Da mais alta janela da minha casa, com um lenço branco, digo adeus aos meus versos que partem para a humanidade. E não estou alegre nem triste; este é o destino dos versos [...]. Quem sabe quem os lerá? Quem sabe a que mãos irão? Fernando Pessoa.

Obs. usando a autonomia que a licença poética e a própria cultura brasileira me permitem, não adoto linearmente essa segunda outorga (arbitrária) da língua portuguesa.


sábado, novembro 23, 2013

Mar de abrolhos...(Guacira Maciel)

Hoje apenas sangro
de orvalho em orvalho
todas as seivas que foram tuas
o sopro de um amor pueril
evade-se da alma impotente
pássaro cativo do ato mais escravo
o teu canto foi calado
deixaste a pradaria em plena cavalgada
o medo indolente incombatido
mata o mistério do gozo de viver
se ainda me deixasses tocar tuas feridas sem receios...
mas nem um olhar
para velar o funeral da ultima andorinha
Já houve festa e amor vestal
recebeste a  visita das auroras em minha cama
roseando as tuas faces
agora alquebradas em solidão azul
também silenciaram-se teus passos de chegada
e o som resfolegante e cristalino dos teus beijos
 um mar de abrolhos murmureja
em nossas doces madrugadas
o vigor da mão do timoneiro
afrouxa e perde-se o colar de pérolas cultivadas
dormes o sono lasso da escravidão
por saber-te só
a dor de te amar sem esperança
invade o meu peito e sangra-o
gota a gota...
 

terça-feira, novembro 05, 2013

Descobri o encanto de escrever para crianças...(Guacira Maciel)


O Brasil vem se preocupando em criar políticas de educação que visem o desenvolvimento do sentimento de pertencer a um grupo, abrindo espaço para que a  criança/jovem possa se identificar através de valores culturais e históricos similares entre si, num processo dialógico com a comunidade, e que possam criar, principalmente, perspectivas para desenvolver seu potencial emocional, fortalecer a auto estima positiva e a consequente amplitude do seu universo pessoal.
Entretanto, apesar de ter em seu contingente populacional 51% de brasileiros afrodescendentes, só há dez aos foi criada a Lei 10.639/2003 , que altera a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional - LDB 9394/96, e, posteriormente, a Lei 11.645/2008, que incluem no currículo da Educação Básica os conhecimentos da Cultura Africana e da Cultura Indígena.
A partir da sanção da Lei 10.639/2003, os conhecimentos da cultura africana e de afrodescendentes deveriam estar incluídos nos currículos, especificamente através das disciplinas História, Arte e Literatura, o mesmo acontecendo, a posteriori, com relação à inclusão dos conhecimentos da Cultura Indígena. No entanto, por falta de leis complementares, de experiência na formação específica de professores, já que nos currículos das Universidades esses conhecimentos eram postos como disciplinas optativas, essas inclusões no currículo da Educação Básica eram feitas sob a forma de conhecimentos transversais ou em projetos pontuais da Parte Diversificada do mesmo.
O conhecimento/reconhecimento das nossas matrizes culturais é um processo de valorização das origens dos sujeitos e de suas identidades pessoais, emocionais e sociais. A sacralização dos mitos e reafirmação dos preconceitos amplos, tanto na família, como na escola  - porque a própria sociedade cuida de sublimar e esquecer que são assuntos que devem ser discutidos e avaliados como experiências reais, vividas no cotidiano, e oportunidades de aprendizado e crescimento  - gera rejeições, porque os preconceitos, que sobrevivem incomodando, de forma subjacente, precisam ser reconhecidos e tratados com os devidos cuidados. A qualidade de vida passa, inquestionavelmente, pela aceitação intima e a acomodação interior, pois conhecer a própria história, reconhecer as próprias origens, reconstruir/ reafirmar a própria identidade, e conhecer os limites pessoais, como seres humanos, são condições fundamentais para a formação de pessoas mais pacíficas, mais felizes e mais generosas.
Só recentemente, inclusive por reação dos movimentos sociais, as questões acima referidas estão sendo devida e sistematicamente discutidas e vindo à tona, embora muito ainda seja necessário fazer. O conhecimento/reconhecimento das nossas matrizes culturais é parte de um processo de valorização das origens dos sujeitos e precisam ser devidamente cuidadas nas escolas públicas, principalmente porque esses espaços, geralmente, são as únicas oportunidades para discussões em alguns contextos de vida.
A Literatura infanto juvenil tem ação importante como coadjuvante no processo de reconhecimento, aceitação e fortalecimento das identidades, que deve ser iniciado nessa importante fase da vida, porque o faz de forma lúdica, já que a fragilidade infantil é fortemente agredida pelos preconceitos, e a Literatura trabalha suave e sutilmente essas dores, encaminhando para a construção da auto estima positiva e, quem sabe, a cura. Os preconceitos precisam sair do limbo onde são gestados e sobrevivem, incomodando, de forma silenciosa e subjacente, para que sejam  reconhecidos e tratados com os devidos cuidados. Como Arte, ela faz esse papel de conciliação entre os dois universos, porque evidencia as questões mais intimas guardadas como forma de proteção. Nessa perspectiva, ela também enriquece, amplia e aprofunda  o processo cognitivo infantil, porque estimula a criatividade, que é um processo tão subjetivo quanto a própria cognição.
O meu atual trabalho, de dedicação quase exclusiva, trata dessas questões e está possibilitando a mim mesma uma grande descoberta; estou cutucando a minha própria "caixa de brinquedos"...quando a gente é criança isso é tão natural, que nem dá para perceber esse encanto, mas na fase adulta ele é quase sobrenatural...rsrs...porque a gente tem reencontros com nossos fantasmas lúdicos...

 




       

quinta-feira, outubro 17, 2013

Cavalo alado (Guacira Maciel)

 Contemplei silenciosa
a espuma debruando as ondas
 que chegavam à praia
como crinas de cavalo
açoitando as areias
o vulto que poderia ser o teu
arrastava lentamente o meu olhar
para a tua ausência
o cenário era pacífico
apenas a força do vento eriçava
a vegetação costeira
 em pequenas ondulações
 e por alguns segundos
nos encontrei arfantes
mas repousei pois não fizeste
um movimento sequer
meu corpo encostado ao teu
adormeceu num sono de desilusão
regressaste então
resfolegando alado sob o sol
e cavalgaste vigoroso
exalando gozo
por saber-se amado
meu corpo perfumou-se
ao teu toque
e fechou-se o ciclo do dia
imaginado no silêncio do horizonte
para outro anoitecer...

terça-feira, outubro 08, 2013

A minha música...(Guacira Maciel)

Gosto do brilho nos olhos, da translucidez e da inquietude de pupilas que buscam e que me dão respostas mudas, sem necessitar palavras...não preciso de sorrisos rasos, mas de olhos rasos d'água...não preciso de abraços lassos e de frouxos apertos de mão...prefiro um sorriso ambíguo, que pode conter o inesperado, porque abomino o previsível...prefiro a crisálida à borboleta e o botão à rosa... 
 Quero a fantasia, o sonho, o impalpável e um simples pedido de desculpa por uma pisada de bola. Não preciso de respostas certinhas e inquestionáveis. Gosto de pessoas distraídas, de pessoas leves que riam comigo, de mim e de si mesmas risos inesperados que explodem sem razão e inexplicáveis, mas abomino o choro piedoso. 
Quero perdão pelas minhas bobagens, minhas ausências e compreensão pelos meus muitos defeitos sem maldade, minhas fragilidades e meus medos, ainda que infundados... Preciso, principalmente, de pessoas que tenham "os olhos na caixa de brinquedos"; pessoas que não levem tudo a sério e mudem de opinião se for preciso, mas tão sérias que saibam refletir sem se tornarem chatas. Quero pessoas loucas, poetas, sensíveis, inquietas...pessoas que tenham a sua música pessoal, mas considerem dançar  o compasso da minha quando for preciso...

quarta-feira, agosto 28, 2013

Sou monofásica (Guacira Maciel)



