Da mais alta janela da minha casa, com um lenço branco, digo adeus aos meus versos que partem para a humanidade. E não estou alegre nem triste; este é o destino dos versos [...]. Quem sabe quem os lerá? Quem sabe a que mãos irão? Fernando Pessoa.

Obs. usando a autonomia que a licença poética e a própria cultura brasileira me permitem, não adoto linearmente essa segunda outorga (arbitrária) da língua portuguesa.


terça-feira, fevereiro 05, 2013

Tributo a VanGogh (Guacira Maciel)

  Darei início a este texto especial e em especial, dizendo que fundamento as informações postas neste trabalho, em documentos que servem, tão somente, como referência, pois tenho outro olhar e formas de entendê-las; assim, minha indignação foi grande ao ler num livro biográfico sobre Van Gogh : “ A sua vida foi um malogro. Em tudo o que para o seu mundo, para o seu tempo, parecia de importância, foi ele um falhado[...]      A experiência fundamental de Vincent foi e permaneceu a do fracasso...”
Mas... certamente, 'isso' não foi dito por um artista!
Ainda sobre ele, Antonin Artaud, indignado, escreveu, em magnífico trabalho, que Van Gogh estava tão além do seu tempo, que às vésperas de ser inaugurada importante exposição da sua obra, no início da sua carreira, certo psiquiatra da época, incomodado, teria dado entrevista a um jornal dizendo ser ele um desequilibrado. Ora, um “homem de ciência” àquela época, tinha sua palavra inquestionável; mesmo porque eles não proliferavam como hoje...
Gostaria de registrar a indignação que sempre senti; a tristeza e um sentimento de revolta, assim como, o quanto, ainda hoje, me doi pensar nos sofrimentos causados pelo desrespeito, humilhação e injustiça pelos quais passou esse gênio da pintura. Em algumas culturas do Oriente, um artista é considerado um patrimônio cultural a ser cuidado e preservado dentro desse universo, principalmente, por ser entendido ser essa  uma das formas de passar uma cultura à posteridade. Nada do que se possa pensar chegará perto da realidade; às vezes, até tentamos nos colocar no lugar do ‘outro’, mas nem sempre conseguimos perceber a intensidade do seu sentir, no entanto, imagino o que teria sido receber a indiferença, o escárnio, a brutalidade em troca de tanto amor à Arte, de tanta sensibilidade, de tanto estudo, de tanta busca e de tanto sonho de criação...
Que direito tem quem quer que seja, de outorgar a si mesmo “autoridade” para questionar a sanidade de um gênio? Que conhecimento da alma e dos caminhos subjetivos desse ser, tem alguém, para condenar a uma subvida outra pessoa (ver o trabalho da Dra. Nise da Silveira), ainda que não fosse ela uma inteligência superior? Bem, poderia servir de consolo estar certa que os gênios existem, justamente, para provar à maioria, o quanto ela é medíocre!
Cada um se expressa pela linguagem que lhe é facultada e melhor atenda à sua sensibilidade; VanGogh, através da sua belíssima e expressiva pintura mostrava o Ser em suas facetas mais humanas e denunciava um cotidiano sofrido e tão, ou mais, difícil quanto o dele; ali ele também expunha a angústia em que vivia seu próprio espírito ao perceber essa realidade absurda, tempo em que experimentou a extrema miséria social ao conviver por decisão própria com trabalhadores de minas de carvão. Nessa fase da sua Arte, quando retratava pessoas de semblante triste e marcado, cuja vida era lúgubre e cansativa pela exaustão que o trabalho árduo deixava, não poderia usar as cores puras e os traços dançantes de fases posteriores...
Numa época da sua vida artística, não por tanto tempo, teve em Mouve um ‘mentor estético’, do qual se libertou (ainda bem), por entender que ele tinha uma concepção estética muito acadêmica e presa a cânones, em detrimento da expressão pessoal e ausência de registro dos problemas sociais. Vincent foi um artista de absoluto vanguardismo, pois situou seu trabalho dentro de um contexto social; sua obra tinha uma lógica e uma estética próprias. Ele não se prendia à questão acadêmica da época, tinha uma alma livre, não suportando, também, críticas à sua vida privada, o que lhe lembrava muito as restrições impostas por seu pai, em seu calvinismo beato. Por razão como essas, refugiou-se em sua arte numa tentativa de escapar àquela relação que lhe trazia lembranças e sentimentos muito contraditórios; solidão que, no entanto, lhe causava atroz sofrimento.
