Da mais alta janela da minha casa, com um lenço branco, digo adeus aos meus versos que partem para a humanidade. E não estou alegre nem triste; este é o destino dos versos [...]. Quem sabe quem os lerá? Quem sabe a que mãos irão? Fernando Pessoa.

Obs. usando a autonomia que a licença poética e a própria cultura brasileira me permitem, não adoto linearmente essa segunda outorga (arbitrária) da língua portuguesa.


quarta-feira, janeiro 22, 2014

Cruz do meu Rosário......fragmento do meu romance (Guacira Maciel)

  Moça de fino trato

 Marta tivera uma educação primorosa, realizada, inicialmente, por uma preceptora que lhe falava em português e francês. Agora vivia com os tios num luxuoso palacete de três andares, para onde fora aos 17 anos, após a morte da mãe e o desgosto e completo afastamento do seu pai, Dr. Francisco, Bacharel em Direito e Juiz de uma comarca longínqua, onde as condições de vida eram muito adversas. A esposa, Dona Maria Francisca, uma mulher de ascendência aristocrática, para acompanhar o marido passara por muitos sofrimentos, além de viver sem os confortos aos quais fora acostumada, ora no ancestral solar do Engenho de cana de açúcar da família, no Recôncavo Baiano, ora na cidade, num histórico sobrado, com empregados que atendiam todas as necessidades da família. Apesar do pouco conforto no lugar onde foram viver depois de casados, o Juiz e a esposa tiveram uma respeitável prole composta de dez filhos. Numa das viagens para Santa Maria da Vitória, cidade onde viveriam um bom tempo,  Dona Maria Francisca,  grávida de oito meses, teve que viajar até em "lombo de cavalo", em selas laterais próprias para mulheres; gestava seu penúltimo filho, sendo que  todos os outros, alguns ainda bem pequenos, ficaram doentes em consequência das condições impróprias daquela viagem, que durou quase um mês; episódio que acrescentou mais problemas à já delicada saúde da  jovem senhora.
O Dr. Francisco era poeta e grande apreciador da música e da boemia, tendo gasto grande parte da sua fortuna pessoal em promover festas durante as quais hospedava, e nutria, em sua própria casa, toda a orquestra, que mandava vir de fora para tocar em festejos da cidade, para desespero da esposa e felicidade da prole. Era um homem manso e tinha um especial olhar sobre a vida.
Em momentos de intensa saudade, Marta, filha mais velha, costumava lembrar suas atitudes como homem e como autoridade  - "ele olhava a vida com a alma; nas questões mais objetivas, quando tinha que tomar uma decisão como representante da Lei, costumava assumir posturas fundamentalmente humanísticas para atender aos dois lados, sem se afastar da ética e sem se corromper; quase um Salomão moderno..."-.
Como a filha mais velha, ela participou ativamente da atuação do pai e deliciou-se com as mais ricas experiências da vida com ele, principalmente quando se tratava de relações humanas, pois ele costumava levar para casa, na tentativa de ajudar, os mais variados personagens populares, sem discriminação, porque valorizava todo e qualquer aprendizado, sobremaneira aquele adquirido com pessoas simples, do povo, que na sua concepção eram de uma sabedoria extraordinária, e com quem “se tinha muito o que aprender”...Marta também recebeu do pai toda a atenção quanto à sua sua formação cultural; ele mandava buscar na Capital caixas de livros que eram lidos e discutidos para aprofundar os conhecimentos dela.
Porém, Dona Maria Francisca, que tinha outra forma de enxergar essas questões, até porque envolvia a sua formação, a sua vida familiar e a educação de seus filhos, não concordava com o marido, mas sendo uma mulher submissa,  que fora educada para seguir as orientações do marido, aceitava suas “esquisitices”, como se referia benevolente. Ela havia vivido sempre num meio social de elite, convivendo com advogados, médicos, políticos proeminentes, participando, como ouvinte, das reuniões de cunho intelectual que a família organizava, e tido uma educação muito cheia de regras e restrições. Diante disso, segundo Marta, as divergências familiares ocorriam mais ou menos nessa perspectiva:
_ Dr. Francisco, meu marido, pelo amor de Deus, não precisa trazer para dentro de casa todos os tipos esquisitos, necessitados de ajuda que encontra por ai ou no seu trabalho... nós temos filhas moças, além de não ficar bem para um Juiz se envolver de forma particular com essas pessoas..
_ Deixa isso para lá, Dona Francisca... essas experiências também são salutares para os nossos filhos; eles precisam ter contato com outras nascentes de cultura, tão ricas quanto a cultura formal à qual estamos, todos, acostumados. Perceba que aprender vivendo é muito mais interessante do que só ter acesso a essa cultura elitizada e restrita da escola e dos livros. Esses artistas populares, então, são excelentes professores, os mais verdadeiros, pois sua experiência parte da vida real... até você precisa abrir-se para uma nova forma de enxergar isso.
O “Dr. Juiz” não os via como pobres diabos necessitados de ajuda e sim, como fontes inesgotáveis de vivências e saberes com os quais, fora da toga, enriquecia seus conhecimentos; costumava dizer que essas relações de amizade, de camaradagem, lhe proporcionavam “beber diretamente em fonte rica e  cristalina”. Entendendo que também o ajudavam muito no trabalho que tinha a realizar na comunidade.
Certa vez, num dia de feira na cidade onde viviam, em que chegavam muitas demandas para Dr. Francisco, única autoridade presente no momento, e tendo que resolver tudo o que aparecesse, ele chegou em casa com a habitual forma bonachona.
_ Dona Francisca, mande acrescentar mais um prato na mesa... - já estavam lá os dez pratos, de oito filhos e os deles dois -, porque o meu amigo, “seu” Nequinho, vai participar da nossa refeição.
_  Faça o favor, “seu” Nequinho, entre e fique à vontade.
O homem, enfiado na domingueira, entrou com o chapéu na mão, afinal era dia de feira; mas com as calças arregaçadas por causa da lama, os sapatos de sola muito gastos e tortos engraxados com esmero, e a indefectível sanfona preta e madrepérola segura pelas alças. Envergonhado, ficou rígido à entrada daquela mulher bonita e elegante, que ele nunca havia visto tão de perto. Dona Francisca, muito séria, porte senhorial, embora simplesmente vestida com uma saia preta enviesada e uma blusa de renda branca arrematada na gola por um camafeu antigo, era, deveras, uma figura imponente e oposta à do seu ilustre marido bonachão.
_ Bom dia, senhor.
_ Bom dia Dona, desculpe se...
_ Ora, meu amigo, interveio o Juiz, fique tranqüilo. Tire a sanfona e venha  lavar as mãos.

