Da mais alta janela da minha casa, com um lenço branco, digo adeus aos meus versos que partem para a humanidade. E não estou alegre nem triste; este é o destino dos versos [...]. Quem sabe quem os lerá? Quem sabe a que mãos irão? Fernando Pessoa.

Obs. usando a autonomia que a licença poética e a própria cultura brasileira me permitem, não adoto linearmente essa segunda outorga (arbitrária) da língua portuguesa.


sábado, março 02, 2013

Intolerância; pecado capital contemporâneo ( Guacira Maciel)



Como professora e educadora, acredito  de fundamental importância rever, reavaliar e trazer à discussão com mais frequência, questões que já estão consolidadas e sacralizadas como verdades no seio da sociedade. O mundo mudou radicalmente; a vida acontece sobre novos pilares, os comportamentos sob novos paradigmas, e apenas como um estágio preparatório para as perspectivas que ainda estão por vir.
Ao me propor a escrever sobre os Sete Pecados Capitais, definidos pelo Cristianismo num período que  em nada mais se parece com os tempo que estamos vivendo, sei que corro o risco de não ser compreendida. Ora, esses pecados foram definidos no papado de Gregório Magno, no final do século VI; portanto, lá se vão 15 séculos!...a vida e as formas de viver e conviver já nada guardam daquele período, inclusive, porque a Ciência avançou de forma tão profunda que até o ser humano e sua capacidade biológica sofreram mudanças e mutações. Hoje, sabe-se que o cérebro tem uma capacidade espantosa de regeneração e de reorganização, e isso faz parte do quadro evolutivo do homem para se adequar à sua condição de vida atual, o que afetou profundamente as relações e formas de o homem se relacionar, consigo, com o outro e com a vida.
Em sendo assim, também já não é possível avaliar questões e comportamentos tão antigos, com metodologias e visões do mundo contemporâneo. Embora novos pecados tenham sido acrescentados à lista, os antigos continuam utilizados como parâmetro  para julgamentos e considerações acerca da postura das pessoas que professam determinada fé. Tomando alguns deles como exemplo, eu citaria a “Luxúria”- apego e valorização dos prazeres carnais, sensualidade e sexualidade, pecado contra a saúde do corpo – ora, desde quando a prática do sexo faz mal à saúde do corpo - ou da alma - ? que eu saiba, é exatamente o contrário... há muito pouco tempo assisti a um programa sério de TV aberta, em que uma sexóloga – uma profissão provavelmente proscrita nessa visão – incentivava os casais, eu disse casais, a iniciaram os jogos amorosos do prazer sexual dentro dos carros, “para esquentar a relação”, e mais, ainda sugeria que esses carros deveriam ter vidros escuros...isso seria um pecado? Será que ainda se espera que o sexo seja estritamente feito com fins de procriação, num mundo que promete morrer de fome, em vista das explosões populacionais e precariedade das economias, por consequência da má distribuição de renda nos continentes, entre outras graves causas? se o sexo fosse um pecado, tenho certeza que a Criação encontraria outra forma de povoar o mundo...
Outro deles, esse já constante da nova lista definida em 2008: “uso de drogas”. O usuário de drogas é um ser humano doente; um ser humano que necessita cuidados especiais e ajuda, uma vez que já se sabe que muitas razões, aleatórias à vontade dessas pessoas, podem ser motivo desse vício, como violência doméstica, violação da intergridade intima ou psicológica, fome, etc. Uma pessoa dessas não é um pecador!
 Na mesma perspectiva, vem, “Violações bioéticas/controle de natalidade/aborto/contraceptivos que impedem a geração natural da vida”; realmente, esses pecados precisam de novas análises. Sabemos que a violência sexual praticada contra adolescentes pelos próprios pais geram filhos...sabemos que sexo sem segurança ou estupros geram filhos e doenças que matam; será que isso seria “geração natural da vida”? um ato de violência é uma forma natural de procriação?  
Mais um deles me causa perplexidade: “Experimentos moralmente dúbios com células tronco”; um avanço da medicina que salva milhares de vidas humanas por todo o mundo diariamente; que reintegra à sociedade pessoas que tinham uma sub vida, dando-lhes condição de se sentirem gente, de se sentirem vivos; de poderem trabalhar, amar,  de constituirem família... Quanto à dubiedade desses experimentos, seria muito mais uma questão de ética, restrita à classe médica e não às  igrejas.
Sinceramente, esse não é o Deus em nome de  quem se criou coisas assim... a isso eu chamaria Intolerância, um pecado amplamente desumanizador, porque atinge a vida em todas as suas manifestações! o Deus em quem acredito, possibilitou ao homem todos os avanços e condições de que fosse estabelecida uma condição de vida melhor a seus filhos; um CRIADOR e não um  verdugo, um destruidor... o Deus que conheço é um Deus de amor...
Sinto muito não ter conseguido escrever um texto poético, mas questões como essas, impedem, nublam e mesmo anulam a minha visão poética.

Um comentário:

O Sibarita disse...

Mas, sua menina, um texto dessa magnitude não necessita de uma visão poética.

Seu texto nos leva para dentro da reflexão... Pergunta-se e quem nunca teve um namoro dentro de um carro? É tão bom, tão gostoso e tão banal nos dias atuais, repare... kkkkk

Atire a primeira pedra quem nunca o fez, ou então, faça como Pedro negue por três vezes! kkkkkkkkkk

Porreta!

O Sibarita