Da mais alta janela da minha casa, com um lenço branco, digo adeus aos meus versos que partem para a humanidade. E não estou alegre nem triste; este é o destino dos versos [...]. Quem sabe quem os lerá? Quem sabe a que mãos irão? Fernando Pessoa.

Obs. usando a autonomia que a licença poética e a própria cultura brasileira me permitem, não adoto linearmente essa segunda outorga (arbitrária) da língua portuguesa.


quarta-feira, agosto 28, 2013

Sou monofásica (Guacira Maciel)



 Não...não é nada disso...eu não tenho limites como ser humano; quanto aos limites físicos, quem não os tem? meu corpo e minha mente me dão respostas fantásticas! para mim o que vale mesmo é estar viva. Muitos morrem jovens e outros vivem muito, como se lhes estivesse sendo mostrado algo maior, mas jogam a vida fora com coisas inúteis; eu nunca tive fase do ter...nunca me preocupei com coisas dessa ordem, porque não tive (e ainda bem...) uma criação que posta sobre a vida  um olhar materialista, limitado e imediatista... Nesse sentido sou monofásica, mas não monocromática; a única fase que conheço é a do construir, sempre. Sempre me envolvi com os sentimentos e valorizei o amor; fui criada por um pai maravilhoso e de alma pura, um artista; tive uma criação suave e amorosa, e assimilei tudo isso, que, infelizmente, só explodiu depois que ele se foi; na minha vida doméstica não houve  violência.
Mas o meu desabafo é motivado pelo cansaço, pelo cansaço de perceber que até hoje, quando um único país, cheio de pretensão e arrogância se acha com direito de, com um simples toque, ameaçar o mundo com um final tão prosaico ou tão estúpido, ainda existem pessoas que só pensam em guardar, em amealhar coisas inúteis para o “futuro”... mas que futuro? e se ele não chegar? o que terão feito por si mesmas, pelo que são, de verdade?
Eu estou falando desse cansaço de ver a inutilidade de tanto desamor, do cansaço meio sádico de chegar exausta e feliz depois de um dia de trabalho árduo em que minha mente é sugada até a ultima gota de seiva, realimentada por um curso fértil de conhecimento construído com determinação, e de ter enfrentado um engarrafamento desumano no trânsito desta cidade sem jeito, e ainda ver, perplexa, meu carro explodir em jatos de água e uma cortina de vapor quente... e eu não saber o que fazer...nesse sentido sou inútil...
Eu não vivo do discurso para sustentar uma tese fatalista, fugaz como aquele vapor...sou forte na minha fragilidade; resisto e recomeço! tenho muita gana de viver e ter experiências que me façam crescer e, sempre que possível, partilhar com os outros... eu quero amar; eu não desisto; eu amo estar viva.  Ontem passou...hoje renasci junto com o sol.
Não pretendo desistir de mim, principalmente. Não vou fingir que está tudo bem, não vou ignorar as sensações mais humanas e ao mesmo tempo mais sublimes que me são permitidas sentir, e não vou permitir que me tirem essa vontade e esse encanto pela vida...ninguém, nem eu mesma, tem esse direito, graças à consciência dos direitos que reconheço em mim como mulher e ser humano... eu não tenho medo da vida nem das pessoas...o que me faz humana e me diferencia do monstro (porque os bichos são maravilhosos e tão ou mais conscientes que muitos de nós), é essa consciência da importância de ser parte de algo maior e sempre novo, e de partilhar essa percepção...
Me desculpem, não quero entender o egoísmo - e o medo - que alguns têm em dividir o que lhes foi dado de melhor, a sua alma e um coração que, muitas vezes, pula louco pra se mostrar e se derrete no peito, mas é ignorado e submetido...isso não é viver...

Um comentário:

DE-PROPOSITO disse...

isso não é viver...
-------
Ou será um viver sem VIVER.
---
Felicidades
Manuel