Da mais alta janela da minha casa, com um lenço branco, digo adeus aos meus versos que partem para a humanidade. E não estou alegre nem triste; este é o destino dos versos [...]. Quem sabe quem os lerá? Quem sabe a que mãos irão? Fernando Pessoa.

Obs. usando a autonomia que a licença poética e a própria cultura brasileira me permitem, não adoto linearmente essa segunda outorga (arbitrária) da língua portuguesa.


quarta-feira, julho 16, 2014

Não há...(Guacira Maciel)

Expostos
fardos pesados
cuja beleza intrínseca
esconde-se nos abismos da alma
como setas apontadas
em frias madrugadas
ao peito ardente
silencioso
ausente
e sonha
mera ilusão
com a memória dos cristais
das noites irrequietas
como cavalos selvagens
com tanto por dizer
mas não há botões nem corolas
não há crisálidas
e não há promessa por cumprir...

sexta-feira, julho 04, 2014

Pretérito...(Guacira Maciel)

Nascia e anulava-me sucessivamente; buscava-me consistente, mas era massa disforme e morna penetrada pela lança aguda da ausência antecipada, quando o silêncio deixava ouvir apenas o coração em descompasso de espera...e só os meus ouvidos, as paredes e o porta retrato escutavam.  Só lembranças...seguravas meu rosto entre as mãos ágeis e inocentemente afundavas os dedos em meus cabelos leves e suados, que embaraçavam-se ao o ritmo apressado da tua respiração; aqueles dedos inocentemente escorregavam buscando tocar qualquer pedaço da minha pele em brasa. Depois a tua mão tão conhecida e quente deslizava inquieta mas suavemente por toda a superfície do meu corpo, como se tentasse desvendar-lhe cada pedaço, recompondo-o. E eu? eu, sensível como uma ferida aguardava o toque como da primeira vez e era sempre novo e infinito...Morria então e me perdia...mas me guiava o sol que se dourava ao contato dos pelos louros do teus braços e da tua fina sobrancelha que guardava o tesouro daquele azul abissal,  que se inundava inesperadamente.

Quero lembrar a todo instante e sentir de novo a dor dessa presença, a dor da consciência de ti e da tua ausência; de qualquer forma serão sempre uma dor...preciso abrir as comportas e todas as portas e janelas, e soprar para longe o cheiro mofado que elas ressuscitam em mim...