Da mais alta janela da minha casa, com um lenço branco, digo adeus aos meus versos que partem para a humanidade. E não estou alegre nem triste; este é o destino dos versos [...]. Quem sabe quem os lerá? Quem sabe a que mãos irão? Fernando Pessoa.

Obs. usando a autonomia que a licença poética e a própria cultura brasileira me permitem, não adoto linearmente essa segunda outorga (arbitrária) da língua portuguesa.


domingo, março 10, 2013

Os sete mares; poema impressionista nº 7 (Guacira Maciel)



De novo, na volta do trabalho, vinha dirigindo calmamente à beira do mar e pensando que me sentia um pouco como os grandes navegadores da história, pois vira os sete mares neste verão de 2013... talvez só eu tenha pensado nisso em um tempo em que não se tem tempo para coisas tão prosaicas. Pensei no grandioso espetáculo que quase se derrama sobre nós todos os dias em uma belíssima e sensual orla marítima sem ser sequer percebido. Espontaneamente, fiz uma analogia engraçada com um fato interessante que via todas as vezes que ia dançar com meu companheiro: tratava-se de um homem já bastante idoso que se apresentava, como num espetáculo, dançando sozinho uma coreografia caprichada, que ninguém percebia...nós achávamos aquilo interessante e nomeamos seu espetáculo como a ‘dança do acasalamento’. Esta é a sensação que tenho todas as vezes que olho para o mar na solidão da urbanidade desta Soterópolis, tentando seduzir a quem passa, sem receber sequer um olhar...mas eu vi o mar através de todos os meus aguçados sentidos: deitada na areia da praia da Pedra do Sal, silenciosa naquela manhã, divaguei e vaguei pelo azul acima de mim, coberta pelo aconchego morno daquela enorme cúpula, tendo à minha frente a linha de um horizonte que delineava a perfeita curvatura da terra, sem um único obstáculo que corrompesse aquela perfeição; senti o delicioso cheiro dos sargaços trazidos da minha infância; vi os pequenos diamantes e pérolas desprendidos das caudas das sereias piscando para mim nas areias de Madre de Deus; vi quando o sol, preguiçosamente e ainda embriagado pelo sono ocidental, aguardava generosamente o repouso da lua, já quase totalmente cheia e pesada como um ventre grávido; vi o imenso polvo ondulante repousado languidamente sobre as areias entre as praias de Piatã e Jaguaribe; percebi o mar em tons de cinza, dando a impressão de que sua concretude era afetada apenas por um leve drapeado que desafiava a moça do vestido vermelho; também me dei conta da fuga daquela sonoridade tão inerente, tão orgânica; compreendi que, além da observação visual, a presença daqueles sons suaves e naturais que deixavam impressas em minha sensibilidade imagens tão fortes, embora tão fugases, capturadas e expressas nos meus poemas impressionistas eram fundamentais às impressões oferecidas pela visão. Comecei então a entender que além da luz, os sons se encaixam e compõem a obra; e como sou influenciada por eles, e como eles potencializam as minhas impressões visuais, ainda que por um grito ao longe, trazido pelo vento ou simplesmente o som que a  brisa matinal provoca nos meus ouvidos...E, podem crer, eu vi, à minha frente, o sal na clara liquidez das suas águas azuis, aflorar em graciosos e delicados arabescos à sua pele cristalina...


Um comentário:

O Sibarita disse...

Ah porreta! kkkk E tem coisa melhor que admirar o mar e divagar? Não tem né?

Seu maravilhoso texto nos leva para dentro do mar (eu mesmo virei Posídon (grego) ou Netuno (romano) aimôpi! kkkk)viajando em cada palavra lida...

Beleza de creusa seu texto! kkk

Madre de Deus, é? Ah bom... kkkkk

Eita mulher retada meu Deus! kkkk

O Sibarita