 Não...não é nada disso...eu não tenho limites como ser humano; quanto aos limites físicos, quem não os tem? meu corpo e minha mente me dão respostas fantásticas! para mim o que vale mesmo é estar viva. Muitos morrem jovens e outros vivem muito, como se lhes estivesse sendo mostrado algo maior, mas jogam a vida fora com coisas inúteis; eu nunca tive fase do ter...nunca me preocupei com coisas dessa ordem, porque não tive (e ainda bem...) uma criação que posta sobre a vida  um olhar materialista, limitado e imediatista... Nesse sentido sou monofásica, mas não monocromática; a única fase que conheço é a do construir, sempre. Sempre me envolvi com os sentimentos e valorizei o amor; fui criada por um pai maravilhoso e de alma pura, um artista; tive uma criação suave e amorosa, e assimilei tudo isso, que, infelizmente, só explodiu depois que ele se foi; na minha vida doméstica não houve  violência.
Mas o meu desabafo é motivado pelo cansaço, pelo cansaço de perceber que até hoje, quando um único país, cheio de pretensão e arrogância se acha com direito de, com um simples toque, ameaçar o mundo com um final tão prosaico ou tão estúpido, ainda existem pessoas que só pensam em guardar, em amealhar coisas inúteis para o “futuro”... mas que futuro? e se ele não chegar? o que terão feito por si mesmas, pelo que são, de verdade?
Eu estou falando desse cansaço de ver a inutilidade de tanto desamor, do cansaço meio sádico de chegar exausta e feliz depois de um dia de trabalho árduo em que minha mente é sugada até a ultima gota de seiva, realimentada por um curso fértil de conhecimento construído com determinação, e de ter enfrentado um engarrafamento desumano no trânsito desta cidade sem jeito, e ainda ver, perplexa, meu carro explodir em jatos de água e uma cortina de vapor quente... e eu não saber o que fazer...nesse sentido sou inútil...
Eu não vivo do discurso para sustentar uma tese fatalista, fugaz como aquele vapor...sou forte na minha fragilidade; resisto e recomeço! tenho muita gana de viver e ter experiências que me façam crescer e, sempre que possível, partilhar com os outros... eu quero amar; eu não desisto; eu amo estar viva.  Ontem passou...hoje renasci junto com o sol.
Não pretendo desistir de mim, principalmente. Não vou fingir que está tudo bem, não vou ignorar as sensações mais humanas e ao mesmo tempo mais sublimes que me são permitidas sentir, e não vou permitir que me tirem essa vontade e esse encanto pela vida...ninguém, nem eu mesma, tem esse direito, graças à consciência dos direitos que reconheço em mim como mulher e ser humano... eu não tenho medo da vida nem das pessoas...o que me faz humana e me diferencia do monstro (porque os bichos são maravilhosos e tão ou mais conscientes que muitos de nós), é essa consciência da importância de ser parte de algo maior e sempre novo, e de partilhar essa percepção...
Me desculpem, não quero entender o egoísmo - e o medo - que alguns têm em dividir o que lhes foi dado de melhor, a sua alma e um coração que, muitas vezes, pula louco pra se mostrar e se derrete no peito, mas é ignorado e submetido...isso não é viver...

domingo, agosto 04, 2013

Das palavras...(Guacira Maciel)

Gosto das palavras no leito do caos onde são geradas
não quero explicar os seus sentidos
quero senti-las nos meus...

terça-feira, julho 23, 2013

O que restaria...(Guacira Maciel)

 O silêncio é o mesmo; triste... esperando, vejo transformar-se o meu rosto, mas sempre te vais e sempre da mesma forma, te vais... a luz resplandecente há pouco, começa a diluir-se. Percebo  aproximar-se o limbo que gestará a próxima chegada, e milagrosamente permaneço parada esperando-a; a milionésima talvez e ela em nada será diferente da primeira nem da décima, que já nem lembro quando foi...e de novo te irás e levarás contigo a luminosidade que assoma à porta na tua chegada.
Os atrasos eram piores que a desesperança da costumeira ausência, porque eu esperava... Mas as partidas eram sempre iguais; nada mudava nem de vez em quando. Eu já sabia o que viria depois e tinha medo, mas esperava... medo, não pela partida, que eu já conhecia; sentia mais medo do que restaria de mim do que de mais uma partida...o que restaria...isso, sim, eu não sabia como seria da próxima vez....e era a única coisa que poderia mudar...

sexta-feira, junho 07, 2013

A festa dos teus olhos...(Guacira Maciel)



Me leva à festa
que o mar faz em teus olhos
pega a minha mão
e me ensina a dançar
como os raios dourados do sol
dançam na tua iris azul
não quero mais
sentir essa saudade devagar
não quero mais o silêncio da lembrança
que tanto faz doer a tua ausência
me leva à festa dos teus olhos
segura a minha mão
me ensina a dançar
o mistério
da eternidade da nossa melodia
preenche com teu abraço
o vazio da tua saída
mais uma vez
agasalha-te em minha pele
e ressona sem cuidado
esquecerei então o amanhecer
incerto de ti e de mim mesma
mas terei ouvido já
palavras doces
promessas vãs
ainda quero ouvir teu riso
quero dançar no mar
me leva pela mão
à festa azul do teu olhar...

quinta-feira, maio 23, 2013

Sobre os telhados (Guacira Maciel)

Sobre as velhas telhas
pedaços aconchegados de história
pairo sonâmbula
na cabeça a música barroca
se debate eclusa
a noite cai silenciosa e alaranjada
mais um pouco o brilho da lua prateia
a argamassa de musgos
e reconstroi o espectro
do teu semblante
mas é só uma lembrança difusa
és mestre em ilusões
o teu fantasma lunar assombra-me
como a gestar o próprio corpo em mim
perversamente
respiro forte e te expulso
da minha presença
és só uma lembrança
reafirmo
colada à minha alma
qual canto canta o imperfeito (?)
ah...dá-me a luz do dia
apaga do meu ser
esse olhar sem sonhos
e ainda bem que amanheço
com a fecunda lucidez
e os fantasmas
são só cansadas telhas...



sexta-feira, maio 17, 2013

Extrema (Guacira Maciel)

Que me tenhas extrema
e seja eu inteira
mas que me queiras utópica
e percebas sem fronteiras o sublime
que morre em mim se te aproximas
e me pertença e a ti
a mesma humanidade
que possa deixar inteira lá a minha alma
se te apossas do meu eu
e que te ergas sobre o corpo
cuja pele em cetim te afaga
ah... que te esvaias
e possa eu arder e apaziguar o teu cansaço
e ser tua manhã
 aurora
a tua harpa e teu compasso
se em minha carne te alimentas
e te banhas no sangue
que aflora rubro em minhas faces
depois repouses
na leveza de espuma e te adormeça
o aconchego frágil em meu regaço

quinta-feira, maio 09, 2013

Submerso...(Guacira Maciel)



 Meu livro “Cruz do meu Rosário; um amor na Chapada Diamantina” poderia - ainda não tenho certeza - ser compreendido como um desdobramento do meu eu singular; uma representação de algo que chamaria de meu universo inconsciente, que se manteve submerso, preservado e aparentemente aceito como apenas remotas lembranças de infância, mas que vem interferindo na minha vida de forma subliminar desde que tive uma compreensão mais profunda, através da minha experiência pessoal, com um amor que considero não ser possível ser experimentado de novo na mesma perspectiva, talvez até por ter começado na minha quase infância. Creio que o amor amplo e profundo só se sente uma vez a cada encarnação; uma experiência dessas, em que a alma é afetada, como se tivesse sido capturada de forma tão íntima, tão contundente, mesmo que traga sofrimentos que pensamos ser insuportáveis a ponto de ser paradoxal pensar na morte, não poderia ser vivido muitas vezes, como uma experiência corriqueira. O amor desses dois (os personagens do livro) será representado e apresentado ao meu próprio consciente e a vocês, através da linguagem que considero a mais nobre: a  literária.
É incrível como venho percebendo aflorar ao pensamento coisas que aparentemente desconhecia. Considero esse livro um verdadeiro exercício de labor (entender como elaboração, (re)construção), pois conta, registra, imprime, deixando marcas dessa história de amor que esteve presente na minha vida, desde a infância. Os personagens principais são meus pais... ah, nem me apresentei! eu sou Sherazade (contemporânea, claro!).
Carlos e Marta, o centro das minhas atenções nessa história, já faleceram. Ela foi primeiro, vítima de uma enfermidade cruel e avassaladora; ele se foi poucos anos mais tarde, vitima de um mal que também causa muito sofrimentos a quem o adquire, mas, na minha compreensão, o motivo fundamental ou o que desencadeou o seu processo de desistência da vida foi a tristeza da ausência de Marta. Não vê-la mais, não ouvirem música juntos logo de manhãzinha tomando um “menor”, e até não ouvi-la “falar como uma vitrola” era-lhe insuportável. Ele começou a sentir-se fora do contexto; o mundo que a partir daquela ausência teria que enfrentar sozinho, sem sua companheira e sua mais profunda e antiga referência nele, era muito ruim; esse novo mundo deixava-o muito solto; cortaram-se as raízes que o fixavam à vida; agora estava ao sabor das correntezas definidas por ventos imprecisos, não identificados. A Chapada Diamantina, sua terra tão amada e tão peculiar e especial, a “terra onde filho chora e mãe não ouve” e para onde levara o seu amor, era só uma lembrança muito tênue do passado...nunca mais voltou lá... ela existira?
Pois é... ainda não sei se vou, simplesmente, reavivar minhas próprias lembranças contando e deixando para meus netos uma história bonita, pois nem participei de grande parte dela - embora Carlos tenha tratado de preservá-la contando-a aos filhos, que as consideravam como histórias de um imaginário fantástico - ou se vou viver um personagem, assumindo o alterego de Marta, como é tão comum na literatura, embora não seja provável que o faça; meu desejo é que Marta exponha um desdobramento de si mesma ou algo parecido com um heterônimo, com personalidade diferente, sem que isso possa ser considerado uma patologia; Marta era muito saudável, muito equilibrada.
Esse eu subliminar, que no livro chamo de Persona, como um nome próprio, foi imaginada desde o princípio como a persona alternativa (alterego) de Marta,  que sentiria, ocasionalmente, necessidade de se reconstruir, voltando sempre à dimensão que a divide, e fraciona sua personalidade (consciente), se entendemos que o alterego sobrevive numa zona mais profunda do ser.
Entretanto, seria Persona, algo ainda desconhecido, confiável à Marta? ela, por desconhecimento àquela época, início do século XX, das questões que só muito depois a Ciência desvendou, confia nele, entretanto, sem questionar, e nem teria outra alternativa, já que não encontraria mesmo, as explicações que precisaria para compreender o que estava acontecendo consigo e com sua vida...
Pode ser que eu (autora) assuma ser esse alterego ( o Persona), por puro cuidado em preservar a memória e a vida de Marta, já que se fala até que esses desdobramentos  seriam patologias, como se referem alguns à fantástica capacidade de Fernando Pessoa de criar seus vários hoterônimos...alguns dos quais, disputam o lugar de seu alterego oficial...
Depois pensei que o alterego de Marta poderia emergir do seu próprio ID, cujos impulsos estariam vindo à tona após um longo período em que, depois de tantos sofrimentos e perdas, ainda teve que viver tão reprimida como agregada na casa dos tios milionários, arrogantes e rancorosos, incluindo nessa volta a sua própria sexualidade, já que era-lhe vetado qualquer contato com possíveis namorados, razão pela qual aceitou a orientação de Persona para que fugisse e escolhesse ser feliz, já que se apaixonara por Carlos, e já que nosso ID é chamado “princípio do prazer”...

