Da mais alta janela da minha casa, com um lenço branco, digo adeus aos meus versos que partem para a humanidade. E não estou alegre nem triste; este é o destino dos versos [...]. Quem sabe quem os lerá? Quem sabe a que mãos irão? Fernando Pessoa.

Obs. usando a autonomia que a licença poética e a própria cultura brasileira me permitem, não adoto linearmente essa segunda outorga (arbitrária) da língua portuguesa.


domingo, novembro 25, 2012

Excertos do meu livro: "A importância da Arte na aprendizagem; textos ressonantes..." (Guacira)



Este trabalho seria apenas um sussurro, não fosse a ousadia de escapulir à meia-voz...  considero-o uma transgressão. Embora tenha sofrido algumas correções de curso, como faz o timoneiro, pela necessidade que me acompanha de jamais estar satisfeita e entender que a cada dia as experiências vividas se revestem de nuances novas em sua compreensão, embora o pensamento original  tenha permanecido. Aqui, decidi iniciar a partir do pensamento de Cecília Meireles:
“Renova-te. Renasce em ti mesmo.
Multiplica os teus olhos para verem mais”.
 No subtítulo me refiro à ressonância, que, entre outros, significa “fenômeno físico pelo qual o ar de uma cavidade é suscetível de vibrar com frequência determinada, por influência de um corpo sonoro, produzindo reforço de vibrações”. (BUENO, 2007).
Por esta razão, digo que são textos ressonantes; a transgressão extrapola a irreverência e se reveste de um caráter de transposição de si mesma, de ultrapassagem dos próprios limites quanto à sua natureza própria, indo além e induzindo a outros universos, outras possibilidades de representação no âmbito dos signos, dos ícones, representantes de realidades múltiplas. O “reforço de vibrações” é representado por essa multiplicidade, com uma “frequência determinada”, dentro de arcabouços específicos que se configura cada universo em que transitamos, sem, entretanto, anularem-se os diálogos com as percepções que expõem outras tonalidades, que levam por outros caminhos e respectivas comprovações. O meu trabalho neste ou em qualquer outro “entre lugar” é o resultado do    enfrentamento cotidiano de problemas humanos e, consequentemente, sociais. Precisamos nos colocar na condição de viajantes e observar que a paisagem muda à medida que caminhamos, apresentando novas exigências, sendo preciso estar atentos, porque essa passagem nos acrescenta aprendizagens novas e outras formas de olhar, necessitando que mudemos a direção e a observemos sob outros ângulos. Isso ensina ao viajante, porque os outros caminhos também têm sua lógica, sua filosofia e suas ‘razões’, sendo imprescindível dialogar com a subjetividade e suas possibilidades; com os caminhos que só o são depois da passagem do viajante; aqueles que margeiam as ‘autopistas’, e acontecem de forma natural, enriquecidos a cada viagem... Somos os sujeitos da história antes de tudo e essa se constitui uma condição primeira, uma condição antecedente, uma vez que temos experiências humanas comprováveis.
Sinto muita insatisfação, muita inquietude quando percebo o encaminhamento das questões humanas com um determinismo que encerra a condição de extrapolar os cânones, as bitolas e o cientificismo, muitas vezes bastante estreitos, porque a vida é um arcabouço a ser preenchido, apenas, quando percorridos os possíveis caminhos, se os sujeitos em suas vivências têm formas diferentes de caminhar, inclusive, porque uma minoria não pode encerrar a verdade e ditar regras para todos - cujas experiências são diferenciadas -, aprisionando a vida entre grades, se a cada segundo mais e mais formas se nos apresentam como possibilidade e se vão incorporando às identidades humanas, cuja porta deverá permanecer sempre entreaberta.
 O filósofo francês Gilles Deleuze disse ser a Filosofia a Arte de criar conceitos, e que estariam ai, implícitos dois dos mais importantes deles a se considerar entre as duas: o primeiro, que a criação não está restrita ao mundo dos artistas ou profissionais de propaganda e marketinge o outro, a compreensão de que os conceitos não têm a palavra final sobre qualquer coisa; eles não têm o poder de transcender, absolutamente, as vivências humanas; e seriam formas buscadas pelo pensamento - as representações, invocando a Semiótica -, para situar as nossas experiências em determinado âmbito, assim como as relações que se estabelecem. Além destas, outras intimidades entre as duas são detectáveis: olhares diferenciados sobre a vida e certo distanciamento das suas demandas e questões para que seja possível compreendê-las, o que nos traz uma amplitude muito mais interessante, e assim, a percepção de outras realidades possíveis. No entanto, esse distanciamento não poderá significar alheamento, nem superficialidade, mas a possibilidade de mais um caminho, outra consciência de si mesmo, do mundo edas relações.
Compreende-se, dessa forma, como a perspectiva é fundamental em ambas para ampliar outras vertentes em seu aprofundamento; para entender isso será necessário exercitar esse distanciamento provisório, que trará uma compreensão mais dilatada. Elas ainda concordam quanto à desconfiança de uma verdade imutável e única, estabelecendo alicerces para outros universos...
Como dar respostas certas e definitivas a questões relativas e circunstanciais, uma vez que há tantos envolvimentos?

segunda-feira, novembro 19, 2012

A sombra do teu cílio (Guacira Maciel)

A sombra do teu cílio
pousada suavemente
na seda cinza dos teus olhos
induzem a profundos azuis

entre a eternidade
e o fugaz momento
me traz o teu sorriso
nem alegre nem triste
e me encaminha
a sonhos reclusos
plenos de promessas
nem perto nem longe
mas imprecisas

 como as brumas

Caminho de casa...(Guacira Maciel)



O caminho que percorro na volta do trabalho para casa me oferece, generosamente, um dos espetáculos mais grandiosos da Criação, que é a companhia do mar e suas ricas nuances de verdes e azuis. Tenho por hábito percorrê-lo com vagar, espiando curiosa e divertida, as evoluções das pequenas ondas que se enroscam graciosamente em inocentes empurrões como a querer passar à frente uma das outras para vir brincar à beira d’água. Ontem, com os sentidos aguçados de um perdigueiro, procurava identificar  cada cheiro que chegava até mim junto com a maresia e, subitamente, senti o mais sublime deles, o dos sargaços, que têm o cheiro da inocência da minha infância. Ah!...é este o cheiro que carrego impregnado a mim para sempre...Surpreendentemente me vi caminhando por uma estradinha estreita, ladeada por uma vegetação peculiar e quase intransponível, que brota luxuriante à beira do mar, e estava outra vez naquela praia quase deserta de Madre de Deus, quando tudo era tão puro e quase selvagem. As ondas se transformaram em montanhas de saudade; as cores brilhantes daquelas manhãs incidiram sobre meus olhos perplexos de criança...os cheiros das marés na madrugada despertaram uma avalanche de sentidos, despedaçantes como encouraçados...pequenos diamantes e pérolas piscavam para mim nas areias ignoradas pelas minhas pegadas infantis e as conchinhas  desprendidas das caudas das sereias, como vestígios de sua passagem, nelas afundavam momentaneamente. Então, afago a minha alma, segurando no peito o coração e me percebo pedaços de vida perdidos  nos vestígios das minhas próprias lágrimas...