Da mais alta janela da minha casa, com um lenço branco, digo adeus aos meus versos que partem para a humanidade. E não estou alegre nem triste; este é o destino dos versos [...]. Quem sabe quem os lerá? Quem sabe a que mãos irão? Fernando Pessoa.

Obs. usando a autonomia que a licença poética e a própria cultura brasileira me permitem, não adoto linearmente essa segunda outorga (arbitrária) da língua portuguesa.


terça-feira, janeiro 29, 2013

Luto pela tragédia ocorrida com tantas vidas na BOATE KISS, em Santa Maria (Rio Grande do Sul). Que esses jovens encontrem a LUZ e suas famílias o CONSOLO.

domingo, janeiro 27, 2013

A moça do vestido vermelho; poema impressionista nº 3 (Guacira Maciel)


É voz corrente que Heráclito teria sido um filósofo de pensamento obscuro e insondável. Isso sempre me causa entranheza, porque creio mais que tudo ou quaisquer outras considerações, que a obscuridade reside mais no leitor, já que o que se tem registrado de sua obra são fragmentos quase perdidos de sua moldura de origem – contexto – escritos em um período em que os interesses se voltavam mais para os mitos do que para a história. De qualquer forma, é preciso refletir que mesmo assim eles terminaram por compor uma imagem filosófica e humana melhor do que a história o faria, uma vez que ele teria optado por uma vida reclusa nas montanhas de Éfeso. Deixando de lado todas as polêmicas a seu respeito, sabe-se que ele escreveu o livro intitulado “Acerca de Narureza”  e, tenha sido em prosa ou verso (outra polêmica), essa obra perdeu-se em consequência  do desmoronamento das Civilizaçãoes, restando apenas fragmentos de onde emerge o homem que nos seduz...Mas voltemos à Natureza como moldura das minhas caminhadas e ao registro das impressões que tanto têm me estimulado  neste verão cheio de luz de 2013. Ao chegar lá hoje, olhei o mar, que é a mais importante referência neste quadro, e minhas retinas registraram uma superfície lisa, em tons de cinza (não os 50, por certo...),  que dava uma impressão de concretude, insondável à minha sensibilidade... afetada apenas por um leve drapeado que não manifestava nenhum interesse em vir beijar as areias, talvez por não estarem mornas...o sol também difuso como se derreado por alguma orgia oriental,  oferecia uma luz parca em vigor, que ainda assim se desdobrava naquela superfície, velada por uma fina camada de gaze lilás que deixava ver sua fluidez, mas preservava-se íntegra e sem pedaços esparsos... naquele momento me veio à lembrança e cantei baixinho o verso de uma canção da qual não sei o nome: - “a luz do abajour lilás...” À essa visão me integrei de tal forma ao cenário, que a consciência deve ter me despido da carapaça física e transportado a outra dimensão... já não estava ali, mas lá...na obra... Como último recurso lógico, tentei apurar a vista para ver coisas conhecidas e concretas, como os surfistas ao longe, pessoas caminhando ou mesmo o preguiçoso polvo languidamente adormecido, mas a incidência da luz, somada ao vapor da maresia só filtravam a percepção de uma silhueta, como uma visão distorcida e estranha àquele contexto, vindo em sentido contrário. Era uma moça com um esvoaçante vestido longo e vermelho que, absorta, tentava, teimosamente, desmanchar com os pés dascalços o perfeito drapeado  e, com isso, contrariar a natureza ou demonstrar a si mesma que tinha controle sobre alguma coisa... passei a desejar que chegasse mais perto para buscar entender aquela atitude inútil e, quem sabe, ver se sua fisionomia me diria alguma coisa, mas não houve tempo... fui retirada bruscamente daquela imersão por um barulhento automóvel tocando um “arrocha” que me deixou contrariada; porém, ao passar pelo infrator o ouvi dizer  a um companheiro, levando a mão ao peito
 _ Essa música vai direto ao coração, brother...

segunda-feira, janeiro 21, 2013

Uma sinfonia em seus mistérios; poema impressionista nº 2 (Guacira Maciel)

