Da mais alta janela da minha casa, com um lenço branco, digo adeus aos meus versos que partem para a humanidade. E não estou alegre nem triste; este é o destino dos versos [...]. Quem sabe quem os lerá? Quem sabe a que mãos irão? Fernando Pessoa.

Obs. usando a autonomia que a licença poética e a própria cultura brasileira me permitem, não adoto linearmente essa segunda outorga (arbitrária) da língua portuguesa.


segunda-feira, dezembro 22, 2014



                           Presente crônico(Epílogo de Sherazade Contemporânea). Guacira Maciel


Na verdade, mesmo se comportando como um sultão, era como se sentia, ele, como nenhum homem, tem poder de vida e de morte real, mas o tem de forma subjetiva, pois após esse frustrado casamento em que se considerou traído – o que merece uma análise mais criteriosa – criou um delírio ao exigir da vida uma relação homem/mulher absolutamente perfeita. O seu não desejo de viver plenamente uma relação constitui-se sua forma de morrer e de matar. E, embora não tenha conseguido morrer fisicamente, simbolicamente mata a mãe, aquele útero que ainda o aprisiona, e a ex-mulher, pois ambas o traíram nas mulheres com quem se relacionara apenas no tempo presente; um presente crônico em que sempre experimenta um amor fugaz, sem futuro (dimensão onde poderia ser outra vez traído), ou seja, estando sempre no presente, reconhecendo apenas essa dimensão de temporalidade restrita, acredita vencer o futuro, anulando a possibilidade de sofrer outra vez a mesma dor.
          Entretanto, eu, como aquela outra, venci o meu sultão e venci o tempo. Eu o encantei, e enquanto estivemos juntos um forte sentimento nos uniu no presente que vivemos e, embora também temesse viver um futuro comigo, esse presente esteve, sim, no futuro, ou aquele irrealizável futuro foi vivido no presente...
          Sei que até hoje não buscou apenas o presente em mais ninguém, ou seja, eu criei um tempo novo; eu venci aquele futuro onde costumavam morrer suas relações. Há poucos dias me telefonou e disse: você é diferente; continuo apaixonado por sua sensibilidade; será sempre a mulher da minha vida, aquela que ainda me faz vibrar e traz ao meu coração a saudade de amanhecer abraçado a alguém.
         



quarta-feira, julho 16, 2014

Não há...(Guacira Maciel)

Expostos
fardos pesados
cuja beleza intrínseca
esconde-se nos abismos da alma
como setas apontadas
em frias madrugadas
ao peito ardente
silencioso
ausente
e sonha
mera ilusão
com a memória dos cristais
das noites irrequietas
como cavalos selvagens
com tanto por dizer
mas não há botões nem corolas
não há crisálidas
e não há promessa por cumprir...

sexta-feira, julho 04, 2014

Pretérito...(Guacira Maciel)

Nascia e anulava-me sucessivamente; buscava-me consistente, mas era massa disforme e morna penetrada pela lança aguda da ausência antecipada, quando o silêncio deixava ouvir apenas o coração em descompasso de espera...e só os meus ouvidos, as paredes e o porta retrato escutavam.  Só lembranças...seguravas meu rosto entre as mãos ágeis e inocentemente afundavas os dedos em meus cabelos leves e suados, que embaraçavam-se ao o ritmo apressado da tua respiração; aqueles dedos inocentemente escorregavam buscando tocar qualquer pedaço da minha pele em brasa. Depois a tua mão tão conhecida e quente deslizava inquieta mas suavemente por toda a superfície do meu corpo, como se tentasse desvendar-lhe cada pedaço, recompondo-o. E eu? eu, sensível como uma ferida aguardava o toque como da primeira vez e era sempre novo e infinito...Morria então e me perdia...mas me guiava o sol que se dourava ao contato dos pelos louros do teus braços e da tua fina sobrancelha que guardava o tesouro daquele azul abissal,  que se inundava inesperadamente.