Vamos para frente, verei até quando aguentarei sem assumir o alterego da minha protagonista...

domingo, abril 28, 2013

João de Deus de Castro Lobo (Guacira Maciel)

Estando a ouvir um programa musical na Cultura FM, como faço aos sábados a partir das sete horas, quando tudo ainda é silêncio, tive uma grata surpresa, que me deixou muito feliz. A cada programa uma personalidade da nossa cultura musical ( erudita) seleciona e conduz as apresentações ao público, e neste sábado foi a vez de Paulo Castagna, um musicólogo e professor que pesquisa a vida e a obra de João de Deus de Castro Lobo, àquela altura, um total desconhecido para mim. Foi uma surpresa atrás da outra, apesar de já vir estudando a Cultura de África há algum tempo e ter sido a primeira pessoa a trabalhar com a implantação da Lei 10.639/2003, como professora do Estado, no currículo da rede pública estadual da Bahia (Educação Básica), e ser sua representante junto à Secretaria Estadual de Direitos Humanos na primeira proposta de inclusão dessa e de outras Culturas na Educação Básica, neste caso,  na perspectiva das Políticas Públicas.
Em 16 de março de 1794 nascia, em Minas Gerais, um menino negro, que viria a ser um grande expoente da música sacra no Brasil. Aos 17 anos apresentou-se à frente de dezesseis músicos na temporada da Casa da Ópera de Vila Rica, passando a ser membro da Irmandade de Santa Cecília, que reuniu os profissionais atuantes na Capitania de Minas Gerais. Àquela época, só havia música sacra na Bahia, Minas Gerais e Rio de Janeiro, e apenas feita por descendentes de africanos; era uma música com feições europeias e não eminentemente africana, o que "só acontecia em festas de expressão popular", quando as partituras eram (bem) vendidas em lojas de variedades.
A partir de 1817 o compositor começa a atuar como organista da Ordem 3ª de Nossa Senhora do Carmo, a mais influente de todas as irmandades de Vila Rica, apesar de as Ordens 3ª do Carmo só aceitarem homens brancos  A atuação de João de Deus junto ao Carmo durou até 1823. Nesse mesmo período o compositor concluiu seus estudos de latim; em 1819 e no ano seguinte foi admitido no Seminário de Mariana. João de Deus rompeu com paradigmas e preconceitos, ordenando-se padre (primeiro padre negro do Brasil) em 1822. Ainda nesse ano, a Ordem 3° do Carmo paga ao compositor a importância de $22,100 pela composição de um “Te Deum” para Sua Alteza Real, D. Pedro I, durante sua histórica visita à Vila Rica. No ano seguinte, atua como organista na igreja do Carmo, antes de transferir-se definitivamente para Mariana onde, em 1825, o encontramos já ligado à Ordem 3ª de São Francisco da Penitência de Mariana. No período em que viveu em Mariana, certamente atuou também como mestre-de-capela, pois, embora não tenhamos o documento de sua nomeação, essa atividade e título eram exclusivas das sedes de bispado, de acordo com a tradição luso-brasileira.
Em 1831, o compositor começa a trabalhar na sua última obra, os “Responsórios Fúnebres”, que ficaram incompletos devido ao seu falecimento precoce em 27 de janeiro de 1832. O Padre João de Deus foi um homem que rompeu com muitos paradigmas também na vida, tendo sido acusado de concubinato; morreu de sífilis aos 38 anos, “provavelmente acompanhada de tuberculose”, razão pela qual nada da sua obra tenha sido preservada, já que foi toda queimada para evitar o contágio. Quem preservou o acervo dele (e de outros compositores) foi a população mineira. Até agora Paulo Castagna encontrou 750 manuscritos em 25 acervos, restando ainda muito a ser pesquisado.

terça-feira, abril 23, 2013

Dieta? EU??



     Mas a principal recomendação é esta: FUNDAMENTAL AMAR-SE!


 _ Aconteceu!...sempre fui magérrima! tão magra, que quando era criança/adolescente, minha mãe não permitia que vestisse calças compridas, porque achava que eu ficava com aspecto de doente...imagine isso hoje...
_ Mas você não está gorda! qual é a sua altura?
_ Tenho 1,63cm e tenho consciência de que estou com um excesso de 9kg, minha querida...
_ Ah!... você tira isso de letra...come pouco...
_ Nada! não é tão fácil para alguem que nunca, nunca ao menos pensou em deixar de satisfazer todos os desejos gastronômicos. Adorava, e devorava, embora em pouca quantidade, porque sempre comi pouco, docinhos, tortas, frituras, refri, tuuudo o que passava à minha frente, quase de meia em meia hora! estava sempre faminta! rsrs
_ Mas também sempre foi muito ativa e devia metabolizar todos os venenos com rapidez tão grande que nem chegavam a fazer mal.

    Estava lembrando dessa conversa, tida com uma amiga, não faz muito tempo...aliás, há três meses, para ser mais precisa. O que aconteceu, refleti, é que estava com a auto estima tão baixa, tão baixa!...não sentia prazer em nada; nada era interessante em minha vida nesses ultimos anos vividos com um homem que me sempre me pareceu tão doce (hoje eu sei que só enxergava nele o que eu queria, o que me dava a ilusão de estar feliz...); mas, ultimos anos? não! foram quase 11 anos...foi um processo tão lento, embora doloroso,  que eu nem percebia com clareza o quanto estava me deixando destruir interiormente, estava destruindo minha alma, minha sensibilidade...você e seu egoismo, salvo os primeiros cinco ou seis anos, foram devastadores, conseguiram desequilibrar meu tônus emocional de forma inimaginável à quem me conheceu antes de você entrar em minha vida, de forma tão compulsária...mas nada nos acontece sem que permitamos que assim o seja. Fui eu quem permitiu que fizesse isso comigo, mas eu sempre acreditei que aquele amor adolescente havia retornado, como nos romances, para ficar para sempre... sua voz me aquecia como aquela lareira acesa em noites frias de inverno, cuja chama quentinha agasalhava até a alma...eu tinha certeza que seria para sempre, porque não existem acasos; você não voltara sem razão nenhuma após tantos anos...jamais imaginei que me faria sofrer, e tão profundamente. Jamais imaginei, na minha ingenuidade, que poderia me causar algum mal...

_ Mas, amiga, se você chegar a ler este post, saiba que fiz a melhor de todas as dietas...estou livre! o amor não pode fazer sofrer; não é uma fatalidade em nossa vida; ele não pode nos fazer adoecer...inesperadamente tive um encontro comigo mesma desde esses três meses que mencionei; foi uma surpresa maravilhosa; olhei para os lados e ele já não estava lá, ao meu lado, como uma sombra ou uma assombração (risos). Estou bem, emagreci  5kg facilmente, sem sofrimentos; os 4 ou 5 kg restantes, vai ser moleza, porque não sofro por ter me afastado do que me fez tanto mal, já que o que me fez isso não foi o que eu comia, mas o que me fazia comer... agora tomei de volta o timão; .faço exercícios diários e, embora continue comendo pouco, abandonei tudo o que não me dava nada de bom. Passei a comer frutas deliciosas cujo néctar escorre da minha boca macia e brandamente; verduras e legumes muito bem temperados com com gengibre e alho fatiados no azeite, manjericão...um manjar que vem diretamente da mãe Natureza, e uma boa mãe não maltrata. Mas o melhor de tudo, um bálsamo entrou delicadamente em minha vida e ela se renova, se refaz, como se eu estivesse sendo gestada outra vez para um novo encontro...