Hoje, o mar não tinha sargaços, nem ondas, nem aguardava o repouso da lua em seus insondáveis limites, no entanto, não menos belo nessa serenidade sem qualquer performance especial; era parte intrínseca do cenário da natureza em seus mistérios. Esse estar calmo, naquele momento, assemelhava-se a uma cama cujo lençol em azul profundo fora estendido por mãos tão hábeis, que não apresentava uma ruga sequer...ao longe os surfistas aguardavam pacientemente que no sono ele resolvesse revirar-se em seu leito causando algum movimento que pudessem aproveitar para deslizar em suas coloridas e parafinadas pranchas. O céu também resolvera apresentar a sua verdadeira face, límpida, em azul claríssimo, matizado pela luminosidade ainda fria do sol. Este, entretanto, oferecia nessa sinfonia, um espetáculo à parte, e aproveitando que as cortinas do palco permaneceram abertas, dançava sobre a superfície azul do leito marinho....na plateia estávamos eu e o sonolento polvo, cuja pequena cabeça lateral, como uma corruptela da Medusa, levantou-se também para presenciar o espetáculo enquanto “quentava sol”. A esteira luminosa deixada por aquela grandeza difusa, estendia-se profusamente até nossos pés, num um generoso convite do astro maior da companhia, a ocuparmos o camarote para assistir aquele show tão breve e indescritível à destreza de qualquer poeta, das tintas ou das letras... Seduzida por aquela magia, corri silenciosamente para não incomodar meu companheiro que repousava preguiçosamente de olhos fechados, entrei e mergulhei naquela esteira impermanente de pequenas gotas de luz...

sexta-feira, janeiro 11, 2013

A vírgula...(Guacira Maciel)

Uma coisa tão pequenina que poderia ser tão insignificante e não é. Eu a substituiria por reticências na maioria dos casos e elas me satisfariam... aliás sempre tive um caso de amor com as reticências porque elas permitem que o pensamento divague e percorra caminhos outros que não apenas os do autor do texto... mas a alguns não parece ser assim e olha que eu tento usá-la...razão pela qual se tornou quase um pesadelo em minha escrita: uma vírgula?! aliás também em minha vida eu diria... porque estou cada vez mais mobilizada a escrever livremente e ela está sempre no meio do meu caminho
 da minha frase
 do meu texto
 do meu pensamento
como aquela pedra... não a fundamental mas aquele empecilho a que meu pensamento corra sem amarras sobre o papel e minhas emoções definam onde serão necessárias as pausas sem que a dramaticidade do sentimento seja afetada por decisão de regras. Preciso convencer os puristas da Língua Portuguesa de que a vírgula para mim é um recurso puramente estético semântico e até semiótico e se não direciono seu uso com precisão  a cada dia posso fazer pausas diferentes dependendo do meu estado de espírito e emoção e não como um impositivo gramatical. Eu não sei gramática porque nunca gostei de regras. As minhas pausas sou eu quem precisa decidir porque se atendo às regras que vejo como puro detalhe de forma linear  perco a dramaticidade do que preciso dizer
 perco o rítmo
 perco o rebolado... é horrível perder o rebolado num texto literário porque também perco o rumo e o endereço do portal criativo.
Dizem que a vírgula muda o sentido de uma frase e eu concordo! por isso resisto! concordo absolutamente porque na oralidade a ênfase é dada pela entonação da voz de acordo com a emoção de quem lê... pelas pausas que impostas pela dramaticidade e não necessariamente por  uma vírgula como querem seja feito no texto escrito onde elas lhe dizem pare aqui faça cara de paisagem respire e recomece... tirando o ritimo e a harmonia do que preciso dizer. A escrita literária é uma sinfonia orquestrada por todos os sentidos e se sou eu quem decide o que quero dizer isso precisa ser refletido através da liberação das emoções e do ritmo mesmo porque a liberdade de interpretação do leitor sempre terá a ultima palavra de acordo com sua compreensão e suas emoções... então uma vírgula não fará tanta diferença porque o leitor não irá mesmo ouvir-me nem adivinhar que a minha pausa seria dada ali... ou mais adiante...Mas também tenho   outras resistências... não acho pertinente usar maiúscula depois de uma exclamação ou interrogação se pretendo por exemplo continuar a expor o assunto na mesma perspectiva.
É... as emoções de uma execução instrumental  não devem ser maculadas cerceadas e reguladas por simples detalhes impositivos e a literatura é o instrumento com que escrevo a minha sinfonia pessoal...os sentimentos devem percorrer os caminhos inimagináveis sem os limites da pausas regradas que a vírgula impõe...elas são quase imperativas e eu completamente impenitente...já que sou tão imperfeita...

