Da mais alta janela da minha casa, com um lenço branco, digo adeus aos meus versos que partem para a humanidade. E não estou alegre nem triste; este é o destino dos versos [...]. Quem sabe quem os lerá? Quem sabe a que mãos irão? Fernando Pessoa.

Obs. usando a autonomia que a licença poética e a própria cultura brasileira me permitem, não adoto linearmente essa segunda outorga (arbitrária) da língua portuguesa.


domingo, outubro 28, 2012

Para o café...(Guacira)



Só de brincadeirinha vou fingir que te verei amanhã; vou fingir que nada mudou e que ainda estás ao alcance dos meus abraços... depois, vou planejar o meu dia tentando não pensar. Vou viver cada minuto dessas 24 horas tentando fingir que nada mudou e esperando a hora de te ver, como todos os dias, após o término das  nossas lutas diárias, há tantos anos...quantos? nem lembro mais...parece que são milhares deles; algumas encarnações... Mas houve um imprevisto, creio, e à hora de sempre tu não estavas lá. Mas ainda acho que vou dormir dentro dos teus braços, foi só um pequeno atraso...e chegarás de mansinho com cuidado para não me acordar, deitarás ao meu lado e passarás a perna esquerda sobre mim como fazes todas as noites; a tua perna pesa sobre o meu ventre e sinto vir à tona um calor que me sufoca e quase me consome, e se alastra fazendo crescer a labareda imortal que há entre nós. Mal penso em ti me sinto quase incapaz de controlar esse sentimento profano e inexplicavelmente sagrado. Sinto uma vontade quase irreprimível de te tocar, mas ressonas tão entregue e tranquilo que não consigo te acordar, e penso...penso que não tenho o direito de invadir a tua placidez quase inocente,  e me deixas presa sob tua perna esquerda como se tivesses medo que eu pudesse fugir... Durmo aconchegada ao teu lado direito como se teus braços fossem asas a me abrigar; parecemos ter apenas um unico tronco tão unidos adormecemos...Então, abro os olhos de manhã, preocupada com o horário do trabalho e não te vejo, prendendo-me com tua perna esquerda...
 Não chegaste? onde foste? deixei-te um bilhete; tu o leste? o sono me abateu antes que tivesses chegado...que pena, nem percebi o teu abraço e o aconchego do peso da tua perna...

P.S. Então, nos veremos amanhã para o cafe?

domingo, outubro 14, 2012

Salvador contraste (guacira)



Salvo a dor que gritas
por entre contornos
de entrelaçados braços fortes
de um gigante egoísta
és bela
Mont Serrat e São Marcelo
trompas
que sua baía
útero fundo e fértil
onde amniótico líquido quente
aquece e alimenta filhos inaceitos nascidos órfãos
abraçam sem saída
tua brisa secular e própria
que penetra velas como ventres
não se esvai; é começo e finalização.
cidade luz e lodo
Água de Meninos orgia bacante
de cheiros sons sorrisos medos
Pelô de torturas e turistas sub deuses
onde pisando “cabeças de nego”
consomem preciosas e nativas prendas
Salvador trilhos urbanos
mapa da fome e desabrigo
relação mestiça
sensível como ponto dolorido.







terça-feira, outubro 09, 2012

Desertos...(guacira)

Serias por acaso uma miragem?
nos desertos da distância
compulsória e infértil
a mágica alquimia
gera entre a imaginação do poeta
o vórtice espiral das tempestades de areia
e o rastro das estrelas na solitude da noite abissal
e faz surgir na seiva amina
a célula primeira da tua existência
que concebe e acaricia a tua imagem
ressurgida na trajetória das aves de arribação
sob o sol acidular
no litoral do meu pais
entre as areias brancas do Atlântico.

quarta-feira, outubro 03, 2012

Esmeralda (Guacira)