Foi com o homem, para deixá-lo à vontade, e voltaram à sala, onde já se encontravam os filhos, inclusive os pequeninos, sentados à mesa com a mãe, calados, esperando o pai e a grande novidade daquele dia. Fato é que, para ajudar a resolver a contenda do “seu” Nequinho, tiveram que hospedá-lo por uma semana, até que o “Dr. Juiz” conseguisse resolver tudo o que se fazia necessário... mas para as crianças o melhor momento da peculiar visita acontecia à noite, após o jantar, enquanto durou a permanência do interessante senhor, quando tinha sessão de música e declamação de quadrinhas populares engraçadíssimas, e até poemas recitados pelo "Dr. Juiz", com a vizinhança olhando com ávidos e curiosos olhos através de todas as janelas de que a casa dispunha. Para as crianças, nem se comenta, foi uma farra de novidades; “seu” Nequinho contava casos e histórias extraordinárias que, entretanto, preocupavam Dona Francisca, que sempre se mantinha meio alheia àquela “algazarra”, como se referia.

quinta-feira, janeiro 16, 2014

Porque escrevo... um excerto (Guacira Maciel)

Bem, não creio existir uma unica razão para se fazer qualquer coisa...não sei porque escrevo e nunca me detive muito nessa pergunta, mas tenho certeza que uma das respostas seria porque preciso me expressar, a escrita é como a colheita, o resultado da semeadura amadurecida...
Lembro, por muitas razões, que fui uma menina calada e de natureza contemplativa; elaborava no pensamento as mais improváveis histórias, partindo das minhas observações e pequenas experiências, e o universo mais rico no início era a minha própria família; ela me inspirou por muitos e muitos anos... lembro que um dos meus irmãos mais velhos tinha um amigo, Manolo, que dizia: “sua família é sui generis”. Eu nem sabia o que queriam dizer aquelas palavras, mas achava a frase imponente, "devia ser uma coisa bonita". Hoje, sei que éramos mesmo dessa forma, mas só tive consciência do seu significado mais profundo muito mais tarde, quando meus pais já haviam falecido, e fiquei um pouco perdida, porque aquele mundo se desmoronou...
Quanto à minha natureza, acho que nunca foi bem compreendida, pois era avaliada como uma “menina de natureza birrenta, calada, esquisita”, porque, ou não correspondia ao que esperavam de mim ou  tinha sempre muitas perguntas, perguntas caladas, principalmente - pois queria entender o que acontecia ao meu redor - ou então tinha resposta para tudo, já que minha imaginação era uma roda viva. Mas eu achava aquela avaliação uma injustiça que não conseguia combater. Não tinha argumentos suficientes para explicar algo que nem mesmo eu compreendia àquela altura. O que lembro muito vivamente é que observava tudo, percebia pequenas coisas e detalhes aos quais ninguém dava importância, e aquele universo ainda permanece em minha cabeça querendo sair, porque compõe o extenso e profundo rio das minhas experiências e lembranças mais remotas e fortes.