Quero lembrar a todo instante e sentir de novo a dor dessa presença, a dor da consciência de ti e da tua ausência; de qualquer forma serão sempre uma dor...preciso abrir as comportas e todas as portas e janelas, e soprar para longe o cheiro mofado que elas ressuscitam em mim... 

quarta-feira, junho 04, 2014

Encharcada de azuis (Guacira Maciel)

Hoje estou encharcada
como o mar
de azuis
e embriago-me
no sal
das próprias lágrimas

lambendo com a ponta da língua
os próprios lábios 
sorvo lentamente
a lágrima salgada

o mar
salgado como as  lágrimas
que a minha língua lambe
invade em espuma as areias
como aos lábios a lágrima
salgada
em azuis


sábado, maio 17, 2014

Bailes e saraus do século IX ao som de pagode e axé? (Guacira Maciel)

 Hoje, assistindo ao Globo Literatura, na Globo News, fiquei perplexa, se não, indignada com o que estava sendo apresentado...
Monica Waldvogel entrevistava a escritora, de livros infantis, Patrícia Secco acerca de um projeto financiado pelo Ministério da Cultura, em que ela e editores de “muita experiência” fariam o seguinte: a adaptação dos clássicos da nossa Literatura, mais especificamente, ninguém menos que Machado de Assis, começando com o conto, O alienista, e outras obras, como: A pata da gazela, José de Alencar; Memórias de um sargento de milícias, Manuel Antonio de Almeida, e O cortiço de Aluísio de Azevedo, para “facilitar o acesso ao textos”, entre outros absurdos dessa ordem.
A justificativa para tal sacrilégio inclui vários motivos, estando entre eles: a “formação de leitores”, pois o brasileiro não lê; “a democratização da obra de Machado”, pois “o vocabulário do século IX exige esforço do leitor”; “levar Machado a quem não conhece”, entre outras heresias...No programa a autora chega a dizer que isso evitaria que o leitor ficasse “derrapando no boticário, achando que é uma marca de cosmético”...o que achei desrespeitoso para com os que não fazem parte das elites eruditas, como alguns escritores se entendem...
Na mesma entrevista, Monica Waldvogel colhe opiniões, estando entre elas a do escritor Ronaldo Bressane ( que não conheço, sendo sincera), que disse: “é melhor ler meio Machado do que nenhum”... Mas tem também a opinião, ao vivo, do conhecido estudioso,  poeta e Professor do Curso de Letras da USP, Alcides Villaça, que, tendo lido toda a “versão facilitada”, declara sua indignação sobre a questão, dizendo que aquela modificação dá num “monstrengo cultural”, pois o “discurso narrativo tão próprio de Machado foi alterado, assim como seu ritmo, sintaxe, pontuação, tudo da maior importância na narrativa, até a afetividade” impressa no texto, em que suprimem, cortam e juntam períodos tirando o sentido do que foi dito pelo autor; pode-se ler “coisas que Machado jamais faria”, terminando por dizer que na adaptação “há trextos incompreensíveis”, é “grosseira, é crime, para se jogar no lixo”.  Querem facilitar o acesso? Aceitem a sugestão do Professor  Alcides Villaça, democratizem fazendo cópias disponibilizadas pela própria Academia Brasileira de Letras, entre outros sites sérios.
Essa equipe chega ao cúmulo de retirar a pontuação do autor, como o ponto e vírgula, uma das suas marcas, substituindo por ponto final (que não têm a mesma função), juntando parágrafos  ou suprimindo outros, o que descaracteriza a escrita de Machado.
Bem, como Professora, Educadora e Bibliotecária, que trabalha com formação de leitores em colégio público, sou veementemente contra esse projeto sem sentido, estapafúrdio, de quem parece não ter ideias melhores para ajudar a população a ler. As novas gerações têm o direito de conhecer a linguagem erudita, têm o direito de conhecer a Literatura Clássica do seu país, que representa a vida do seu povo e, inclusive, a História da Literatura, da Arte Literária desse povo, que através desse projeto está sendo suprimida da suas vidas; estão retirando o seu direito de conhecer, na íntegra, a obra de grandes autores da Literatura Brasileira. Uma fala que me deixou muito indignada foi a autora, Patricia Secco, falar que apenas fez uma “transposição da linguagem do século IX para a linguagem atual”...então, a juventude não tem direito a conhecer o contexto em que a obra desse gênio foi escrita? Então, é isso, nós, Educadores, falamos e nos esganamos para situar o conhecimento no contexto de vida das pessoas, usando um importante Princípio Pedagógico que facilita a compreensão do estudante, que é a Contextualização, e um grupinho de pessoas, autores e editores, se revestem de uma autoridade outorgada pelo Ministério da Cultura, que financiou esse “Projeto” de desconstrução, no valor de 1,5 milhão, para destruir tudo?
 Percebo que os jovens oriundos de populações desfavorecidas por um bom Projeto de Educação Pública e Privada, também,  têm avidez por saber, pelo conhecimento, avidez de ler, eles adoram ir à Biblioteca me pedir para indicar livros para lerem, e depois retornam para os comentários, para discutir sobre o que entenderam da obra, fazem comparações entre os personagens e o contexto de suas próprias experiências de vida, da forma mais bonita e inesperada...Entretanto, não chegam verbas específicas e direcionadas para a aquisição de livros, para atualizar e prover os acervos das Bibliotecas das escolas...É assim que se deveria usar as verbas gastas com projetinhos de simplificação da obra dos nossos autores clássicos, por entenderem alguns que as pessoas das classes populares iriam confundir “boticário com cosméticos”. Eu, pessoalmente, venho pedindo às Editoras que doem livros de Literatura para que esses jovens tenham mais ofertas, mais possibilidades...a isso eu chamo “democratização dos textos literários”. O senhor Ronaldo Bressane disse que as “pessoas talvez não entendam o vocabulário de Machado”...e eu acho essa declaração uma grande bobagem! Ele nada sabe dessas pessoas, assim como editores, que querem vender livros para o Governo, e todos os que estão preocupados em ter projetos de má qualidade financiados com o dinheiro público! Eles não têm autoridade para suprimir da vida de gerações inteiras o conhecimento, na íntegra, da obra de um autor tão importante da nossa História Literária.
Querem “facilitar o acesso ao texto”? Aceitem a sugestão do Professor  Alcides Villaça, democratizem fazendo cópias disponibilizadas pela própria Academia Brasileira de Letras, entre outros sites sérios.
Tem um abaixo assinado contra esse “projeto” circulando por ai, se o encontrarem, peço que assinem. Obrigada.


