Da mais alta janela da minha casa, com um lenço branco, digo adeus aos meus versos que partem para a humanidade. E não estou alegre nem triste; este é o destino dos versos [...]. Quem sabe quem os lerá? Quem sabe a que mãos irão? Fernando Pessoa.

Obs. usando a autonomia que a licença poética e a própria cultura brasileira me permitem, não adoto linearmente essa segunda outorga (arbitrária) da língua portuguesa.


sábado, novembro 23, 2013

Mar de abrolhos...(Guacira Maciel)

Hoje apenas sangro
de orvalho em orvalho
todas as seivas que foram tuas
o sopro de um amor pueril
evade-se da alma impotente
pássaro cativo do ato mais escravo
o teu canto foi calado
deixaste a pradaria em plena cavalgada
o medo indolente incombatido
mata o mistério do gozo de viver
se ainda me deixasses tocar tuas feridas sem receios...
mas nem um olhar
para velar o funeral da ultima andorinha
Já houve festa e amor vestal
recebeste a  visita das auroras em minha cama
roseando as tuas faces
agora alquebradas em solidão azul
também silenciaram-se teus passos de chegada
e o som resfolegante e cristalino dos teus beijos
 um mar de abrolhos murmureja
em nossas doces madrugadas
o vigor da mão do timoneiro
afrouxa e perde-se o colar de pérolas cultivadas
dormes o sono lasso da escravidão
por saber-te só
a dor de te amar sem esperança
invade o meu peito e sangra-o
gota a gota...
 

terça-feira, novembro 05, 2013

Descobri o encanto de escrever para crianças...(Guacira Maciel)


O Brasil vem se preocupando em criar políticas de educação que visem o desenvolvimento do sentimento de pertencer a um grupo, abrindo espaço para que a  criança/jovem possa se identificar através de valores culturais e históricos similares entre si, num processo dialógico com a comunidade, e que possam criar, principalmente, perspectivas para desenvolver seu potencial emocional, fortalecer a auto estima positiva e a consequente amplitude do seu universo pessoal.
Entretanto, apesar de ter em seu contingente populacional 51% de brasileiros afrodescendentes, só há dez aos foi criada a Lei 10.639/2003 , que altera a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional - LDB 9394/96, e, posteriormente, a Lei 11.645/2008, que incluem no currículo da Educação Básica os conhecimentos da Cultura Africana e da Cultura Indígena.
A partir da sanção da Lei 10.639/2003, os conhecimentos da cultura africana e de afrodescendentes deveriam estar incluídos nos currículos, especificamente através das disciplinas História, Arte e Literatura, o mesmo acontecendo, a posteriori, com relação à inclusão dos conhecimentos da Cultura Indígena. No entanto, por falta de leis complementares, de experiência na formação específica de professores, já que nos currículos das Universidades esses conhecimentos eram postos como disciplinas optativas, essas inclusões no currículo da Educação Básica eram feitas sob a forma de conhecimentos transversais ou em projetos pontuais da Parte Diversificada do mesmo.
O conhecimento/reconhecimento das nossas matrizes culturais é um processo de valorização das origens dos sujeitos e de suas identidades pessoais, emocionais e sociais. A sacralização dos mitos e reafirmação dos preconceitos amplos, tanto na família, como na escola  - porque a própria sociedade cuida de sublimar e esquecer que são assuntos que devem ser discutidos e avaliados como experiências reais, vividas no cotidiano, e oportunidades de aprendizado e crescimento  - gera rejeições, porque os preconceitos, que sobrevivem incomodando, de forma subjacente, precisam ser reconhecidos e tratados com os devidos cuidados. A qualidade de vida passa, inquestionavelmente, pela aceitação intima e a acomodação interior, pois conhecer a própria história, reconhecer as próprias origens, reconstruir/ reafirmar a própria identidade, e conhecer os limites pessoais, como seres humanos, são condições fundamentais para a formação de pessoas mais pacíficas, mais felizes e mais generosas.
Só recentemente, inclusive por reação dos movimentos sociais, as questões acima referidas estão sendo devida e sistematicamente discutidas e vindo à tona, embora muito ainda seja necessário fazer. O conhecimento/reconhecimento das nossas matrizes culturais é parte de um processo de valorização das origens dos sujeitos e precisam ser devidamente cuidadas nas escolas públicas, principalmente porque esses espaços, geralmente, são as únicas oportunidades para discussões em alguns contextos de vida.
A Literatura infanto juvenil tem ação importante como coadjuvante no processo de reconhecimento, aceitação e fortalecimento das identidades, que deve ser iniciado nessa importante fase da vida, porque o faz de forma lúdica, já que a fragilidade infantil é fortemente agredida pelos preconceitos, e a Literatura trabalha suave e sutilmente essas dores, encaminhando para a construção da auto estima positiva e, quem sabe, a cura. Os preconceitos precisam sair do limbo onde são gestados e sobrevivem, incomodando, de forma silenciosa e subjacente, para que sejam  reconhecidos e tratados com os devidos cuidados. Como Arte, ela faz esse papel de conciliação entre os dois universos, porque evidencia as questões mais intimas guardadas como forma de proteção. Nessa perspectiva, ela também enriquece, amplia e aprofunda  o processo cognitivo infantil, porque estimula a criatividade, que é um processo tão subjetivo quanto a própria cognição.
O meu atual trabalho, de dedicação quase exclusiva, trata dessas questões e está possibilitando a mim mesma uma grande descoberta; estou cutucando a minha própria "caixa de brinquedos"...quando a gente é criança isso é tão natural, que nem dá para perceber esse encanto, mas na fase adulta ele é quase sobrenatural...rsrs...porque a gente tem reencontros com nossos fantasmas lúdicos...