Olhei o mar colorido naquele tom laranja compulsório do ocaso,  que gestava em suas águas férteis e mornas uma nova noite, como ante sala de um outro amanhecer...

PS. Amiga, se chegar a ler isto que escrevi, retorne postando um comentário e saberei que lembrou daquela nossa ultima conversa.  Beijo.

sábado, abril 13, 2013

A mulher na Literatura Brasileira a partir do século XIX; fragmento de proposta de pesquisa... (Guacira Maciel)

A relação entre Literatura e Memória remonta aos primórdios da história humana, quando a cultura e a educação gregas se apoiavam na declamação para preservar e difundir as práticas. Nesse período existia apenas a poiesis, que desempenhava o fundamental papel de contar a história; ainda não se falava em literatura. Dessa forma, o que havia era um encontro que enfatizava estreitas relações entre memória (lembrar) e literatura (narrar).
As interferências de âmbito social na literatura geralmente eram relegadas a um segundo plano, o que terminava por empalidecer a importância dos aspectos sociais das experiências humanas em determinados contextos. Assim, ainda que alguns elementos de uma obra literária sobrevivessem numa zona de sombra, terminavam por criar espaços espontâneos de interação entre o autor, a subjetividade e o leitor. Os textos literários eram, a priori, analisados sob pontos de vista artísticos, criando um vácuo sociohistórico na literatura,  e mesmo que a experiência social e os hábitos dos sujeitos estivessem presentes de forma subjacente em todas as manifestações no contexto da obra, assim como no contexto da vida dos autores e dos leitores, essas análises não eram feitas.
Por esta razão, foi (e continua sendo) interessante desvendar esses caminhos de participação da mulher no universo literário, já que sua atuação ali, embora riquíssima, era mais ignorada, quanto mais atuante ela se tornava, chegando  à proposital invisibilidade em determinada fase; e nesse entre espaço onde tinha uma sub vida, nesse “entre lugar”,  ela gestou e deu crias, já que, em sendo invisível, ele não tinha fronteiras limitadas... aí ela se fortaleceu, num processo de retroalimentação, até tornar-se um grupo de mulheres escritoras fortes, conscientes e que tinham muito o que dizer. Conhecer sua trajetória desde os primórdios de sua atuação e o papel desempenhado pela imprensa feminina brasileira do século XIX, como suporte à mudança do paradigma que aprisionava a mulher como propriedade masculina, assim como o que veio a mudar nessa relação e na sua atuação na sociedade como um todo, é fascinante...
Alguns autores vêm discutindo essa questão, interessados na escritura jornalística feita por mulheres, indagando-se sobre o que pensavam, sentiam e escreviam no período em questão, como um marco para as mudanças decisivas que terminaram por atingir as bases da sociedade no “rastro das grandes mutações político-econômico-sociais que se aceleraram no século XX”, assim como das profundas modificações ocorridas nas relações homem-mulher e, consequentemente, na família e na sociedade. Os documentos que registram essas experiências do passado vêm sendo redescobertos ou reanalisados sob outras perspectivas, podendo-se considerar que o fenômeno reabre as discussões sobre esta questão em específico e sobre linguagens outras, que ainda hoje aquecem as opiniões sobre o estar da mulher em sociedade.
Numa entrevista à Revista “ISTO É”, Mary del Priore, uma importante pesquisadora - brasileira,  contemporânea - do assunto, diz que o “feminismo no Brasil não funcionou porque as mulheres continuam a pensar de forma arcaica. Há ainda aquelas que cultivam o mito da virilidade, gostando de evidenciar a sua fragilidade”, numa profunda e inadimissível autodesvalorização. Segundo ela, as discussões em alguns países trouxeram como proposta para o século XXI uma nova ética para a mulher, fundamentada em valores absolutamente femininos, que divergem do pensamento de Simone de Beauvoir (anos 50), de que o objetivo das mulheres seria provar que eram iguais ao homem podendo assim, se beneficiarem dos mesmos direitos, os masculinos. Entretanto, a compreensão á a de que esses objetivos são “abstratos e vazios”, por não terem considerado as diferenças entre os gêneros para lutar contra a submissão. A mulher não tem que partir de valores masculinos para lutar contra isso, mas dos seus próprios valores, na busca de mudanças e novos paradigmas em que ela esteja em seu próprio lugar, antes de tudo, como sujeito de direito. O cerne dessa nova otica não é adotar os valores masculinos, mas refletir uma ética e uma lógica em que sejam identificados e respeitados os valores femininos, estando, entre outros: a “liberdade individual, controle do hedonismo e dos desejos, e contornar o vazio da pós-modernidade”. Percebendo-se que no século XXI a busca é pela felicidade e por identificar e definir identidades, tendo como pressupostos educação e consciência, ou seja, uma consciência muito mais profunda e ampla.

A autora Norma Telles, em sua obra, Rebeldes, escritoras abolicionistas, nos refere que na sociedade oitocentista a criação seria um dom exclusivamente masculino e que [para a mulher] o livro era a almofada e o bastidor, e mais, que é necessário rebeldia e desobediência aos códigos culturais vigentes. Há pouco tempo, numa novela que retratava o início da República no Brasil, vimos que uma mulher, mesmo sendo competente jornalista precisava usar um pseudônimo masculino para publicar num jornal seus artigos de excelente qualidade. Ainda da autora supracitada: o “ato de escrever implica numa revisão do processo de socialização, assim como das representações conscientes e em enfrentamentos do inconsciente, também ele invadido pela situação objetiva da dependência do homem, que condicionaram a formação do eu”. Sem dúvida, essa é uma questão que merece um debate mais aprofundado por se tratar de identidade, me refiro a uma dimensão muito além da condição de ser do gênero biológico ao qual pertence, falo do ser feminino na mulher contemporânea, que se aloja na sua mais íntima condição de sujeito  individual entendido sob nuances novas, e aquele que sobreviveu do período acima referido, tanto individual, quanto coletivo, implicitamente instalado e aceito naquela sociedade, e terminou por ser internalizado, vindo a compor o inconsciente coletivo, uma vez que a memória individual alimenta-se deste ultimo e que o ato de lembrar não é autônomo, estando enraizado no movimento interpessoal das instituições sociais. Essas ‘fronteiras’ e esses movimentos terminaram por denunciar abismos que foram corajosa e sub-repticiamente explorados, desmistificados no submerso universo feminino em qualquer instância, notadamente o da literatura, nosso foco aqui, mas que se desdobraram em muitas esquinas que apontaram infindáveis caminhos e formas de caminhar [...]

domingo, março 24, 2013

Eu, Sherazade; epílogo...(Guacira Maciel)



Na verdade, em não sendo um sultão, o nosso Shariman não tem poder de vida e de morte real, mas o tem de forma subjetiva, pois após aquele frustrado casamento em que se considerou traído – o que merece uma análise mais criteriosa – criou um delírio ao exigir da vida uma relação homem/mulher absolutamente perfeita. O seu não desejo de viver plenamente uma relação se constitui  a sua forma de morrer e de matar. E embora não morra fisicamente, ele mesmo, simbolicamente mata a mãe, aquele útero que ainda o aprisiona, e a ex-mulher,  que o trairam nas mulheres com quem se relaciona apenas no tempo presente; um presente crônico em que vive um amor fugaz, sem futuro (dimensão em que poderia vir a ser traído outra vez). Ou seja, estando sempre no presente, reconhecendo apenas essa dimensão de temporalidade restrita acredita vencer o futuro, anulando a possibilidade de sofrer outra vez a mesma dor.
            Entretanto, eu, Sherazade, como aquela outra, venci o meu sultão e venci o tempo. Eu o encantei e enquanto estivemos juntos um forte sentimento nos uniu no presente que vivemos e, embora ele não tenha tido coragem de viver o futuro, esse presente esteve lá...naquele futuro irrealizável, enquanto foi vivido. 
            Sei que até hoje não buscou nem o presente em mais ninguém, ou seja,  eu criei um tempo novo; eu venci aquele futuro onde costumavam morrer suas relações. Há poucos dias o ouvi dizer ao telefone: você é diferente; continuo apaixonado por sua sensibilidade; será sempre a mulher da minha vida, aquela que ainda me faz vibrar e traz ao meu coração a saudade de amanhecer abraçado a alguem...           
                                                                                                          


domingo, março 10, 2013

Os sete mares; poema impressionista nº 7 (Guacira Maciel)