Obs. A entrevista completa está no link do Globo Literatura.

domingo, fevereiro 23, 2014

Imperfeição (Guacira Maciel)

 Despejas em tempestade
o amor que te sufoca o peito
como as ondas que desistem de lutar
quando penetram as areias
então te vestes de festa
e teu corpo se colore para a entrega
quero que as tuas mãos de asas
acordem a aurora do meu corpo
que arde em horizontes de brasa
não quero medos
não quero finitudes
deixemos que a placidez do eterno
se aqueça ao calor do nosso sangue
quero os teus dedos explorando
com voraz delicadeza a relva úmida
da minha plenitude que é só tua
quando alado e tímido me habitas
teu olhar de abissal azul
cobre minha nudez em chama
sou a tua fêmea a tua carta náutica
terno timoneiro
es a música da minha alma antiga
sou o doce favo que sugas
e te adormece em paz
sou a brisa suave
que retesa os nervos das tuas asas de cristal
a pele que te agasalha o sono pueril
e o fruto agridoce que mata a tua fome
sou planície enluarada
quero de novo o ouro dos teus braços como travesseiro
somos estrada conhecida
reencontro segredado no soluço
daquela despedida
descansa pois na madrugada em fevereiro
sonha e visita o eterno
que te velo o sono os sonhos o sagrado
em minha imperfeição...

quarta-feira, janeiro 22, 2014

Cruz do meu Rosário......fragmento do meu romance (Guacira Maciel)

