Da mais alta janela da minha casa, com um lenço branco, digo adeus aos meus versos que partem para a humanidade. E não estou alegre nem triste; este é o destino dos versos [...]. Quem sabe quem os lerá? Quem sabe a que mãos irão? Fernando Pessoa.

Obs. usando a autonomia que a licença poética e a própria cultura brasileira me permitem, não adoto linearmente essa segunda outorga (arbitrária) da língua portuguesa.


sábado, setembro 29, 2012

Inconstante...(Guacira)

Bem o sabes
eu não sou céu
talvez o ar
inconsistente
e só meu suspirar
dará certeza que estou aqui
presente.
Tu
o inconstante mar
que no rugir da enchente invade a areia
que te recebe sempre branda
tentando segurar a maré cheia
Em cada gota tua
estou contida
pois ao invadir os arrecifes
te evaporas em suspiros
e de saudades
me transformo em novas gotas
e me recebes de volta
em teus braços
entre gemidos...

terça-feira, setembro 25, 2012

(Sub)urbano (Guacira )

E a marginália tropical
 não esperada
 inaceita
de identidade suspeita
sem esperança nem fé?
vivendo abaixo da linha
do Equador
 da pobreza
debaixo da linha do trem
sub urbano submundo que aos olhos da superfície
causa pesar profundo
só postas expostas aos olhos e às narinas
de delicadeza ferina
sem esperança nem fé...

segunda-feira, setembro 10, 2012

Inferioridade por outorga...(guacira maciel)

Creio que não existem acasos e que tudo tem uma lógica e uma razão na mágica de existir; que na Criação nada é aleatório, e que na vida há uma previsão maior de que os acontecimentos concorram para determinado fim, excluindo-se, obviamente, as ações decorrentes em linha direta do uso do “livre arbítrio” e até mesmo, como nos refere a Física Quântica, das possibilidades do observador. Por essa razão, creio também que algumas realidades precisam ser lidas de forma menos determinística na trajetória da evolução do mundo e das pessoas, aliás, para que essa evolução possa seguir seu curso, alguns mistérios e seus desdobramentos são passíveis de análise, estando entre eles a Justiça. Me refiro à uma Justiça muito mais ampla e profunda, e fonte dessa evolução.
Há poucos dias em uma conversa entre pessoas de muito bom nível cultural e de escolaridade, alguem relatava fatos de sua vida e fez, com muita convicção – e esperando das pessoas presentes anuência e admiração por sua tese - uma colocação que me causou surpresa...esperei que alguem mais se espantasse, porém senti que fora a unica incomodada, ou com coragem para questionar esta afirmação:
__ “ ...porque, é claro, na vida, uns nascem para usar o chicote e outros para apanhar...”
 Ouvir aquilo me incomodou profundamente e, embora correndo o risco de ser destratada, ousei contestar aquela teoria:
__ Então, para você, os seres humanos são reféns de sua condição material?...
Fui olhada com alguma surpresa pelo fato de ter ousado duas vezes: ter interrompido sua retórica e contestá-lo à frente dos ouvintes. Mas continuei: essa teoria estaria afirmando a vida como uma compulsoriedade; em ultima análise, uma visão elementar e primária da mais completa impossibilidade, que se impõe e contradiz, desde os princípios da Criação, da Justiça, até o mais simples pensamento de exercício e realização de democracia e dos direitos individuais, e até da própria realidade.  Considero esse pensamento de um primitivismo científico que vem, inclusive, contradizer as mais contemporâneas e comprovadas teorias. Sabe-se hoje, que o cérebro, até pouco tempo considerado a “caixa preta” da vida, tem uma extraordinária capacidade de reorganização, regeneração e reconstrução; que os próprios neurônios, numa  extraordinária demonstração de autonomia, podem se recompor através de um fantástico processo de religamento, até pouco desconhecido e inconcebível.
Nessa perspectiva, o ser humano e toda essa, ainda desconhecida sob determinados aspectos,  capacidade, seria perda de tempo! e, em sendo assim, aqueles que nascem com menor potencial físico, social, econômico ou financeiro, não teriam o direito – inalienável – de aprender, de avançar, de evoluir, de mudar essa condição primeira...
Percebendo que não fora entendida e que meu interlocutor não tinha a mínima disposição de avançar essa discussão, e que os presentes também não queriam se envolver, calei-me. Mas fiquei me perguntando onde estaria a justiça (bem mais rasa, claro) da vida? como uma cabeça que se diz pensante, é capaz de uma teoria dessas, e baseada em quais elementos a engendraria? qual o seu merecimento para estar na atual condição social?...então, alguns povos da Africa, como nos vem mostrando os “Médicos sem Fronteira” a toda hora na TV, o povo do Haiti, entre outros, nasceram para viver e morrer nas condições sub humanas que todos sabemos, sem os  mais elementares direitos como seres humanos? e nessa trajetória, os analfabetos, os doentes, portadores de deficiências, etc...teriam que viver em sua condição inicial, sendo garantida apenas a uma minoria todos os privilegios, acessos, direitos e possibilidades, inclusive, a essa altura, se confirmando o direito à seleção de pureza genética, etc, etc....significando dizer que o Universo poderá ser sacrificado e que somos todos ratos, cobaias engaioladas e alvo da genialidade daqueles que se consideram elite?...