De novo, na volta do trabalho, vinha dirigindo calmamente à beira do mar e pensando que me sentia um pouco como os grandes navegadores da história, pois vira os sete mares neste verão de 2013... talvez só eu tenha pensado nisso em um tempo em que não se tem tempo para coisas tão prosaicas. Pensei no grandioso espetáculo que quase se derrama sobre nós todos os dias em uma belíssima e sensual orla marítima sem ser sequer percebido. Espontaneamente, fiz uma analogia engraçada com um fato interessante que via todas as vezes que ia dançar com meu companheiro: tratava-se de um homem já bastante idoso que se apresentava, como num espetáculo, dançando sozinho uma coreografia caprichada, que ninguém percebia...nós achávamos aquilo interessante e nomeamos seu espetáculo como a ‘dança do acasalamento’. Esta é a sensação que tenho todas as vezes que olho para o mar na solidão da urbanidade desta Soterópolis, tentando seduzir a quem passa, sem receber sequer um olhar...mas eu vi o mar através de todos os meus aguçados sentidos: deitada na areia da praia da Pedra do Sal, silenciosa naquela manhã, divaguei e vaguei pelo azul acima de mim, coberta pelo aconchego morno daquela enorme cúpula, tendo à minha frente a linha de um horizonte que delineava a perfeita curvatura da terra, sem um único obstáculo que corrompesse aquela perfeição; senti o delicioso cheiro dos sargaços trazidos da minha infância; vi os pequenos diamantes e pérolas desprendidos das caudas das sereias piscando para mim nas areias de Madre de Deus; vi quando o sol, preguiçosamente e ainda embriagado pelo sono ocidental, aguardava generosamente o repouso da lua, já quase totalmente cheia e pesada como um ventre grávido; vi o imenso polvo ondulante repousado languidamente sobre as areias entre as praias de Piatã e Jaguaribe; percebi o mar em tons de cinza, dando a impressão de que sua concretude era afetada apenas por um leve drapeado que desafiava a moça do vestido vermelho; também me dei conta da fuga daquela sonoridade tão inerente, tão orgânica; compreendi que, além da observação visual, a presença daqueles sons suaves e naturais que deixavam impressas em minha sensibilidade imagens tão fortes, embora tão fugases, capturadas e expressas nos meus poemas impressionistas eram fundamentais às impressões oferecidas pela visão. Comecei então a entender que além da luz, os sons se encaixam e compõem a obra; e como sou influenciada por eles, e como eles potencializam as minhas impressões visuais, ainda que por um grito ao longe, trazido pelo vento ou simplesmente o som que a  brisa matinal provoca nos meus ouvidos...E, podem crer, eu vi, à minha frente, o sal na clara liquidez das suas águas azuis, aflorar em graciosos e delicados arabescos à sua pele cristalina...


sexta-feira, março 08, 2013

A nós, MULHERES... (Guacira Maciel)



Queridas, desejo que este dia de hoje, seja mais um de todos os que já vencemos e dos que ainda venceremos em todas as nossas lutas; desde a luta diária de acordar e fazer com que o dia tenha muuuito mais de 24 horas, pelo volume de coisas que conseguimos fazer, com qualidade e sensibilidade, até amar com todo o coração, esquecendo (se pudermos) as dores que passaram e com o coração cheio da esperança, que nunca abandona uma mulher, de dias melhores, de chuva suave para levar embora o cansaço, o desânimo, a saudade, as injustiças, o desamor, a violência, o desrespeito...brisa leve para bagunçar os nossos cabelos como um aviso do retorno da esperança, do ânimo novo, do amor e da possibilidade de amar, da luz, das bençãos, das coisas novas, ou nem tanto, mas com um olhar novo sobre aquelas das quais já tinhamos quase desistido... afinal, em qualquer parte do Universo, falando qualquer idioma, somos guerreiras, somos ousadas, somos frágeis e fortes: somos MULHERES!

Beijo a todas,

sábado, março 02, 2013

Intolerância; pecado capital contemporâneo ( Guacira Maciel)



Como professora e educadora, acredito  de fundamental importância rever, reavaliar e trazer à discussão com mais frequência questões que já estão consolidadas e sacralizadas como verdades no seio da sociedade. O mundo mudou radicalmente; a vida acontece sobre novos pilares, os comportamentos sob novos paradigmas, e apenas como um estágio peparatório para as perspectivas que ainda estão por vir.
Ao me propor a escrever sobre os Sete Pecados Capitais, definidos pelo Cristianismo num período que  em nada mais se parece com os tempo que estamos vivendo, sei que corro o risco de não ser compreendida. Ora, esses pecados foram definidos no papado de Gregório Magno, no final do século VI; portanto, lá se vão 15 séculos!...a vida e as formas de viver e conviver já nada guardam daquele período, inclusive, porque a Ciência avançou de forma tão profunda que até o ser humano e sua capacidade biológica sofreram mudanças e mutações. Hoje, sabe-se que o cérebro tem uma capacidade espantosa de regeneração e de reorganização, e isso faz parte do quadro evolutivo do homem para se adequar à sua condição de vida atual, o que afetou profundamente as relações e formas de o homem se relacionar, consigo, com o outro e com a vida.
Em sendo assim, também já não é possível avaliar questões e comportamentos tão antigos, com metodologias e visões do mundo contemporâneo. Embora novos pecados tenham sido acrescentados à lista, os antigos continuam utilizados como parâmetro  para julgamentos e considerações acerca da postura das pessoas que professam determinada fé. Tomando alguns deles como exemplo, eu citaria a “Luxúria”- apego e valorização dos prazeres carnais, sensualidade e sexualidade, pecado contra a saúde do corpo – ora, desde quando a prática do sexo faz mal à saúde do corpo - ou da alma - ? que eu saiba, é exatamente o contrário... há muito pouco tempo assisti a um programa sério de TV aberta, em que uma sexóloga – uma profissão provavelmente proscrita nessa visão – incentivava os casais, eu disse casais, a iniciaram os jogos amorosos do prazer sexual dentro dos carros, “para esquentar a relação”, e mais, ainda sugeria que esses carros deveriam ter vidros escuros...isso seria um pecado? Será que ainda se espera que o sexo seja estritamente feito com fins de procriação, num mundo que promete morrer de fome, em vista das explosões populacionais e precariedade das economias, por consequência da má distribuição de renda nos continentes, entre outras graves causas? se o sexo fosse um pecado, tenho certeza que a Criação encontraria outra forma de povoar o mundo...
Outro deles, esse já constante da nova lista definida em 2008: “uso de drogas”. O usuário de drogas é um ser humano doente; um ser humano que necessita cuidados especiais e ajuda, uma vez que já se sabe que muitas razões, aleatórias à vontade dessas pessoas, podem ser motivo desse vício, como violência doméstica, violação da intergridade intima ou psicológica, fome, etc. Uma pessoa dessas não é um pecador!
 Na mesma perspectiva, vem, “Violações bioéticas/controle de natalidade/aborto/contraceptivos que impedem a geração natural da vida”; realmente, esses pecados precisam de novas análises. Sabemos que a violência sexual praticada contra adolescentes pelos próprios pais geram filhos...sabemos que sexo sem segurança ou estupros geram filhos e doenças que matam; será que isso seria “geração natural da vida”? um ato de violência é uma forma natural de procriação?  
Mais um deles me causa perplexidade: “Experimentos moralmente dúbios com células tronco”; um avanço da medicina que salva milhares de vidas humanas por todo o mundo diariamente; que reintegra à sociedade pessoas que tinham uma sub vida, dando-lhes condição de se sentirem gente, de se sentirem vivos; de poderem trabalhar, amar,  de constituirem família... Quanto à dubiedade desses experimentos, seria muito mais uma questão de ética, restrita à classe médica e não às  igrejas.
Sinceramente, esse não é o Deus em nome de  quem se criou coisas assim... a isso eu chamaria Intolerância, um pecado amplamente desumanizador, porque atinge a vida em todas as suas manifestações! o Deus em quem acredito, possibilitou ao homem todos os avanços e condições de que fosse estabelecida uma condição de vida melhor a seus filhos; um CRIADOR e não um  verdugo, um destruidor... o Deus que conheço é um Deus de amor...
Sinto muito não ter conseguido escrever um texto poético, mas questões como essas, impedem, nublam e mesmo anulam a minha visão poética.

quinta-feira, fevereiro 21, 2013

Cremar o defunto? (Guacira Maciel)