Fico perplexa e questiono sobre quais teriam sido os parâmetros que os ‘críticos’, desde sempre, tomaram como referência para ‘julgar’ dessa ou daquela forma o trabalho de um gênio (repetirei sempre), que nem ao menos compreendiam, porque não tinham espírito para tal. Teria sido por medo de ousar contradizer os ‘entendidos’, que jamais se mudou esse conceito duro, insensível e ignorante, quanto à arte desse homem?  No Ocidente é cultural valorizar financeiramente o trabalho de um artista após a sua morte; mas não porque se teve a decência, humildade ou coragem de reavaliar posturas grosseiras anteriores aprisionadas num universo pequeno demais, mas sim, porque o ‘mercado’ assim determina, em função da dificuldade de compra de sua obra, o que termina por valorizá-la...
Quem delegou a outrem, autoridade, poder... sei lá!...para definir a vida emocional e as dores de alguem? Será que temos esse direito, essa condição? O que ou quem teria elementos para eleger padrões definitivos de normalidade psicológica de um ser humano em sua complexidade? Aliás, é recorrente entre nós esse comportamento de semideuses... Os inúmeros exemplos comprovam isso; entretanto, enfatizo, esse ‘fenômeno’ não é incomum em relação às grandes inteligências, e temos incontáveis exemplos! Seria porque elas incomodam e desestabilizam o que se quer imutável, enquadrado, definitivo? Mas como qualquer coisa viva poderia ser definitiva? Não posso compreender a VIDA com esse olhar restritivo... Outro significativo exemplo disso, precisaria citá-lo porque ele compreendeu e se indignou com esse comportamento em relação à Van Gogh, foi outro gênio, e incompreendido, Antonin Artaud (antes referido), uma mente brilhante que recebeu o mesmo tratamento brutal, tendo sido também trancafiado em manicômio, e 'tratado' pelo próprio médico que o incentivava e amava seu trabalho, com diagnóstico de ‘loucura’... mas que ousou desafiar pessoas sacralizadas por valores tortuosos, estando entre outras falas extremamente lúcidas, esta, que por razões óbvias apresento aqui, endereçada em carta aberta aos Reitores de Universidades européias da época:
Deixa-nos, pois, Senhores; sois tão somente usurpadores. Com que direito pretendeis canalizar a inteligência e dar diplomas de Espírito? Nada sabeis do Espírito, ignorais suas mais ocultas e essenciais ramificações [...]. Em nome de vossa própria lógica, vos dizemos: a vida empesta, Senhores. Contemplai por um instante vossos rostos e considerai vossos produtos. Através das peneiras de vossos diplomas, passa uma juventude cansada, perdida. Sois a praga de um mundo, Senhores, e boa sorte para esse mundo, mas que pelo menos não se acredite à testa da humanidade.
De forma magistral, Vincent, esse sensível ser humano, em sua evolução humana e artística demonstrou através das cores, seu profundo envolvimento com o contexto em que vivia; não lhe interessava retratar a particularidade do objeto, como não o interessou quanto à sua própria vida, uma vez que as questões sociais e a vida cotidiana sempre foram mais fortes. Em sua obra os objetos tinham vida no ambiente em que se encontravam e faziam nele um sentido; Vincent tinha consciência de que nada tinha vida num universo particular e imutável; tinha a consciência implícita de uma ecologia ampla e profunda onde tudo está intimamente ligado, ou seja, cada coisa é afetada e afeta a outra. Quem olha um girassol e não se lembra dos seus “Girassóis”?
O que definitivamente seria a loucura? Pode-se conferir-lhe sem análise esse caráter?

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