Da mais alta janela da minha casa, com um lenço branco, digo adeus aos meus versos que partem para a humanidade. E não estou alegre nem triste; este é o destino dos versos [...]. Quem sabe quem os lerá? Quem sabe a que mãos irão? Fernando Pessoa.

Obs. usando a autonomia que a licença poética e a própria cultura brasileira me permitem, não adoto linearmente essa segunda outorga (arbitrária) da língua portuguesa.


quinta-feira, abril 06, 2017

Analogias entre representações de signos culturais na obra de Machado de Assis, como icone da Literatura da segunda metade do século XIX no Brasil, e representações desses signos na Literatura contemporânea.

Percebe-se uma similaridade entre a natureza das representações do contexto da vida brasileira da segunda metade do século XIX, nos signos culturais evidentes na riquíssima e desafiadora obra de Machado de Assis, sabendo-se que ele tinha consciência de estar formando um público leitor das questões brasileiras, explorando personagens, ambientes e situações desse contexto, quando o leitor comum ainda tinha como referência as traduções do romance francês do período anterior, e os signos da cultura contemporânea, em que se vê representada uma grande diversidade, em consequência das profundas mudanças ocorridas na sociedade, com símbolos extremamente robustos e conscientes dessa realidade, em que grupos antes excluídos, hoje fazem valer seu direito de inclusão.   
Machado explorou um contexto de diversidade, e profundamente transitório e movediço, pois sua trajetória se iniciou ainda durante o romantismo do início do século. Entretanto, em sua obra, a presença da experiência contemporânea, plena de dramas profundamente humanos e alvo da hipocrisia e do preconceito, mesmo que de forma sutil, se fazem representar, suscitando a necessidade de muitas indagações. O comportamento do homem diante de suas próprias pequenas tragédias do cotidiano parecia interessar-lhe sobremaneira. Como e quais caminhos teria percorrido para explorar questões referentes ao homossexualismo, o adultério feminino e a segregação social, mesmo que tenha sido, ele mesmo, oriundo do morro, uma vez que era filho de uma lavadeira e um pai negro com marcas da escravidão, e superado as próprias dificuldades à custa de muita determinação? Ainda assim, se, de um lado, escreveu grande parte de sua obra no contexto do Realismo e do Naturalismo, também se fantasiou da camuflagem do romantismo, e mais, ora recorrendo ao fantástico, ao delírio, à excentricidade, traindo de certa forma, os motivos mais íntimos que o levaram a decidir pela nova fase da literatura, abandonando os percursos de influência de culturas alienígenas, e deixando-se seduzir por experiências anteriores.

Em sua obra, usou recursos literários e de subjetividade ainda não explorados na realidade brasileira do período, com requintes que induzem a uma experiência acumulada que suscitam, ainda, muitas especulações. Quanto ao narrador, ora assume as vestes do narrador-personagem, diferente do narrador de terceira pessoa, que tudo vê e de tudo tem conhecimento, mas, paradoxalmente, está ausente e sem consciência dos outros personagens.
.Entretanto, o narrador-personagem de Machado, embora presente em determinadas falas, fica impossibilitado de conhecer o íntimo dos outros personagens e narrar cenas em que ele mesmo não esteja presente. Seria ele um combatente, um possível narrador da experiência desumanizadora da guerra, que nada tem a dizer em seu retorno  corroborando a teoria da privação da faculdade de partilhar experiências?

Por outro lado, saindo de Machado, numa divagação, em contraposição à teoria de que as “ações da experiência estão em baixa”, encontramos a fantástica e deliciosa narrativa de Marco Polo à Kublai Kan, Cidades Invisíveis, de Italo Calvino, que, como Machado, poderia se aproximar do narrador pós-moderno na segunda hipótese de Santiago: aquele que transmite uma sabedoria que decorre da observação e não se alicerça na “substância viva da sua experiência. Nesse sentido, seriam, ambos, puros ficcionistas, uma vez que não poderiam comprovar a autenticidade da informações? Da vida de Machado só se conhece hipóteses; nada se sabe dito por ele mesmo... 

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