Da mais alta janela da minha casa, com um lenço branco, digo adeus aos meus versos que partem para a humanidade. E não estou alegre nem triste; este é o destino dos versos [...]. Quem sabe quem os lerá? Quem sabe a que mãos irão? Fernando Pessoa.

Obs. usando a autonomia que a licença poética e a própria cultura brasileira me permitem, não adoto linearmente essa segunda outorga (arbitrária) da língua portuguesa.


quinta-feira, setembro 07, 2017

A Interdisciplinaridade (do meu livro A importancia da....


 Esta é uma dificuldade histórica para as nossas escolas. Por mais que venhamos tentando propor um projeto interdisciplinar - que me lembre fazemos isso desde 1996, com a mudança da LDB –, por mais que tentemos atender as necessidades dos estudantes em relação ao ENEM, ainda não atingimos o que seria o pensamento-base, fundamental à compreensão do que seja interdisciplinaridade em seus espaços; e não existe aqui uma receita, estamos buscando refletir sobre todas as questões expostas e os posicionamentos de alguns pensadores. Nessa perspectiva, entendo fundamentais as representações sociais dos contextos, entendendo-se que eles, e por conseqüência, a própria interdisciplinaridade, são temporários.
Não se trata de buscar cura para uma enfermidade – o trabalho no âmbito das disciplinas – uma vez que não podemos prescindir dos conhecimentos inerentes a cada um como uma etapa da construção do conhecimento, mas de pensar num processo dialético, que se contrapõe a um paradigma considerado isoladamente. Trabalhar de forma interdisciplinar não é, absolutamente, misturar conhecimentos/conteúdos, mas abrir perspectivas para perceber a dimensão de conjunto que representam; expor essa face ampla do conhecimento; criar um movimento, significando dizer que é necessário buscar a dimensão existencial do que precisa ser aprendido, ou seja, a partir do contexto, com o entendimento de que o conhecimento não ocorre em campos isolados. É preciso respeitar o lócus de cada campo, assim como reconhecer os pontos de convergência, aproximando saberes específicos, e de afastamento em outros momentos, sendo importante que cada especialista consiga transcender os seus limites, tendo consciência de que, em determinados momentos, será preciso acolher as contribuições de cada disciplina. E digo mais, será o professor quem terá que fazer isso, num esforço pessoal e de grupo, sem esperar que sejam criadas pelos sistemas, condições e oportunidades favoráveis ao seu trabalho; ele é quem melhor saberá fazê-lo.
Quando se pensar em fazer um questionamento aos estudantes, entender a importância de obter respostas pensadas, pesquisadas, elaboradas; afinal, não é isso o que queremos ao afirmar que a escola contemporânea deve formar sujeitos críticos, com autonomia intelectual, reflexivos e com condição de aprender a aprender, ou de ascender à posição de autodidatas? Esta teoria, me parece, entra em sintonia com o campo da filosofia do sujeito, que destaca a prevalência das idéias (sujeito que pensa), sobre os objetos. Concordando com Ivani Fazenda, cujo foco é pedagógico, entendo que a interdisciplinaridade precisa descobrir, ou dar visibilidade ao talento potencial que todos temos. Dessa forma, é importante que os indivíduos aprendam a “perguntar e reconheçam a importância desse ato”. Para isso as Universidades deveriam realizar o movimento no sentido inverso: fazer “perguntas existenciais [contexto] para obter respostas [refletidas – sujeito pensante] inesperadas [ talento, sujeito criativo]”, pois sabemos o quanto o conhecimento nascido no senso comum, extraído dos contextos, é desconsiderado por elas, embora tão importantes, voltando a Erasmo de Roterdã, quando disse em sua proposta: “fazer [o conhecimento] sair pelo trato” . Essas respostas inesperadas trazem à tona os talentos subjacentes.
Todos sabemos que o conhecimento escolar se constitui um recorte a partir de uma seleção que expressa interesses e representa as relações de poder – nesse sentido ele é muito representativo – e, em sendo assim, só evidencia o que interessa a determinados grupos ( inclusive editores), ocultando, por outro lado, o que não lhes interessa. Por esta razão, é tão importante que o professor da disciplina faça uma avaliação do que ele sabe que é possível ser aprendido nas etapas do processo educativo, e assim, daquilo que deve ser trabalhado. Não existe nenhuma determinação contrária a isso.
Pequenas comunidades que têm um projeto de educação, uma vez que elas tomaram a si uma responsabilidade que os sistemas institucionalizados já não dão conta, precisando ter também, da parte desses mesmos sistemas, compreensão quanto à importância da autonomia para selecionar conhecimentos a serem trabalhados (desde que justificados no PPP – Projeto Político Pedagógico - das escolas existentes nesses contextos, sem deixarem de ampliar as perspectivas para outros universos). Entretanto, os sistemas, a sua institucionalização, são tão rígidos, querendo prever e controlar tudo, que terminam por não ter como administrar a si mesmos, e se tornando ineficazes.
Seria mais proveitoso que assim se procedesse, do que transformar os currículos em padrões, numa oferta reducionista, e ainda assim, não poderem oferecer a necessária qualidade. Lógico, um currículo desses se fecha sobre o que é absolutamente indispensável, com um determinismo redundante, dando-lhe um caráter raso, superficial, que terminará por se retrair, inclusive, ao olhar divergente e à pluralidade. 
Sabemos que ensinar implica em limites, mas a aprendizagem ocorre durante toda a vida e em espaços múltiplos - até de forma imperceptível -. Ademais, cada sujeito o fará de forma pessoal; seria a percepção do invisível, do inevidente, do qual tão bem nos fala Mauro Maldonato (em palestra). E cada indivíduo o fará, de acordo com condições muito peculiares à sua forma de perceber o mundo, suas querências, seus objetivos, seu caminho/trilha e seu momento. Desta maneira, se poderá perceber a coerência de uma aprendizagem contextualizada, uma vez que o contexto é temporário; ele se aplica a uma situação momentânea, ou seja, uma aprendizagem acontece naquele momento por um motivo, que é uma situação muito fugaz.
Ocorre, assim, um complexo sistema de autoconstrução X autodestruição, podendo-se fazer uma analogia – grosso modo – com o sistema digestivo animal: alimentação (que atende a uma necessidade temporária), processamento dos alimentos, seleção (aproveitamento/descarte, ou seja, o organismo vai ficar com o que atende necessidades temporárias e descartar o que já não lhe serve). Dessa forma, entende-se que não existe uma metodologia (que implica em uma filosofia) que vá ajudar a construir uma verdade absoluta e perene. Ela se alimenta do paradigma identificado como importante para aquele momento, e depois abre seu foco para os subsequentes.
Mas já que estamos fazendo considerações, reflexões, será bom acrescentar o pensamento de alguns teóricos como suporte. Japiassu(1996), cujo foco é epistemológico, interroga: será mesmo importante que os especialistas encontrem um consenso, uma vez que algumas teorias científicas abrem mão da idéia de totalidade e completude, para buscar a universalidade da prática e não de uma teoria afirmada a priori? A compreensão exposta aqui é exatamente esta; abrir mão de qualquer pretensão de hegemonia quanto à forma de construção do conhecimento – ou se afastar da disciplinaridade – embora na perspectiva da anterioridade do seu conceito ela possa ocorrer, e depois buscar a universalidade na aplicabilidade, na prática. Já Jantsch e Bianchetti  (1997) entendem que as discussões que ocorrem atualmente sobre interdisciplinaridade são hegemônicas, com tendência para privilegiar a ação em detrimento do episteme. A teoria marxista
dialética à qual se referem Railda F. Alves e Maria do Carmo E. Brasileiro poderia fazer sentido na medida em que consigo entender que a disciplinaridade é parte do processo de construção de um conhecimento que vê as representações sociais (contexto) como processo histórico. A partir daí espera-se que a escola possa evoluir para uma opção que, compreendendo a disciplinaridade como parte do processo de construção do conhecimento/aprendizagem, consiga estabelecer relações que aproximem os saberes. Até porque, além da compreensão de que a educação básica trabalha com recortes do conhecimento, se faz mister o atendimento  à filosofia e à política evidenciados no PPP;  e mais o que foi dito nas primeiras páginas deste livro sobre o conhecimento acontecer por outros caminhos e experiências e a possibilidade de a escola poder trilhar aquele que seja factível à comunidade que atende. 

Em que pese a inquestionável importância da leitura dos teóricos, dos especialistas que fornecem elementos para a compreensão dos conceitos e das teorias, assim como a superação da superficialidade pela formalização do objeto de pesquisa, é necessário que, a partir daí, a escola evolua para uma opção, conforme referido acima ou seu projeto pedagógico e sua proposta curricular ficarão à deriva. Voltando a Ivani Fazenda, que analisa a questão sob a ótica pedagógica.