Da mais alta janela da minha casa, com um lenço branco, digo adeus aos meus versos que partem para a humanidade. E não estou alegre nem triste; este é o destino dos versos [...]. Quem sabe quem os lerá? Quem sabe a que mãos irão? Fernando Pessoa.

Obs. usando a autonomia que a licença poética e a própria cultura brasileira me permitem, não adoto linearmente essa segunda outorga (arbitrária) da língua portuguesa.


quinta-feira, outubro 17, 2013

Cavalo alado (Guacira Maciel)

 Contemplei silenciosa
a espuma debruando as ondas
 que chegavam à praia
como crinas de cavalo
açoitando as areias
o vulto que poderia ser o teu
arrastava lentamente o meu olhar
para a tua ausência
o cenário era pacífico
apenas a força do vento eriçava
a vegetação costeira
 em pequenas ondulações
 e por alguns segundos
nos encontrei arfantes
mas repousei pois não fizeste
um movimento sequer
meu corpo encostado ao teu
adormeceu num sono de desilusão
regressaste então
resfolegando alado sob o sol
e cavalgaste vigoroso
exalando gozo
por saber-se amado
meu corpo perfumou-se
ao teu toque
e fechou-se o ciclo do dia
imaginado no silêncio do horizonte
para outro anoitecer...

terça-feira, outubro 08, 2013

A minha música...(Guacira Maciel)

Gosto do brilho nos olhos, da translucidez e da inquietude de pupilas que buscam e que me dão respostas mudas, sem necessitar palavras...não preciso de sorrisos rasos, mas de olhos rasos d'água...não preciso de abraços lassos e de frouxos apertos de mão...prefiro um sorriso ambíguo, que pode conter o inesperado, porque abomino o previsível...prefiro a crisálida à borboleta e o botão à rosa... 
 Quero a fantasia, o sonho, o impalpável e um simples pedido de desculpa por uma pisada de bola. Não preciso de respostas certinhas e inquestionáveis. Gosto de pessoas distraídas, de pessoas leves que riam comigo, de mim e de si mesmas risos inesperados que explodem sem razão e inexplicáveis, mas abomino o choro piedoso. 
Quero perdão pelas minhas bobagens, minhas ausências e compreensão pelos meus muitos defeitos sem maldade, minhas fragilidades e meus medos, ainda que infundados... Preciso, principalmente, de pessoas que tenham "os olhos na caixa de brinquedos"; pessoas que não levem tudo a sério e mudem de opinião se for preciso, mas tão sérias que saibam refletir sem se tornarem chatas. Quero pessoas loucas, poetas, sensíveis, inquietas...pessoas que tenham a sua música pessoal, mas considerem dançar  o compasso da minha quando for preciso...