                              
Morre o  pai e companheiro inseparável, depois de tantos anos de vida  juntos...no dia do velório, toda a família confrangida orava unida pedindo pelo descanso eterno...as irmãs da pobre viúva, com os rostos encobertos pelo pesar, desempenhavam o papel que delas era esperado... mas a dita cuja dava mostras, muito mais de preocupação que tristeza no semblante fechado; parecia absorta em pensamentos insondáveis para quem a olhasse. Pensava na própria situação e fazia um esforço sobre-humano para disfarçar e concentrar-se nas orações, nas demonstrações de pesar pelo falecimento do amigo, colega, vizinho... ali perto em contritos pensamentos e lembranças da infância, estava a unica filha, menina tranquila e contemplativa...ao olhá-la dir-se-ia estar perdida em suas lembraças de criança junto ao amoroso pai...o ambiente estava completo em todas as perspectivas inerentes à situação. Inesperadamente, a mocinha é arrancada daquele torpor e pergunta à mãe, com o rosto afetado pela dor: - Mãe, por que você não manda cremar o papai? Uma espécie de loucura repentina parece ter acometido a aparência controlada da senhora, que, passando a mãos sobre os olhos para desanuviar  a visão, respondeu, quase aos berros: - Você está maluca, menina? onde eu vou arranjar dinheiro para cremar seu pai? isso é muito caro! tá pensando que eu fiquei rica? ele não morreu? pois vai ficar é debaixo da terra mesmo!... Os presentes, tomados de espanto, começaram a rir discretamente tentando disfarçar, enquanto as irmãs da descontrolada, faziam o possível para acalmá-la abraçando-a e dando-lhe pequenos apertos na tentativa de evitar que o vexame se prolongasse. Depois do ocorrido todos pareciam calmos e ter compreendido aquele surto, mas o clima adquiriu uma conotação tragicômica e  para evitar outros constrangimentos, a família resolveu chegar logo aos finalmente...Assunto enterrado!



domingo, fevereiro 10, 2013

Literatura com os olhos e os ouvidos...(Guacira Maciel)



 Ao fazer a minha caminhada de todo santo dia, exceto aos domingos, tive uma experiência nova, que, embora simples, foi um verdadeiro exercício de percepção. Resolvi inovar e levei um MP3 ou 4? (para mim não faz a menor diferença) com intenção de escutar um pouco de música, como havia observado que muitas pessoas fazem quando caminham. Coloquei os fones, liguei o aparelhinho e nada aconteceu; a magia de todas as manhãs, mal punha os pés na pista de caminhada da orla, hoje, não foi a mesma. Então, me dei conta, não sem alguma perplexidade, que estava fora do contexto esperado; havia algo errado, e no primeiro momento nem pensei que fosse causado pela música que entrava pelos meus ouvidos de forma compulsória, sem necessitar reflexão... eu não estava lá, não éramos um... Ao olhar todo aquele espetáculo da Natureza, senti que faltava algo essencial: eu não conseguia me integrar a ele; eu não entrava na sua sintonia...me senti uma estranha àquele ambiente que me recebe todas as manhãs encenando um espetáculo novo...sabia que ele estava ali, mas era eu quem permanecia à porta. De repente me dei conta de que ocorrera uma espécie de fuga daquela sonoridade tão inerente, tão orgânica; compreendi que, além da observação visual, a presença daqueles sons suaves e naturais que deixavam impressas em minha sensibilidade imagens tão fortes, embora tão fugazes, capturadas e expressas nos meus "poemas impressionistas", neste verão de 2013, eram fundamentais às impressões oferecidas pela visão. Comecei então a entender, além da luz,  como os sons se encaixam e compõem a obra; como sou influenciada por eles, e como eles potencializam as impressões visuais, seja o latido dos cães vira latas disputando uma cadelinha no cio ou a primeira refeição que o tratorzinho da limpeza retira das praias; um grito ao longe trazido pelo vento ou simplesmente o som que a  brisa matinal provoca nos meus ouvidos...Comecei a perceber  que cada elemento visual refletido nos meus poemas se integra ao outro também pelo som que produzem individualmente, compondo uma sinfonia. Até mesmo o som que a energia do sol, ainda que a uma distância infinitesimal, produz ao vir afagar as águas do mar, uma espécie de murmúrio que posso perceber naquele contexto, se integra a  esse fantástico mistério. Também percebi que se faz Literatura com todos os sentidos...  e reafirmei a compreesão de que não existem limites para a Natureza, da qual sou parte integrante e simbiótica, que sempre deixa em mim uma sensação de eternidade...

terça-feira, fevereiro 05, 2013

Tributo a VanGogh (Guacira Maciel)

  Darei início a este texto especial e em especial, dizendo que fundamento as informações postas neste trabalho, em documentos que servem, tão somente, como referência, pois tenho outro olhar e formas de entendê-las; assim, minha indignação foi grande ao ler num livro biográfico sobre Van Gogh : “ A sua vida foi um malogro. Em tudo o que para o seu mundo, para o seu tempo, parecia de importância, foi ele um falhado[...]      A experiência fundamental de Vincent foi e permaneceu a do fracasso...”
Mas... certamente, 'isso' não foi dito por um artista!
Ainda sobre ele, Antonin Artaud, indignado, escreveu, em magnífico trabalho, que Van Gogh estava tão além do seu tempo, que às vésperas de ser inaugurada importante exposição da sua obra, no início da sua carreira, certo psiquiatra da época, incomodado, teria dado entrevista a um jornal dizendo ser ele um desequilibrado. Ora, um “homem de ciência” àquela época, tinha sua palavra inquestionável; mesmo porque eles não proliferavam como hoje...
Gostaria de registrar a indignação que sempre senti; a tristeza e um sentimento de revolta, assim como, o quanto, ainda hoje, me doi pensar nos sofrimentos causados pelo desrespeito, humilhação e injustiça pelos quais passou esse gênio da pintura. Em algumas culturas do Oriente, um artista é considerado um patrimônio cultural a ser cuidado e preservado dentro desse universo, principalmente, por ser entendido ser essa  uma das formas de passar uma cultura à posteridade. Nada do que se possa pensar chegará perto da realidade; às vezes, até tentamos nos colocar no lugar do ‘outro’, mas nem sempre conseguimos perceber a intensidade do seu sentir, no entanto, imagino o que teria sido receber a indiferença, o escárnio, a brutalidade em troca de tanto amor à Arte, de tanta sensibilidade, de tanto estudo, de tanta busca e de tanto sonho de criação...
Que direito tem quem quer que seja, de outorgar a si mesmo “autoridade” para questionar a sanidade de um gênio? Que conhecimento da alma e dos caminhos subjetivos desse ser, tem alguém, para condenar a uma subvida outra pessoa (ver o trabalho da Dra. Nise da Silveira), ainda que não fosse ela uma inteligência superior? Bem, poderia servir de consolo estar certa que os gênios existem, justamente, para provar à maioria, o quanto ela é medíocre!
Cada um se expressa pela linguagem que lhe é facultada e melhor atenda à sua sensibilidade; VanGogh, através da sua belíssima e expressiva pintura mostrava o Ser em suas facetas mais humanas e denunciava um cotidiano sofrido e tão, ou mais, difícil quanto o dele; ali ele também expunha a angústia em que vivia seu próprio espírito ao perceber essa realidade absurda, tempo em que experimentou a extrema miséria social ao conviver por decisão própria com trabalhadores de minas de carvão. Nessa fase da sua Arte, quando retratava pessoas de semblante triste e marcado, cuja vida era lúgubre e cansativa pela exaustão que o trabalho árduo deixava, não poderia usar as cores puras e os traços dançantes de fases posteriores...
Numa época da sua vida artística, não por tanto tempo, teve em Mouve um ‘mentor estético’, do qual se libertou (ainda bem), por entender que ele tinha uma concepção estética muito acadêmica e presa a cânones, em detrimento da expressão pessoal e ausência de registro dos problemas sociais. Vincent foi um artista de absoluto vanguardismo, pois situou seu trabalho dentro de um contexto social; sua obra tinha uma lógica e uma estética próprias. Ele não se prendia à questão acadêmica da época, tinha uma alma livre, não suportando, também, críticas à sua vida privada, o que lhe lembrava muito as restrições impostas por seu pai, em seu calvinismo beato. Por razão como essas, refugiou-se em sua arte numa tentativa de escapar àquela relação que lhe trazia lembranças e sentimentos muito contraditórios; solidão que, no entanto, lhe causava atroz sofrimento.
Fico perplexa e questiono sobre quais teriam sido os parâmetros que os ‘críticos’, desde sempre, tomaram como referência para ‘julgar’ dessa ou daquela forma o trabalho de um gênio (repetirei sempre), que nem ao menos compreendiam, porque não tinham espírito para tal. Teria sido por medo de ousar contradizer os ‘entendidos’, que jamais se mudou esse conceito duro, insensível e ignorante, quanto à arte desse homem?  No Ocidente é cultural valorizar financeiramente o trabalho de um artista após a sua morte; mas não porque se teve a decência, humildade ou coragem de reavaliar posturas grosseiras anteriores aprisionadas num universo pequeno demais, mas sim, porque o ‘mercado’ assim determina, em função da dificuldade de compra de sua obra, o que termina por valorizá-la...
Quem delegou a outrem, autoridade, poder... sei lá!...para definir a vida emocional e as dores de alguem? Será que temos esse direito, essa condição? O que ou quem teria elementos para eleger padrões definitivos de normalidade psicológica de um ser humano em sua complexidade? Aliás, é recorrente entre nós esse comportamento de semideuses... Os inúmeros exemplos comprovam isso; entretanto, enfatizo, esse ‘fenômeno’ não é incomum em relação às grandes inteligências, e temos incontáveis exemplos! Seria porque elas incomodam e desestabilizam o que se quer imutável, enquadrado, definitivo? Mas como qualquer coisa viva poderia ser definitiva? Não posso compreender a VIDA com esse olhar restritivo... Outro significativo exemplo disso, precisaria citá-lo porque ele compreendeu e se indignou com esse comportamento em relação à Van Gogh, foi outro gênio, e incompreendido, Antonin Artaud (antes referido), uma mente brilhante que recebeu o mesmo tratamento brutal, tendo sido também trancafiado em manicômio, e 'tratado' pelo próprio médico que o incentivava e amava seu trabalho, com diagnóstico de ‘loucura’... mas que ousou desafiar pessoas sacralizadas por valores tortuosos, estando entre outras falas extremamente lúcidas, esta, que por razões óbvias apresento aqui, endereçada em carta aberta aos Reitores de Universidades européias da época:
Deixa-nos, pois, Senhores; sois tão somente usurpadores. Com que direito pretendeis canalizar a inteligência e dar diplomas de Espírito? Nada sabeis do Espírito, ignorais suas mais ocultas e essenciais ramificações [...]. Em nome de vossa própria lógica, vos dizemos: a vida empesta, Senhores. Contemplai por um instante vossos rostos e considerai vossos produtos. Através das peneiras de vossos diplomas, passa uma juventude cansada, perdida. Sois a praga de um mundo, Senhores, e boa sorte para esse mundo, mas que pelo menos não se acredite à testa da humanidade.
De forma magistral, Vincent, esse sensível ser humano, em sua evolução humana e artística demonstrou através das cores, seu profundo envolvimento com o contexto em que vivia; não lhe interessava retratar a particularidade do objeto, como não o interessou quanto à sua própria vida, uma vez que as questões sociais e a vida cotidiana sempre foram mais fortes. Em sua obra os objetos tinham vida no ambiente em que se encontravam e faziam nele um sentido; Vincent tinha consciência de que nada tinha vida num universo particular e imutável; tinha a consciência implícita de uma ecologia ampla e profunda onde tudo está intimamente ligado, ou seja, cada coisa é afetada e afeta a outra. Quem olha um girassol e não se lembra dos seus “Girassóis”?
O que definitivamente seria a loucura? Pode-se conferir-lhe sem análise esse caráter?