Entretanto, em compensação, lembro que uma unica pessoa chegou mais perto de mim, de como eu realmente me sentia... D. Maria José, uma amiga de minha mãe, cujo comentário, menos duro, trouxe certo alívio: “essa menina tem um olhar de anjo”. Mas não era nada disso! “nem tanto ao mar, nem tanto à terra”; eu só tinha o hábito de observar as coisas e logo elucubrar ideias e histórias fantasiosas, já que não tagarelava muito... lembro de ter dançado em bailes nos salões vazios do velho sobrado do Engenho de cana de açúcar dos meus bisavós, usando belíssimos vestidos rodados e coberta de joias... de frequentar palácios... de viajar em asas de borboletas floresta adentro... de conversar com lagartas e cavalos. Quando ia passar férias lá na fazenda, eu percebia que os bezerros choravam porque suas mães precisavam seguir para a ordenha, separando-se deles; eu ouvia o vento cantar quando soprava nas palhas do canavial, ouvia o gemido ou os resmungos dos pobres animais que puxavam o pesado carro de boi que levava a cana para moer... o meu mundo interior era muito rico e me bastava, e me fazia feliz...
Como toda menina de mente fértil eu também conheci um príncipe que nem percebia a minha existência; era o meu amor impossível; àquela altura, aos 14 anos, pois nessa época a infância era vivida por mais tempo, eu não sofria e achava isso até muito romântico e normal como acontecia nos contos de fada, e eu tinha prazer em parecer com os personagens das histórias que gostava de ler.
Só pelos dezesseis anos comecei a ter necessidade de externar  o que sentia; pensar ou sonhar não era mais suficiente. Primeiro comecei a desenhar e minha mãe, que fora criada num ambiente cultural muito rico,  tratou logo de me matricular num curso livre de desenho. Enveredei pela pintura, fiz muitos cursos, mas não me satisfiz e parei com tudo.  Aquela ebulição voltou a incomodar dentro de mim e comecei então a escrever coisas que não mostrava a ninguém e parei outra vez.... Segui minha vida quase normalmente: fiz duas faculdades, casei, não com o meu príncipe dos 14 anos, tive dois filhos e anos depois me divorciei. Precisei começar tudo do zero, mas já sem a presença dos meus pais...certo dia, quase ao acaso, recomecei timidamente a escrever, sem mostrar a ninguém, porque “não queria me expor; eram coisas minhas, quase segredos”...Mas um dia, inesperadamente, resolvi mostrar uns textos a uma colega de trabalho, que os achou “muito difíceis de ler...você diz coisas que ninguém conhece; elabora muito o pensamento...” Parei!  uns dois ou três anos depois, sem pressa, resolvi me aventurar outra vez e alcei voo, insegura, para ver se alguém me entenderia dessa vez...
Eu não conseguia desistir embora tivesse tentado fazê-lo várias vezes. É mais forte que eu; ler e escrever é quase uma compulsão, inclusive, porque cresci numa família muito voltada para a cultura e a arte. Meu pai escrevia, tocava piano muito bem e dançava melhor ainda; em datas como aniversários, Dia das Mães ou aniversário de seu casamento, não comprava cartões; ele mesmo escrevia belos poemas para minha mãe...ela, por seu lado, era uma leitora contumaz e também gostava de escrever, assim como seus irmãos, que eram poetas de extrema sensibilidade...logo, foi difícil fugir à minha sina (risos)...
Diante dessa constatação, juntei meus cacos e resolvi mostrar o resultado de tudo através da literatura, numa (des)ordem que me faz muito bem...pois duas coisas me impulsionam e me instigam ao escrever; aprisionar momentos e experiências extremamente fugazes da minha vida pessoal, do meu imaginário  e da vida ao meu redor, e outra, partilhar essas coisas, essas experiências, que, nessa troca, tanto me enriquecem e estimulam a observar aspectos novos ou antes despercebidos. 
Neste momento, é como percebo a questão...