  Moça de fino trato

 Marta tivera uma educação primorosa, realizada, inicialmente, por uma preceptora que lhe falava em português e francês. Agora vivia com os tios num luxuoso palacete de três andares, para onde fora aos 17 anos, após a morte da mãe e o desgosto e completo afastamento do seu pai, Dr. Francisco, Bacharel em Direito e Juiz de uma comarca longínqua, onde as condições de vida eram muito adversas. A esposa, Dona Maria Francisca, uma mulher de ascendência aristocrática, para acompanhar o marido passara por muitos sofrimentos, além de viver sem os confortos aos quais fora acostumada, ora no ancestral solar do Engenho de cana de açúcar da família, no Recôncavo Baiano, ora na cidade, num histórico sobrado, com empregados que atendiam todas as necessidades da família. Apesar do pouco conforto no lugar onde foram viver depois de casados, o Juiz e a esposa tiveram uma respeitável prole composta de dez filhos. Numa das viagens para Santa Maria da Vitória, cidade onde viveriam um bom tempo,  Dona Maria Francisca,  grávida de oito meses, teve que viajar até em "lombo de cavalo", em selas laterais próprias para mulheres; gestava seu penúltimo filho, sendo que  todos os outros, alguns ainda bem pequenos, ficaram doentes em consequência das condições impróprias daquela viagem, que durou quase um mês; episódio que acrescentou mais problemas à já delicada saúde da  jovem senhora.
O Dr. Francisco era poeta e grande apreciador da música e da boemia, tendo gasto grande parte da sua fortuna pessoal em promover festas durante as quais hospedava, e nutria, em sua própria casa, toda a orquestra, que mandava vir de fora para tocar em festejos da cidade, para desespero da esposa e felicidade da prole. Era um homem manso e tinha um especial olhar sobre a vida.
Em momentos de intensa saudade, Marta, filha mais velha, costumava lembrar suas atitudes como homem e como autoridade  - "ele olhava a vida com a alma; nas questões mais objetivas, quando tinha que tomar uma decisão como representante da Lei, costumava assumir posturas fundamentalmente humanísticas para atender aos dois lados, sem se afastar da ética e sem se corromper; quase um Salomão moderno..."-.
Como a filha mais velha, ela participou ativamente da atuação do pai e deliciou-se com as mais ricas experiências da vida com ele, principalmente quando se tratava de relações humanas, pois ele costumava levar para casa, na tentativa de ajudar, os mais variados personagens populares, sem discriminação, porque valorizava todo e qualquer aprendizado, sobremaneira aquele adquirido com pessoas simples, do povo, que na sua concepção eram de uma sabedoria extraordinária, e com quem “se tinha muito o que aprender”...Marta também recebeu do pai toda a atenção quanto à sua sua formação cultural; ele mandava buscar na Capital caixas de livros que eram lidos e discutidos para aprofundar os conhecimentos dela.
Porém, Dona Maria Francisca, que tinha outra forma de enxergar essas questões, até porque envolvia a sua formação, a sua vida familiar e a educação de seus filhos, não concordava com o marido, mas sendo uma mulher submissa,  que fora educada para seguir as orientações do marido, aceitava suas “esquisitices”, como se referia benevolente. Ela havia vivido sempre num meio social de elite, convivendo com advogados, médicos, políticos proeminentes, participando, como ouvinte, das reuniões de cunho intelectual que a família organizava, e tido uma educação muito cheia de regras e restrições. Diante disso, segundo Marta, as divergências familiares ocorriam mais ou menos nessa perspectiva:
_ Dr. Francisco, meu marido, pelo amor de Deus, não precisa trazer para dentro de casa todos os tipos esquisitos, necessitados de ajuda que encontra por ai ou no seu trabalho... nós temos filhas moças, além de não ficar bem para um Juiz se envolver de forma particular com essas pessoas..
_ Deixa isso para lá, Dona Francisca... essas experiências também são salutares para os nossos filhos; eles precisam ter contato com outras nascentes de cultura, tão ricas quanto a cultura formal à qual estamos, todos, acostumados. Perceba que aprender vivendo é muito mais interessante do que só ter acesso a essa cultura elitizada e restrita da escola e dos livros. Esses artistas populares, então, são excelentes professores, os mais verdadeiros, pois sua experiência parte da vida real... até você precisa abrir-se para uma nova forma de enxergar isso.
O “Dr. Juiz” não os via como pobres diabos necessitados de ajuda e sim, como fontes inesgotáveis de vivências e saberes com os quais, fora da toga, enriquecia seus conhecimentos; costumava dizer que essas relações de amizade, de camaradagem, lhe proporcionavam “beber diretamente em fonte rica e  cristalina”. Entendendo que também o ajudavam muito no trabalho que tinha a realizar na comunidade.
Certa vez, num dia de feira na cidade onde viviam, em que chegavam muitas demandas para Dr. Francisco, única autoridade presente no momento, e tendo que resolver tudo o que aparecesse, ele chegou em casa com a habitual forma bonachona.
_ Dona Francisca, mande acrescentar mais um prato na mesa... - já estavam lá os dez pratos, de oito filhos e os deles dois -, porque o meu amigo, “seu” Nequinho, vai participar da nossa refeição.
_  Faça o favor, “seu” Nequinho, entre e fique à vontade.
O homem, enfiado na domingueira, entrou com o chapéu na mão, afinal era dia de feira; mas com as calças arregaçadas por causa da lama, os sapatos de sola muito gastos e tortos engraxados com esmero, e a indefectível sanfona preta e madrepérola segura pelas alças. Envergonhado, ficou rígido à entrada daquela mulher bonita e elegante, que ele nunca havia visto tão de perto. Dona Francisca, muito séria, porte senhorial, embora simplesmente vestida com uma saia preta enviesada e uma blusa de renda branca arrematada na gola por um camafeu antigo, era, deveras, uma figura imponente e oposta à do seu ilustre marido bonachão.
_ Bom dia, senhor.
_ Bom dia Dona, desculpe se...
_ Ora, meu amigo, interveio o Juiz, fique tranqüilo. Tire a sanfona e venha  lavar as mãos.

