Da mais alta janela da minha casa, com um lenço branco, digo adeus aos meus versos que partem para a humanidade. E não estou alegre nem triste; este é o destino dos versos [...]. Quem sabe quem os lerá? Quem sabe a que mãos irão? Fernando Pessoa.

Obs. usando a autonomia que a licença poética e a própria cultura brasileira me permitem, não adoto linearmente essa segunda outorga (arbitrária) da língua portuguesa.


sábado, janeiro 05, 2013

Poema impressionista (Guacira Maciel)


Hoje, não fui orientada pelo olfato; não senti o cheiro dos sargaços da minha infância durante a minha caminhada à beira do mar da madrugada. Sim, o mar da madrugada, porque durante o resto do dia, embora de estonteante beleza, suas nuances não têm o tom aveludado causado pelo momento preambular à luz do dia...Hoje, fui quase abduzida por outro dos sentidos, embora não menos forte que o primeiro, a visão.
 Olhar o mar sempre me impressiona e me deixa em quase estado de epifania; seu aspecto nesta madrugada, enquanto o sol, preguiçosamente e ainda embriagado pelo sono ocidental, aguardava generosamente o repouso da lua já quase totalmente cheia e pesada como um ventre grávido, que caminhava preguiçosa a pequenos passos, sob o olhar complacente de nós três: o sol, eu e o imenso polvo repousado languidamente sobre as areias de Piatã.
Nesse interregno, minha atenção foi despertada pela forte impressão de maciez daquele lençol de cetim azul profundo que aguardava o repouso lunar. Pequenas ondulações aveludadas finalizam-se em fragmentos de renda branquíssima e quase tão delgadas quanto os vestígios  de luz das pegadas daquela deusa Godiva. Pareceu-me que mãos inábeis tentavam estendê-lo sobre uma cama etérea. Acima da maciez do leito líquido, um gazebo de nuvens protegia aquela caminhada permitindo que apenas um diluído reflexo de luz solar escapasse por um rasgão da sua fragilidade. Enfim, deitou-se, sagrada, a lua e abriu-se a densa nuvem permitindo que a luz dos primeiros raios desdobrados pelo reflexo na superfície  líquida  me arrancassem da magia daquele torpor...

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