Da mais alta janela da minha casa, com um lenço branco, digo adeus aos meus versos que partem para a humanidade. E não estou alegre nem triste; este é o destino dos versos [...]. Quem sabe quem os lerá? Quem sabe a que mãos irão? Fernando Pessoa.

Obs. usando a autonomia que a licença poética e a própria cultura brasileira me permitem, não adoto linearmente essa segunda outorga (arbitrária) da língua portuguesa.


domingo, janeiro 27, 2013

A moça do vestido vermelho; poema impressionista nº 3 (Guacira Maciel)


É voz corrente que Heráclito teria sido um filósofo de pensamento obscuro e insondável. Isso sempre me causa entranheza, porque creio mais que tudo ou quaisquer outras considerações, que a obscuridade reside mais no leitor, já que o que se tem registrado de sua obra são fragmentos quase perdidos de sua moldura de origem – contexto – escritos em um período em que os interesses se voltavam mais para os mitos do que para a história. De qualquer forma, é preciso refletir que mesmo assim eles terminaram por compor uma imagem filosófica e humana melhor do que a história o faria, uma vez que ele teria optado por uma vida reclusa nas montanhas de Éfeso. Deixando de lado todas as polêmicas a seu respeito, sabe-se que ele escreveu o livro intitulado “Acerca de Narureza”  e, tenha sido em prosa ou verso (outra polêmica), essa obra perdeu-se em consequência  do desmoronamento das Civilizaçãoes, restando apenas fragmentos de onde emerge o homem que nos seduz...Mas voltemos à Natureza como moldura das minhas caminhadas e ao registro das impressões que tanto têm me estimulado  neste verão cheio de luz de 2013. Ao chegar lá hoje, olhei o mar, que é a mais importante referência neste quadro, e minhas retinas registraram uma superfície lisa, em tons de cinza (não os 50, por certo...),  que dava uma impressão de concretude, insondável à minha sensibilidade... afetada apenas por um leve drapeado que não manifestava nenhum interesse em vir beijar as areias, talvez por não estarem mornas...o sol também difuso como se derreado por alguma orgia oriental,  oferecia uma luz parca em vigor, que ainda assim se desdobrava naquela superfície, velada por uma fina camada de gaze lilás que deixava ver sua fluidez, mas preservava-se íntegra e sem pedaços esparsos... naquele momento me veio à lembrança e cantei baixinho o verso de uma canção da qual não sei o nome: - “a luz do abajour lilás...” À essa visão me integrei de tal forma ao cenário, que a consciência deve ter me despido da carapaça física e transportado a outra dimensão... já não estava ali, mas lá...na obra... Como último recurso lógico, tentei apurar a vista para ver coisas conhecidas e concretas, como os surfistas ao longe, pessoas caminhando ou mesmo o preguiçoso polvo languidamente adormecido, mas a incidência da luz, somada ao vapor da maresia só filtravam a percepção de uma silhueta, como uma visão distorcida e estranha àquele contexto, vindo em sentido contrário. Era uma moça com um esvoaçante vestido longo e vermelho que, absorta, tentava, teimosamente, desmanchar com os pés dascalços o perfeito drapeado  e, com isso, contrariar a natureza ou demonstrar a si mesma que tinha controle sobre alguma coisa... passei a desejar que chegasse mais perto para buscar entender aquela atitude inútil e, quem sabe, ver se sua fisionomia me diria alguma coisa, mas não houve tempo... fui retirada bruscamente daquela imersão por um barulhento automóvel tocando um “arrocha” que me deixou contrariada; porém, ao passar pelo infrator o ouvi dizer  a um companheiro, levando a mão ao peito
 _ Essa música vai direto ao coração, brother...

Nenhum comentário: