Da mais alta janela da minha casa, com um lenço branco, digo adeus aos meus versos que partem para a humanidade. E não estou alegre nem triste; este é o destino dos versos [...]. Quem sabe quem os lerá? Quem sabe a que mãos irão? Fernando Pessoa.

Obs. usando a autonomia que a licença poética e a própria cultura brasileira me permitem, não adoto linearmente essa segunda outorga (arbitrária) da língua portuguesa.


sábado, abril 13, 2013

A mulher na Literatura Brasileira a partir do século XIX; fragmento de proposta de pesquisa... (Guacira Maciel)

A relação entre Literatura e Memória remonta aos primórdios da história humana, quando a cultura e a educação gregas se apoiavam na declamação para preservar e difundir as práticas. Nesse período existia apenas a poiesis, que desempenhava o fundamental papel de contar a história; ainda não se falava em literatura. Dessa forma, o que havia era um encontro que enfatizava estreitas relações entre memória (lembrar) e literatura (narrar).
As interferências de âmbito social na literatura geralmente eram relegadas a um segundo plano, o que terminava por empalidecer a importância dos aspectos sociais das experiências humanas em determinados contextos. Assim, ainda que alguns elementos de uma obra literária sobrevivessem numa zona de sombra, terminavam por criar espaços espontâneos de interação entre o autor, a subjetividade e o leitor. Os textos literários eram, a priori, analisados sob pontos de vista artísticos, criando um vácuo sociohistórico na literatura,  e mesmo que a experiência social e os hábitos dos sujeitos estivessem presentes de forma subjacente em todas as manifestações no contexto da obra, assim como no contexto da vida dos autores e dos leitores, essas análises não eram feitas.
Por esta razão, foi (e continua sendo) interessante desvendar esses caminhos de participação da mulher no universo literário, já que sua atuação ali, embora riquíssima, era mais ignorada, quanto mais atuante ela se tornava, chegando  à proposital invisibilidade em determinada fase; e nesse entre espaço onde tinha uma sub vida, nesse “entre lugar”,  ela gestou e deu crias, já que, em sendo invisível, ele não tinha fronteiras limitadas... aí ela se fortaleceu, num processo de retroalimentação, até tornar-se um grupo de mulheres escritoras fortes, conscientes e que tinham muito o que dizer. Conhecer sua trajetória desde os primórdios de sua atuação e o papel desempenhado pela imprensa feminina brasileira do século XIX, como suporte à mudança do paradigma que aprisionava a mulher como propriedade masculina, assim como o que veio a mudar nessa relação e na sua atuação na sociedade como um todo, é fascinante...
Alguns autores vêm discutindo essa questão, interessados na escritura jornalística feita por mulheres, indagando-se sobre o que pensavam, sentiam e escreviam no período em questão, como um marco para as mudanças decisivas que terminaram por atingir as bases da sociedade no “rastro das grandes mutações político-econômico-sociais que se aceleraram no século XX”, assim como das profundas modificações ocorridas nas relações homem-mulher e, consequentemente, na família e na sociedade. Os documentos que registram essas experiências do passado vêm sendo redescobertos ou reanalisados sob outras perspectivas, podendo-se considerar que o fenômeno reabre as discussões sobre esta questão em específico e sobre linguagens outras, que ainda hoje aquecem as opiniões sobre o estar da mulher em sociedade.
Numa entrevista à Revista “ISTO É”, Mary del Priore, uma importante pesquisadora - brasileira,  contemporânea - do assunto, diz que o “feminismo no Brasil não funcionou porque as mulheres continuam a pensar de forma arcaica. Há ainda aquelas que cultivam o mito da virilidade, gostando de evidenciar a sua fragilidade”, numa profunda e inadimissível autodesvalorização. Segundo ela, as discussões em alguns países trouxeram como proposta para o século XXI uma nova ética para a mulher, fundamentada em valores absolutamente femininos, que divergem do pensamento de Simone de Beauvoir (anos 50), de que o objetivo das mulheres seria provar que eram iguais ao homem podendo assim, se beneficiarem dos mesmos direitos, os masculinos. Entretanto, a compreensão á a de que esses objetivos são “abstratos e vazios”, por não terem considerado as diferenças entre os gêneros para lutar contra a submissão. A mulher não tem que partir de valores masculinos para lutar contra isso, mas dos seus próprios valores, na busca de mudanças e novos paradigmas em que ela esteja em seu próprio lugar, antes de tudo, como sujeito de direito. O cerne dessa nova otica não é adotar os valores masculinos, mas refletir uma ética e uma lógica em que sejam identificados e respeitados os valores femininos, estando, entre outros: a “liberdade individual, controle do hedonismo e dos desejos, e contornar o vazio da pós-modernidade”. Percebendo-se que no século XXI a busca é pela felicidade e por identificar e definir identidades, tendo como pressupostos educação e consciência, ou seja, uma consciência muito mais profunda e ampla.

A autora Norma Telles, em sua obra, Rebeldes, escritoras abolicionistas, nos refere que na sociedade oitocentista a criação seria um dom exclusivamente masculino e que [para a mulher] o livro era a almofada e o bastidor, e mais, que é necessário rebeldia e desobediência aos códigos culturais vigentes. Há pouco tempo, numa novela que retratava o início da República no Brasil, vimos que uma mulher, mesmo sendo competente jornalista precisava usar um pseudônimo masculino para publicar num jornal seus artigos de excelente qualidade. Ainda da autora supracitada: o “ato de escrever implica numa revisão do processo de socialização, assim como das representações conscientes e em enfrentamentos do inconsciente, também ele invadido pela situação objetiva da dependência do homem, que condicionaram a formação do eu”. Sem dúvida, essa é uma questão que merece um debate mais aprofundado por se tratar de identidade, me refiro a uma dimensão muito além da condição de ser do gênero biológico ao qual pertence, falo do ser feminino na mulher contemporânea, que se aloja na sua mais íntima condição de sujeito  individual entendido sob nuances novas, e aquele que sobreviveu do período acima referido, tanto individual, quanto coletivo, implicitamente instalado e aceito naquela sociedade, e terminou por ser internalizado, vindo a compor o inconsciente coletivo, uma vez que a memória individual alimenta-se deste ultimo e que o ato de lembrar não é autônomo, estando enraizado no movimento interpessoal das instituições sociais. Essas ‘fronteiras’ e esses movimentos terminaram por denunciar abismos que foram corajosa e sub-repticiamente explorados, desmistificados no submerso universo feminino em qualquer instância, notadamente o da literatura, nosso foco aqui, mas que se desdobraram em muitas esquinas que apontaram infindáveis caminhos e formas de caminhar [...]

Um comentário:

O Sibarita disse...

Pois é, né? kkkk Porreta seu texto, sempre...

Pensando bem a sociedade já nasceu machista desde os primórdios em que as mulheres eram relegadas ao papel secundário...

Então essas conquistas vieram através do progresso dessa mesma sociedade e é claro pela luta de bravas mulheres que desafiaram e quebraram paradigmas do seu tempo sem medo de ser feliz, olha um bom exemplo: a Chiquinha Gonzaga e outras e outras...

O Sibarita