Da mais alta janela da minha casa, com um lenço branco, digo adeus aos meus versos que partem para a humanidade. E não estou alegre nem triste; este é o destino dos versos [...]. Quem sabe quem os lerá? Quem sabe a que mãos irão? Fernando Pessoa.

Obs. usando a autonomia que a licença poética e a própria cultura brasileira me permitem, não adoto linearmente essa segunda outorga (arbitrária) da língua portuguesa.


quinta-feira, fevereiro 21, 2013

Cremar o defunto? (Guacira Maciel)


                              
Morre o  pai e companheiro inseparável, depois de tantos anos de vida  juntos...no dia do velório, toda a família confrangida orava unida pedindo pelo descanso eterno...as irmãs da pobre viúva, com os rostos encobertos pelo pesar, desempenhavam o papel que delas era esperado... mas a dita cuja dava mostras, muito mais de preocupação que tristeza no semblante fechado; parecia absorta em pensamentos insondáveis para quem a olhasse. Pensava na própria situação e fazia um esforço sobre-humano para disfarçar e concentrar-se nas orações, nas demonstrações de pesar pelo falecimento do amigo, colega, vizinho... ali perto em contritos pensamentos e lembranças da infância, estava a unica filha, menina tranquila e contemplativa...ao olhá-la dir-se-ia estar perdida em suas lembraças de criança junto ao amoroso pai...o ambiente estava completo em todas as perspectivas inerentes à situação. Inesperadamente, a mocinha é arrancada daquele torpor e pergunta à mãe, com o rosto afetado pela dor: - Mãe, por que você não manda cremar o papai? Uma espécie de loucura repentina parece ter acometido a aparência controlada da senhora, que, passando a mãos sobre os olhos para desanuviar  a visão, respondeu, quase aos berros: - Você está maluca, menina? onde eu vou arranjar dinheiro para cremar seu pai? isso é muito caro! tá pensando que eu fiquei rica? ele não morreu? pois vai ficar é debaixo da terra mesmo!... Os presentes, tomados de espanto, começaram a rir discretamente tentando disfarçar, enquanto as irmãs da descontrolada, faziam o possível para acalmá-la abraçando-a e dando-lhe pequenos apertos na tentativa de evitar que o vexame se prolongasse. Depois do ocorrido todos pareciam calmos e ter compreendido aquele surto, mas o clima adquiriu uma conotação tragicômica e  para evitar outros constrangimentos, a família resolveu chegar logo aos finalmente...Assunto enterrado!



Um comentário:

O Sibarita disse...

Moça, na realidade, a cremação ainda é um grande tabu... Até eu quando se fala nisso tremo nas baes. kkkkkk

O Sibarita