sexta-feira, fevereiro 01, 2013

Pacíficos ou beligerantes? (Guacira Maciel)



Bem, não creio que exista possibilidade de sermos beligerantes se não formos intimamente pacíficos. E precisamos ser beligerantes, na medida em que temos uma luta a travar contra o estado de violência que se instalou em nossas vidas, e na sociedade, de forma compulsória. A beligerância não implica em luta, no combate armado no sentido específico, mas sim, no sentido amplo, desde que se faz fundamental combater todas as formas de violência, desde a mais silenciosa e não menos insana ou destruidora, como as ações contra a infância, uma vez que as crianças são as vitimas mais silenciosas, mais frágeis e incapazes de reagir ou denunciar, mas também contra as mulheres, uma violência que a cada dia se expande, se aprofunda, tornando-se uma prática cotidiana. Não sei se ela aumentou, já que as estatísticas parecem apontar para essa realidade ou se tornou mais evidente, em consequência das denúncias da sociedade, porque parece que as próprias mulheres ainda não estão conscientes de que denunciar é fundamental para coibir esse cinismo e essa arrogância masculina, que entede ter poderes sobre a companheira. Também se pode citar a violência contra minorias que ainda são tão desprotegidas neste pais...
A sociedade hoje, vive vários tipos de guerras civis, desde aquelas travadas  e demonstradas através de atitudes ou ações sutis e não menos maldosas, ou mesmo guerras de palavras, que são capazes de agredir  tão profundamente quanto uma agressão física, até outras guerras por ganância, por poder, etc. Entretanto, ser beligerante no sentido trazido aqui, significa ser tão pacífico que as atitudes e comportamentos possam atingir um transgressor sem tocá-lo ou atingí-lo diretamente, bastando haver no bojo dessa ação uma preocupação de natureza ética e uma atitude apaziguadora, que consiga mediar ações humanas, que, estas, sim, possam se insurgir contra a violação de direitos da pessoa humana (ou animal não humano ou natural) em todas as suas formas.
A humanidade tem inumeráveis exemplos de seres pacíficos, e beligerantes, como foram Mahatma Gandhi, que lutou quase silenciosamente contra o sistema de castas e pela independência da India, recusando qualquer forma de violência. Martin Luther King, que lutou contra o racismo uma forma dolosa e dolorosa de violação dos direitos humanos. Madre Teresa de Calcutá, que tem lindíssimos poemas falando sobre o amor, que é uma forma contundente e pacífica de cambate à violência da exclusão. Herbert de Souza, o nosso Betinho,  que lutou a favor dos diteitos dos operários (década de 50) e contra a fome e a miséria. Bertrand Russel, escritor e Prêmio Nobel de Literatura, que lutou contra a obrigatoriedade de pessoas irem para as guerras e contra as armas nucleares. Song Kosal, uma menina do Camboja, que, tendo perdido uma perna numa mina terrestre, passou a lutar por um mundo sem armas, entre muitos outros, até anônimos com os quais nos deparamos todos os dias. Nós, Confreiras e Confrades da CAPPAZ (Confraria de Artistas e Poetas pela Paz), temos a nossa luta a ser travada através da arte, como a Madre Teresa de Calcutá tão belamente fez através da poesia...

terça-feira, janeiro 29, 2013

Luto pela tragédia ocorrida com tantas vidas na BOATE KISS, em Santa Maria (Rio Grande do Sul). Que esses jovens encontrem a LUZ e suas famílias o CONSOLO.

domingo, janeiro 27, 2013

A moça do vestido vermelho; poema impressionista nº 3 (Guacira Maciel)


É voz corrente que Heráclito teria sido um filósofo de pensamento obscuro e insondável. Isso sempre me causa entranheza, porque creio, mais que tudo ou quaisquer outras considerações, que a obscuridade reside mais no leitor, já que o que se tem registrado de sua obra são fragmentos quase perdidos de sua moldura de origem – contexto – escritos em um período em que os interesses se voltavam mais para os mitos do que para a história. De qualquer forma, é preciso refletir que mesmo assim eles terminaram por compor uma imagem filosófica e humana melhor do que a história o faria, uma vez que ele teria optado por uma vida reclusa nas montanhas de Éfeso. Deixando de lado todas as polêmicas a seu respeito, sabe-se que ele escreveu o livro intitulado “Acerca de Narureza”  e, tenha sido em prosa ou verso (outra polêmica), essa obra perdeu-se em consequência  do desmoronamento das Civilizaçãoes, restando apenas fragmentos de onde emerge o homem que nos seduz...Mas voltemos à Natureza como moldura das minhas caminhadas e ao registro das impressões que tanto têm me estimulado  neste verão cheio de luz de 2013. Ao chegar lá hoje, olhei o mar, que é a mais importante referência neste quadro, e minhas retinas registraram uma superfície lisa, em tons de cinza (não os 50, por certo...),  que dava uma impressão de concretude, insondável à minha sensibilidade... afetada apenas por um leve drapeado que não manifestava nenhum interesse em vir beijar as areias, talvez por não estarem mornas...o sol também difuso como se derreado por alguma orgia oriental,  oferecia uma luz parca em vigor, que ainda assim se desdobrava naquela superfície, velada por uma fina camada de gaze lilás que deixava ver sua fluidez, mas preservava-se íntegra e sem pedaços esparsos... naquele momento me veio à lembrança e cantei baixinho o verso de uma canção da qual não sei o nome: - “a luz do abajour lilás...” À essa visão me integrei de tal forma ao cenário, que a consciência deve ter me despido da carapaça física e transportado a outra dimensão... já não estava ali, mas lá...na obra... Como último recurso lógico, tentei apurar a vista para ver coisas conhecidas e concretas, como os surfistas ao longe, pessoas caminhando ou mesmo o preguiçoso polvo languidamente adormecido, mas a incidência da luz, somada ao vapor da maresia só filtravam a percepção de uma silhueta, como uma visão distorcida e estranha àquele contexto, vindo em sentido contrário. Era uma moça com um esvoaçante vestido longo e vermelho que, absorta, tentava, teimosamente, desmanchar com os pés dascalços o perfeito drapeado  e, com isso, contrariar a natureza ou demonstrar a si mesma que tinha controle sobre alguma coisa... passei a desejar que chegasse mais perto para buscar entender aquela atitude inútil e, quem sabe, ver se sua fisionomia me diria alguma coisa, mas não houve tempo... fui retirada bruscamente daquela imersão por um barulhento automóvel tocando um “arrocha” que me deixou contrariada; porém, ao passar pelo infrator o ouvi dizer  a um companheiro, levando a mão ao peito
 _ Essa música vai direto ao coração, brother...

segunda-feira, janeiro 21, 2013

Uma sinfonia em seus mistérios; poema impressionista nº 2 (Guacira Maciel)

