Da mais alta janela da minha casa, com um lenço branco, digo adeus aos meus versos que partem para a humanidade. E não estou alegre nem triste; este é o destino dos versos [...]. Quem sabe quem os lerá? Quem sabe a que mãos irão? Fernando Pessoa.

Obs. usando a autonomia que a licença poética e a própria cultura brasileira me permitem, não adoto linearmente essa segunda outorga (arbitrária) da língua portuguesa.


quinta-feira, maio 23, 2013

Sobre os telhados (Guacira Maciel)

Sobre as velhas telhas
pedaços aconchegados de história
pairo sonâmbula
na cabeça a música barroca
se debate eclusa
a noite cai silenciosa e alaranjada
mais um pouco o brilho da lua prateia
a argamassa de musgos
e reconstroi o espectro
do teu semblante
mas é só uma lembrança difusa
és mestre em ilusões
o teu fantasma lunar assombra-me
como a gestar o próprio corpo em mim
perversamente
respiro forte e te expulso
da minha presença
és só uma lembrança
reafirmo
colada à minha alma
qual canto canta o imperfeito (?)
ah...dá-me a luz do dia
apaga do meu ser
esse olhar sem sonhos
e ainda bem que amanheço
com a fecunda lucidez
e os fantasmas
são só cansadas telhas...



sexta-feira, maio 17, 2013

Extrema (Guacira Maciel)

Que me tenhas extrema
e seja eu inteira
mas que me queiras utópica
e percebas sem fronteiras o sublime
que morre em mim se te aproximas
e me pertença e a ti
a mesma humanidade
que possa deixar inteira lá a minha alma
se te apossas do meu eu
e que te ergas sobre o corpo
cuja pele em cetim te afaga
ah... que te esvaias
e possa eu arder e apaziguar o teu cansaço
e ser tua manhã
 aurora
a tua harpa e teu compasso
se em minha carne te alimentas
e te banhas no sangue
que aflora rubro em minhas faces
depois repouses
na leveza de espuma e te adormeça
o aconchego frágil em meu regaço

quinta-feira, maio 09, 2013

Submerso...(Guacira Maciel)



 Meu livro “Cruz do meu Rosário; um amor na Chapada Diamantina” poderia - ainda não tenho certeza - ser compreendido como um desdobramento do meu eu singular; uma representação de algo que chamaria de meu universo inconsciente, que se manteve submerso, preservado e aparentemente aceito como apenas remotas lembranças de infância, mas que vem interferindo na minha vida de forma subliminar desde que tive uma compreensão mais profunda, através da minha experiência pessoal, com um amor que considero não ser possível ser experimentado de novo na mesma perspectiva, talvez até por ter começado na minha quase infância. Creio que o amor amplo e profundo só se sente uma vez a cada encarnação; uma experiência dessas, em que a alma é afetada, como se tivesse sido capturada de forma tão íntima, tão contundente, mesmo que traga sofrimentos que pensamos ser insuportáveis a ponto de ser paradoxal pensar na morte, não poderia ser vivido muitas vezes, como uma experiência corriqueira. O amor desses dois (os personagens do livro) será representado e apresentado ao meu próprio consciente e a vocês, através da linguagem que considero a mais nobre: a  literária.
É incrível como venho percebendo aflorar ao pensamento coisas que aparentemente desconhecia. Considero esse livro um verdadeiro exercício de labor (entender como elaboração, (re)construção), pois conta, registra, imprime, deixando marcas dessa história de amor que esteve presente na minha vida, desde a infância. Os personagens principais são meus pais... ah, nem me apresentei! eu sou Sherazade (contemporânea, claro!).
Carlos e Marta, o centro das minhas atenções nessa história, já faleceram. Ela foi primeiro, vítima de uma enfermidade cruel e avassaladora; ele se foi poucos anos mais tarde, vitima de um mal que também causa muito sofrimentos a quem o adquire, mas, na minha compreensão, o motivo fundamental ou o que desencadeou o seu processo de desistência da vida foi a tristeza da ausência de Marta. Não vê-la mais, não ouvirem música juntos logo de manhãzinha tomando um “menor”, e até não ouvi-la “falar como uma vitrola” era-lhe insuportável. Ele começou a sentir-se fora do contexto; o mundo que a partir daquela ausência teria que enfrentar sozinho, sem sua companheira e sua mais profunda e antiga referência nele, era muito ruim; esse novo mundo deixava-o muito solto; cortaram-se as raízes que o fixavam à vida; agora estava ao sabor das correntezas definidas por ventos imprecisos, não identificados. A Chapada Diamantina, sua terra tão amada e tão peculiar e especial, a “terra onde filho chora e mãe não ouve” e para onde levara o seu amor, era só uma lembrança muito tênue do passado...nunca mais voltou lá... ela existira?
Pois é... ainda não sei se vou, simplesmente, reavivar minhas próprias lembranças contando e deixando para meus netos uma história bonita, pois nem participei de grande parte dela - embora Carlos tenha tratado de preservá-la contando-a aos filhos, que as consideravam como histórias de um imaginário fantástico - ou se vou viver um personagem, assumindo o alterego de Marta, como é tão comum na literatura, embora não seja provável que o faça; meu desejo é que Marta exponha um desdobramento de si mesma ou algo parecido com um heterônimo, com personalidade diferente, sem que isso possa ser considerado uma patologia; Marta era muito saudável, muito equilibrada.
Esse eu subliminar, que no livro chamo de Persona, como um nome próprio, foi imaginada desde o princípio como a persona alternativa (alterego) de Marta,  que sentiria, ocasionalmente, necessidade de se reconstruir, voltando sempre à dimensão que a divide, e fraciona sua personalidade (consciente), se entendemos que o alterego sobrevive numa zona mais profunda do ser.
Entretanto, seria Persona, algo ainda desconhecido, confiável à Marta? ela, por desconhecimento àquela época, início do século XX, das questões que só muito depois a Ciência desvendou, confia nele, entretanto, sem questionar, e nem teria outra alternativa, já que não encontraria mesmo, as explicações que precisaria para compreender o que estava acontecendo consigo e com sua vida...
Pode ser que eu (autora) assuma ser esse alterego ( o Persona), por puro cuidado em preservar a memória e a vida de Marta, já que se fala até que esses desdobramentos  seriam patologias, como se referem alguns à fantástica capacidade de Fernando Pessoa de criar seus vários hoterônimos...alguns dos quais, disputam o lugar de seu alterego oficial...
Depois pensei que o alterego de Marta poderia emergir do seu próprio ID, cujos impulsos estariam vindo à tona após um longo período em que, depois de tantos sofrimentos e perdas, ainda teve que viver tão reprimida como agregada na casa dos tios milionários, arrogantes e rancorosos, incluindo nessa volta a sua própria sexualidade, já que era-lhe vetado qualquer contato com possíveis namorados, razão pela qual aceitou a orientação de Persona para que fugisse e escolhesse ser feliz, já que se apaixonara por Carlos, e já que nosso ID é chamado “princípio do prazer”...

Vamos para frente, verei até quando aguentarei sem assumir o alterego da minha protagonista...