Foi com o homem, para deixá-lo à vontade, e voltaram à sala, onde já se encontravam os filhos, inclusive os pequeninos, sentados à mesa com a mãe, calados, esperando o pai e a grande novidade daquele dia. Fato é que, para ajudar a resolver a contenda do “seu” Nequinho, tiveram que hospedá-lo por uma semana, até que o “Dr. Juiz” conseguisse resolver tudo o que se fazia necessário... mas para as crianças o melhor momento da peculiar visita acontecia à noite, após o jantar, enquanto durou a permanência do interessante senhor, quando tinha sessão de música e declamação de quadrinhas populares engraçadíssimas, e até poemas recitados pelo "Dr. Juiz", com a vizinhança olhando com ávidos e curiosos olhos através de todas as janelas de que a casa dispunha. Para as crianças, nem se comenta, foi uma farra de novidades; “seu” Nequinho contava casos e histórias extraordinárias que, entretanto, preocupavam Dona Francisca, que sempre se mantinha meio alheia àquela “algazarra”, como se referia.

quinta-feira, janeiro 16, 2014

Porque escrevo... um excerto (Guacira Maciel)

Bem, não creio existir uma unica razão para se fazer qualquer coisa...não sei porque escrevo e nunca me detive muito nessa pergunta, mas tenho certeza que uma das respostas seria porque preciso me expressar, a escrita é como a colheita, o resultado da semeadura amadurecida...
Lembro, por muitas razões, que fui uma menina calada e de natureza contemplativa; elaborava no pensamento as mais improváveis histórias, partindo das minhas observações e pequenas experiências, e o universo mais rico no início era a minha própria família; ela me inspirou por muitos e muitos anos... lembro que um dos meus irmãos mais velhos tinha um amigo, Manolo, que dizia: “sua família é sui generis”. Eu nem sabia o que queriam dizer aquelas palavras, mas achava a frase imponente, "devia ser uma coisa bonita". Hoje, sei que éramos mesmo dessa forma, mas só tive consciência do seu significado mais profundo muito mais tarde, quando meus pais já haviam falecido, e fiquei um pouco perdida, porque aquele mundo se desmoronou...
Quanto à minha natureza, acho que nunca foi bem compreendida, pois era avaliada como uma “menina de natureza birrenta, calada, esquisita”, porque, ou não correspondia ao que esperavam de mim ou  tinha sempre muitas perguntas, perguntas caladas, principalmente - pois queria entender o que acontecia ao meu redor - ou então tinha resposta para tudo, já que minha imaginação era uma roda viva. Mas eu achava aquela avaliação uma injustiça que não conseguia combater. Não tinha argumentos suficientes para explicar algo que nem mesmo eu compreendia àquela altura. O que lembro muito vivamente é que observava tudo, percebia pequenas coisas e detalhes aos quais ninguém dava importância, e aquele universo ainda permanece em minha cabeça querendo sair, porque compõe o extenso e profundo rio das minhas experiências e lembranças mais remotas e fortes.
