Da mais alta janela da minha casa, com um lenço branco, digo adeus aos meus versos que partem para a humanidade. E não estou alegre nem triste; este é o destino dos versos [...]. Quem sabe quem os lerá? Quem sabe a que mãos irão? Fernando Pessoa.

Obs. usando a autonomia que a licença poética e a própria cultura brasileira me permitem, não adoto linearmente essa segunda outorga (arbitrária) da língua portuguesa.


domingo, fevereiro 23, 2014

Imperfeição (Guacira Maciel)

 Despejas em tempestade
o amor que te sufoca o peito
como as ondas que desistem de lutar
quando penetram as areias
então te vestes de festa
e teu corpo se colore para a entrega
quero que as tuas mãos de asas
acordem a aurora do meu corpo
que arde em horizontes de brasa
não quero medos
não quero finitudes
deixemos que a placidez do eterno
se aqueça ao calor do nosso sangue
quero os teus dedos explorando
com voraz delicadeza a relva úmida
da minha plenitude que é só tua
quando alado e tímido me habitas
teu olhar de abissal azul
cobre minha nudez em chama
sou a tua fêmea a tua carta náutica
terno timoneiro
es a música da minha alma antiga
sou o doce favo que sugas
e te adormece em paz
sou a brisa suave
que retesa os nervos das tuas asas de cristal
a pele que te agasalha o sono pueril
e o fruto agridoce que mata a tua fome
sou planície enluarada
quero de novo o ouro dos teus braços como travesseiro
somos estrada conhecida
reencontro segredado no soluço
daquela despedida
descansa pois na madrugada em fevereiro
sonha e visita o eterno
que te velo o sono os sonhos o sagrado
em minha imperfeição...

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