Hoje, o mar não tinha sargaços, nem ondas, nem aguardava o repouso da lua em seus insondáveis limites, no entanto, não menos belo nessa serenidade sem qualquer performance especial; era parte intrínseca do cenário da natureza em seus mistérios. Esse estar calmo, naquele momento, assemelhava-se a uma cama cujo lençol em azul profundo fora estendido por mãos tão hábeis, que não apresentava uma ruga sequer...ao longe os surfistas aguardavam pacientemente que no sono ele resolvesse revirar-se em seu leito causando algum movimento que pudessem aproveitar para deslizar em suas coloridas e parafinadas pranchas. O céu também resolvera apresentar a sua verdadeira face, límpida, em azul claríssimo, matizado pela luminosidade ainda fria do sol. Este, entretanto, oferecia nessa sinfonia, um espetáculo à parte, e aproveitando que as cortinas do palco permaneceram abertas, dançava sobre a superfície azul do leito marinho....na plateia estávamos eu e o sonolento polvo, cuja pequena cabeça lateral, como uma corruptela da Medusa, levantou-se também para presenciar o espetáculo enquanto “quentava sol”. A esteira luminosa deixada por aquela grandeza difusa, estendia-se profusamente até nossos pés, num um generoso convite do astro maior da companhia, a ocuparmos o camarote para assistir aquele show tão breve e indescritível à destreza de qualquer poeta, das tintas ou das letras... Seduzida por aquela magia, corri silenciosamente para não incomodar meu companheiro que repousava preguiçosamente de olhos fechados, entrei e mergulhei naquela esteira impermanente de pequenas gotas de luz...

sexta-feira, janeiro 11, 2013

A vírgula...(Guacira Maciel)

Uma coisa tão pequenina que poderia ser tão insignificante e não é. Eu a substituiria por reticências na maioria dos casos e elas me satisfariam... aliás sempre tive um caso de amor com as reticências porque elas permitem que o pensamento divague e percorra caminhos outros que não apenas os do autor do texto... mas a alguns não parece ser assim e olha que eu tento usá-la...razão pela qual se tornou quase um pesadelo em minha escrita: uma vírgula?! aliás também em minha vida eu diria... porque estou cada vez mais mobilizada a escrever livremente e ela está sempre no meio do meu caminho
 da minha frase
 do meu texto
 do meu pensamento
como aquela pedra... não a fundamental mas aquele empecilho a que meu pensamento corra sem amarras sobre o papel e minhas emoções definam onde serão necessárias as pausas sem que a dramaticidade do sentimento seja afetada por decisão de regras. Preciso convencer os puristas da Língua Portuguesa de que a vírgula para mim é um recurso puramente estético semântico e até semiótico e se não direciono seu uso com precisão  a cada dia posso fazer pausas diferentes dependendo do meu estado de espírito e emoção e não como um impositivo gramatical. Eu não sei gramática porque nunca gostei de regras. As minhas pausas sou eu quem precisa decidir porque se atendo às regras que vejo como puro detalhe de forma linear  perco a dramaticidade do que preciso dizer
 perco o rítmo
 perco o rebolado... é horrível perder o rebolado num texto literário porque também perco o rumo e o endereço do portal criativo.
Dizem que a vírgula muda o sentido de uma frase e eu concordo! por isso resisto! concordo absolutamente porque na oralidade a ênfase é dada pela entonação da voz de acordo com a emoção de quem lê... pelas pausas que impostas pela dramaticidade e não necessariamente por  uma vírgula como querem seja feito no texto escrito onde elas lhe dizem pare aqui faça cara de paisagem respire e recomece... tirando o ritimo e a harmonia do que preciso dizer. A escrita literária é uma sinfonia orquestrada por todos os sentidos e se sou eu quem decide o que quero dizer isso precisa ser refletido através da liberação das emoções e do ritmo mesmo porque a liberdade de interpretação do leitor sempre terá a ultima palavra de acordo com sua compreensão e suas emoções... então uma vírgula não fará tanta diferença porque o leitor não irá mesmo ouvir-me nem adivinhar que a minha pausa seria dada ali... ou mais adiante...Mas também tenho   outras resistências... não acho pertinente usar maiúscula depois de uma exclamação ou interrogação se pretendo por exemplo continuar a expor o assunto na mesma perspectiva.
É... as emoções de uma execução instrumental  não devem ser maculadas cerceadas e reguladas por simples detalhes impositivos e a literatura é o instrumento com que escrevo a minha sinfonia pessoal...os sentimentos devem percorrer os caminhos inimagináveis sem os limites da pausas regradas que a vírgula impõe...elas são quase imperativas e eu completamente impenitente...já que sou tão imperfeita...

 

sábado, janeiro 05, 2013

Poema impressionista (Guacira Maciel)


Hoje, não fui orientada pelo olfato; não senti o cheiro dos sargaços da minha infância durante a minha caminhada à beira do mar da madrugada. Sim, o mar da madrugada, porque durante o resto do dia, embora de estonteante beleza, suas nuances não têm o tom aveludado causado pelo momento preambular à luz do dia...Hoje, fui quase abduzida por outro dos sentidos, embora não menos forte que o primeiro, a visão.
 Olhar o mar sempre me impressiona e me deixa em quase estado de epifania; seu aspecto nesta madrugada, enquanto o sol, preguiçosamente e ainda embriagado pelo sono ocidental, aguardava generosamente o repouso da lua já quase totalmente cheia e pesada como um ventre grávido, que caminhava preguiçosa a pequenos passos, sob o olhar complacente de nós três: o sol, eu e o imenso polvo repousado languidamente sobre as areias de Piatã.
Nesse interregno, minha atenção foi despertada pela forte impressão de maciez daquele lençol de cetim azul profundo que aguardava o repouso lunar. Pequenas ondulações aveludadas finalizam-se em fragmentos de renda branquíssima e quase tão delgadas quanto os vestígios  de luz das pegadas daquela deusa Godiva. Pareceu-me que mãos inábeis tentavam estendê-lo sobre uma cama etérea. Acima da maciez do leito líquido, um gazebo de nuvens protegia aquela caminhada permitindo que apenas um diluído reflexo de luz solar escapasse por um rasgão da sua fragilidade. Enfim, deitou-se, sagrada, a lua e abriu-se a densa nuvem permitindo que a luz dos primeiros raios desdobrados pelo reflexo na superfície  líquida  me arrancassem da magia daquele torpor...

terça-feira, janeiro 01, 2013

Estética da Literatura...(Guacira Maciel)

A um primeiro olhar os meus textos literários poderiam ser considerados uma espécie de transgressão, mas não é assim...o meu interesse em relação à Literatura é tentar entender (e desvendar) uma compreensão muito pessoal, intima mesmo, da escrita como arte e em sendo assim, não posso submetê-la a cânones, sejam quais forem eles, mesmo que acadêmicos, da língua materna, e muito menos de uma reforma ortográfica com a qual eu não tive nenhum envolvimento. Um texto literário, como criação é tão plástico quanto uma pintura, um desenho e dessa forma, como estes, não pode ser submetida a regras quanto ao que o seu autor deve falar por se tratar de percepção, de sentimento, que é muito subjetivo. Quando deixo escorregar o pincel sobre a tela, embora tenha uma ideia inicial do que penso pintar, não tenho total controle sobre o resultado final...muitas vezes o pincel é arrebatado e o trabalho escapa à minha determinação. Assim é o ato de criar escrevendo; a Literatura, diferentemente de um texto acadêmico, é simbolista, metafórica, carregada de subjetividade, de representações... Faço literatura, escrevo, para me expressar, para me fazer representar em meu tempo humano, para delete pessoal,  e de quem me lê, sem obrigação de legitimar a gramática (as vírgulas então...), até porque posso ser lida por uma diversidade tão grande de pessoas, com histórias pessoais também tão diversas que deixo de ter controle sobre o que escrevi. O meu trabalho pode ser lido (espero...) por qualquer tipo de público, inclusive aquele caracterizado por alguns como iletrado, que poderá interpretá-lo (estão liberados...) segundo sua condição ou necessidade, ou entendimento dele e de mundo, uma vez que uma obra depois de publicada, depois de entregue ao público, não pertence mais ao seu autor  no sentido do domínio interpretativo e terá tantos co-autores quantos o possam ler...
Além dessa estética do texto escrito, no sentido mais profundo, eu também preciso expor a estética da minha percepção daquilo sobre o que escrevo. A minha literatura em poesia ou prosa é muito impressionista e compõe a minha fantasia, aliada ao que percebo da vida, das relações, das coisas, da paisagem, das pessoas que, às vezes, apenas passam por mim ou daquelas que cruzam o meu caminho e me afetam por instantes que poderão jamais se repetir...e tudo isso tem uma forte dimensão de "nonsense". Sendo impressionista o meu texto é mesmo imperfeito, como eu, pois minhas metáforas e meu ritmo e pausas vão evidenciar o meu sentimento naquele exato momento, a dramaticidade que quero demonstrar, aliados à atmosfera externa e minha atmosfera intima, na tentativa de 'imprimir' ou capturar aquele fragmento de tempo através da escrita...