolos nacionais, como a nossa bandeira, a nossa geografia, a Natureza tão especial, incluindo-se a Floresta Amazônica, etc. que nem são tão respeitados...

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