 

sábado, janeiro 05, 2013

Poema impressionista (Guacira Maciel)


Hoje, não fui orientada pelo olfato; não senti o cheiro dos sargaços da minha infância durante a minha caminhada à beira do mar da madrugada. Sim, o mar da madrugada, porque durante o resto do dia, embora de estonteante beleza, suas nuances não têm o tom aveludado causado pelo momento preambular à luz do dia...Hoje, fui quase abduzida por outro dos sentidos, embora não menos forte que o primeiro, a visão.
 Olhar o mar sempre me impressiona e me deixa em quase estado de epifania; seu aspecto nesta madrugada, enquanto o sol, preguiçosamente e ainda embriagado pelo sono ocidental, aguardava generosamente o repouso da lua já quase totalmente cheia e pesada como um ventre grávido, que caminhava preguiçosa a pequenos passos, sob o olhar complacente de nós três: o sol, eu e o imenso polvo repousado languidamente sobre as areias de Piatã.
Nesse interregno, minha atenção foi despertada pela forte impressão de maciez daquele lençol de cetim azul profundo que aguardava o repouso lunar. Pequenas ondulações aveludadas finalizam-se em fragmentos de renda branquíssima e quase tão delgadas quanto os vestígios  de luz das pegadas daquela deusa Godiva. Pareceu-me que mãos inábeis tentavam estendê-lo sobre uma cama etérea. Acima da maciez do leito líquido, um gazebo de nuvens protegia aquela caminhada permitindo que apenas um diluído reflexo de luz solar escapasse por um rasgão da sua fragilidade. Enfim, deitou-se, sagrada, a lua e abriu-se a densa nuvem permitindo que a luz dos primeiros raios desdobrados pelo reflexo na superfície  líquida  me arrancassem da magia daquele torpor...

terça-feira, janeiro 01, 2013

Estética da Literatura...(Guacira Maciel)

A um primeiro olhar os meus textos literários poderiam ser considerados uma espécie de transgressão, mas não é assim...o meu interesse em relação à Literatura é tentar entender (e desvendar) uma compreensão muito pessoal, intima mesmo, da escrita como arte e em sendo assim, não posso submetê-la a cânones, sejam quais forem eles, mesmo que acadêmicos, da língua materna, e muito menos de uma reforma ortográfica com a qual eu não tive nenhum envolvimento. Um texto literário, como criação é tão plástico quanto uma pintura, um desenho e dessa forma, como estes, não pode ser submetida a regras quanto ao que o seu autor deve falar por se tratar de percepção, de sentimento, que é muito subjetivo. Quando deixo escorregar o pincel sobre a tela, embora tenha uma ideia inicial do que penso pintar, não tenho total controle sobre o resultado final...muitas vezes o pincel é arrebatado e o trabalho escapa à minha determinação. Assim é o ato de criar escrevendo; a Literatura, diferentemente de um texto acadêmico, é simbolista, metafórica, carregada de subjetividade, de representações... Faço literatura, escrevo, para me expressar, para me fazer representar em meu tempo humano, para delete pessoal,  e de quem me lê, sem obrigação de legitimar a gramática (as vírgulas então...), até porque posso ser lida por uma diversidade tão grande de pessoas, com histórias pessoais também tão diversas que deixo de ter controle sobre o que escrevi. O meu trabalho pode ser lido (espero...) por qualquer tipo de público, inclusive aquele caracterizado por alguns como iletrado, que poderá interpretá-lo (estão liberados...) segundo sua condição ou necessidade, ou entendimento dele e de mundo, uma vez que uma obra depois de publicada, depois de entregue ao público, não pertence mais ao seu autor  no sentido do domínio interpretativo e terá tantos co-autores quantos o possam ler...
Além dessa estética do texto escrito, no sentido mais profundo, eu também preciso expor a estética da minha percepção daquilo sobre o que escrevo. A minha literatura em poesia ou prosa é muito impressionista e compõe a minha fantasia, aliada ao que percebo da vida, das relações, das coisas, da paisagem, das pessoas que, às vezes, apenas passam por mim ou daquelas que cruzam o meu caminho e me afetam por instantes que poderão jamais se repetir...e tudo isso tem uma forte dimensão de "nonsense". Sendo impressionista o meu texto é mesmo imperfeito, como eu, pois minhas metáforas e meu ritmo e pausas vão evidenciar o meu sentimento naquele exato momento, a dramaticidade que quero demonstrar, aliados à atmosfera externa e minha atmosfera intima, na tentativa de 'imprimir' ou capturar aquele fragmento de tempo através da escrita...