  
__ Minha fia, o que ocê tá fazendo aqui nesse lugar essas hora? Vai pra casa...aqui num é lugar pra  moça como ocê.
__ Num posso. Tô percurando uns "baguio" pra comprá de comer pra nois...
__ Aqui?? Se sobra arguma coisinha de nada qui serve, eles carrega, fia.
__ Mais eu vou "dissaroiar" mais um poquinho, quem sabe num dô sorte?
__ Num sobra nada qui preste, fia! tô dizeno? eu cunheço isso aqui como a parma das minha mão...
__ Mas a sinhora num tá cum a fome qui  nem eu tô...eu e mãe...
__ Oia, eu sei o qui é fome braba...vamo lá im casa, que eu te dou arguma coisa...
__Brigada, mais num carece. E amanhã?
__ Prendi qui  o qui conta é matar a fome hoje,  no outro dia nois vê depois...  Cuma ocê se chama?
__ Ismeralda.
 __ Nome bonito... vamo qui nois cunvesa cum carma.
__ Tá bom, hoje eu vou...
Dona  Tonha levou  Esmeralda rapidamente...era importante sair logo dali...Quando chegaram em sua casa, a senhora fez a moça entrar, sentar-se à mesa e serviu-lhe um jantar caprichado.  Esmeralda não abriu a boca para outra coisa que não fosse para enfiar a colher  lotada daquela deliciosa e quente comidinha. [Meu Deus, pensou...faz quanto tempo  qui num sinto esse gostim de  comida de verdade? Nem se lembrava mais...].
De repente deu-se conta:
 [ nem olhei para essa dona tão boazinha...]
E parou, largando a colher sobre a mesa:
__ A dona me discurpe, eu fiz que  nem bicho quando vi a comida.
__ Num carece se discurpá, fia. Eu intendo, já fui qui nem ocê...
__ E foi? Mas tem essa casa boa...
__ É...eu sei quanto mi custô...
Esmeralda olhou-a intrigada; não entendeu, mas não quis perguntar, com receio de parecer curiosa; em seu meio as perguntas não eram bem vindas. Terminou de comer, levantou-se educadamente de cabeça baixa, agradeceu e saiu.
__Se cuida, fia! E se puder, vá pra bem longe daqui.
Não conseguiu dormir, pensando naquela moça. Levantou-se pela madrugada e, como de costume, foi pitar seu cachimbo acocorada à porta de casa, olhando ao longe, absorta.
[Hum, aquela minina não demora pura...é muito bonita e muito pobre].
Mal acabara de pensar nela, observou uma poeira ao longe
 [Hum... dessa vez foi mais rapidim ainda].
__Dia, Dona Tonha!
Falou Cosme, seu conhecido, com o chapéu numa das mãos.
__Dia. O que traz vosmecê aqui a essas hora?
__Cadê a moça? O Seu Hermano qué  que a sinhora leve ela lá.
__ Vô não, tô muito veia. O qui ocês qué cum ela? num chega? ela é muito nova prá ir pra Serra, sô!
__A sinhora sabe, né? Quanto mais nova mió...
A “Serra” é como se referem  simplificadamente às minas de onde se extrai , de forma quase improvisada, a esmeralda na região da Serra da Carnaíba, no Estado da Bahia, que tem as maiores reservas da preciosa pedra no Brasil. Ali, como em todos esse lugares, a prostituição de mulheres quase crianças é uma barbárie; além de riquezas, também se “extrai” a inocência, a beleza e a pureza dessas  meninas para satisfazer os instintos mais brutais, muitas vezes com a conivência de autoridades e até das próprias famílias, que vivem numa miséria tão absoluta, que entregam suas filhas em troca de comida, de uma fugaz melhora de vida, para não morrerem todos de fome. Entretanto,  em pouco tempo  essas mulheres-crianças  caem no desagrado e vão aumentar  as multidões de pequenos e magros fantasmas a perambular  sem rumo e sem esperança no entorno dos restos da garimpagem , em busca de um "dente de jegue" que lhe possa mitigar a fome por algumas horas.
Esmeralda subiu a “serra”, com os olhos cheios de esperança...
__Cumigo, vai sê diferente! Eu juro, mãe! 
__Minha fia, Deus te proteja...

__ Ei, ocê ai....o que faiz nesse lugá, essas hora? Vai pra casa, anda!
Esmaralda virou-se, os olhos baços contornados por um círculo vermelho fitaram dona Tonha tristemente.  Amarrado  ao percoço trazia um cordãozinho barato de onde pendia solitário, sem brilho e sem verdor, como a própria dona, um “dente de jegue” trocado, enganadoramente, por sua juventude e inocência.

Glossário:
bagulho (baguio) - restos de lavra, cascalho imprestável, descartável.
dessarolhar (dissaroiar) - procurar, buscar
dente de jegue - pequeno pedaço de esmeralda sem valor.

Obrigada por esta avaliação...