Da mais alta janela da minha casa, com um lenço branco, digo adeus aos meus versos que partem para a humanidade. E não estou alegre nem triste; este é o destino dos versos [...]. Quem sabe quem os lerá? Quem sabe a que mãos irão? Fernando Pessoa.

Obs. usando a autonomia que a licença poética e a própria cultura brasileira me permitem, não adoto linearmente essa segunda outorga (arbitrária) da língua portuguesa.


segunda-feira, novembro 19, 2012

Caminho de casa...(Guacira Maciel)



O caminho que percorro na volta do trabalho para casa me oferece, generosamente, um dos espetáculos mais grandiosos da Criação, que é a companhia do mar e suas ricas nuances de verdes e azuis. Tenho por hábito percorrê-lo com vagar, espiando curiosa e divertida, as evoluções das pequenas ondas que se enroscam graciosamente em inocentes empurrões como a querer passar à frente uma das outras para vir brincar à beira d’água. Ontem, com os sentidos aguçados de um perdigueiro, procurava identificar  cada cheiro que chegava até mim junto com a maresia e, subitamente, senti o mais sublime deles, o dos sargaços, que têm o cheiro da inocência da minha infância. Ah!...é este o cheiro que carrego impregnado a mim para sempre...Surpreendentemente me vi caminhando por uma estradinha estreita, ladeada por uma vegetação peculiar e quase intransponível, que brota luxuriante à beira do mar, e estava outra vez naquela praia quase deserta de Madre de Deus, quando tudo era tão puro e quase selvagem. As ondas se transformaram em montanhas de saudade; as cores brilhantes daquelas manhãs incidiram sobre meus olhos perplexos de criança...os cheiros das marés na madrugada despertaram uma avalanche de sentidos, despedaçantes como encouraçados...pequenos diamantes e pérolas piscavam para mim nas areias ignoradas pelas minhas pegadas infantis e as conchinhas  desprendidas das caudas das sereias, como vestígios de sua passagem, nelas afundavam momentaneamente. Então, afago a minha alma, segurando no peito o coração e me percebo pedaços de vida perdidos  nos vestígios das minhas próprias lágrimas...

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