Entretanto, em compensação, lembro que uma unica pessoa chegou mais perto de mim, de como eu realmente me sentia... D. Maria José, uma amiga de minha mãe, cujo comentário, menos duro, trouxe certo alívio: “essa menina tem um olhar de anjo”. Mas não era nada disso! “nem tanto ao mar, nem tanto à terra”; eu só tinha o hábito de observar as coisas e logo elucubrar ideias e histórias fantasiosas, já que não tagarelava muito... lembro de ter dançado em bailes nos salões vazios do velho sobrado do Engenho de cana de açúcar dos meus bisavós, usando belíssimos vestidos rodados e coberta de joias... de frequentar palácios... de viajar em asas de borboletas floresta adentro... de conversar com lagartas e cavalos. Quando ia passar férias lá na fazenda, eu percebia que os bezerros choravam porque suas mães precisavam seguir para a ordenha, separando-se deles; eu ouvia o vento cantar quando soprava nas palhas do canavial, ouvia o gemido ou os resmungos dos pobres animais que puxavam o pesado carro de boi que levava a cana para moer... o meu mundo interior era muito rico e me bastava, e me fazia feliz...
Como toda menina de mente fértil eu também conheci um príncipe que nem percebia a minha existência; era o meu amor impossível; àquela altura, aos 14 anos, pois nessa época a infância era vivida por mais tempo, eu não sofria e achava isso até muito romântico e normal como acontecia nos contos de fada, e eu tinha prazer em parecer com os personagens das histórias que gostava de ler.
Só pelos dezesseis anos comecei a ter necessidade de externar  o que sentia; pensar ou sonhar não era mais suficiente. Primeiro comecei a desenhar e minha mãe, que fora criada num ambiente cultural muito rico,  tratou logo de me matricular num curso livre de desenho. Enveredei pela pintura, fiz muitos cursos, mas não me satisfiz e parei com tudo.  Aquela ebulição voltou a incomodar dentro de mim e comecei então a escrever coisas que não mostrava a ninguém e parei outra vez.... Segui minha vida quase normalmente: fiz duas faculdades, casei, não com o meu príncipe dos 14 anos, tive dois filhos e anos depois me divorciei. Precisei começar tudo do zero, mas já sem a presença dos meus pais...certo dia, quase ao acaso, recomecei timidamente a escrever, sem mostrar a ninguém, porque “não queria me expor; eram coisas minhas, quase segredos”...Mas um dia, inesperadamente, resolvi mostrar uns textos a uma colega de trabalho, que os achou “muito difíceis de ler...você diz coisas que ninguém conhece; elabora muito o pensamento...” Parei!  uns dois ou três anos depois, sem pressa, resolvi me aventurar outra vez e alcei voo, insegura, para ver se alguém me entenderia dessa vez...
Eu não conseguia desistir embora tivesse tentado fazê-lo várias vezes. É mais forte que eu; ler e escrever é quase uma compulsão, inclusive, porque cresci numa família muito voltada para a cultura e a arte. Meu pai escrevia, tocava piano muito bem e dançava melhor ainda; em datas como aniversários, Dia das Mães ou aniversário de seu casamento, não comprava cartões; ele mesmo escrevia belos poemas para minha mãe...ela, por seu lado, era uma leitora contumaz e também gostava de escrever, assim como seus irmãos, que eram poetas de extrema sensibilidade...logo, foi difícil fugir à minha sina (risos)...
Diante dessa constatação, juntei meus cacos e resolvi mostrar o resultado de tudo através da literatura, numa (des)ordem que me faz muito bem...pois duas coisas me impulsionam e me instigam ao escrever; aprisionar momentos e experiências extremamente fugazes da minha vida pessoal, do meu imaginário  e da vida ao meu redor, e outra, partilhar essas coisas, essas experiências, que, nessa troca, tanto me enriquecem e estimulam a observar aspectos novos ou antes despercebidos. 
Neste momento, é como percebo a questão...