Da mais alta janela da minha casa, com um lenço branco, digo adeus aos meus versos que partem para a humanidade. E não estou alegre nem triste; este é o destino dos versos [...]. Quem sabe quem os lerá? Quem sabe a que mãos irão? Fernando Pessoa.

Obs. usando a autonomia que a licença poética e a própria cultura brasileira me permitem, não adoto linearmente essa segunda outorga (arbitrária) da língua portuguesa.


sexta-feira, julho 20, 2012

Voltando a falar de aprendizagem (Guacira)

Hoje, a minha curiosidade e minha sede me levaram a refletir um pouco sobre “Dissonância Cognitiva”, porque tenho uma constante preocupação com a aprendizagem, já que sou educadora, e consciente do baixíssimo índice de aprendizagem, de fato, nas nossas escolas, apesar de todas as propostas...
Venho insistindo em buscar caminhos que me levem a entender o envolvimento do processo cognitivo na aprendizagem escolar ( mas não apenas) e a importância que o desvendamento desse mistério tem para mim.
Assim, estava refletindo sobre os conflitos que algumas vezes me atingem pessoalmente pelo fato de ter construído modelos, como todos os seres, fruto da minha experiência de vida sob todos os aspectos (educacionais, emocionais, psicológicos, culturais, amorosos...), ao confrontá-los com experiências que não os atendem.
Durante a infância/adolescência fui tímida e um tanto bucólica, totalmente diferente de minhas irmãs, que sempre foram arrojadas (eu diria). Meus projetos de vida eram modestos...nunca pensei, por exemplo, em escrever, em publicar coisa alguma. Nesse caminho é muito comum   lembrar, com saudade, de alguns hábitos dos meus pais, como, acordar bem cedo, quando a casa ainda estava envolta na penumbra do derradeiro estágio do sono profundo, para conversar ouvindo música, tomando o primeiro cafezinho, ou sentar em cadeiras de lona postas sobre a calçada à noite para conversar, enquanto nós, crianças, brincávamos ali por perto, fazendo algazarra com inocentes brincadeiras.
Porém, ao mesmo tempo em que amo essas coisas e tenho saudades, sou uma contumaz usuária da Internet, consumidora voraz de E-books, de sites de pesquisa e coisas assim, embora tenha um estímulo constante e fortíssimo, que é escrever - já disse Machado que “o autor é um reflexo do que lê”, e Saramago: "os autores são filhos de suas leituras” - o que, segundo os estudiosos do assunto, é fundamental nos casos da “Dissonância”, ou seja, ter um estímulo que faça com que ela se suavize diluindo os conflitos. Mas será que hoje existe alguém que não os tenha?
Essa teoria foi desenvolvida por Leon Fertinger em meados do século XX, e foi descrita como uma tensão que se estabelece entre o que se pensa e acredita, e o que se faz, o que significaria dizer que os comportamentos que estão em desacordo com as nossas demandas internas nos levam a embates íntimos. Porém, uma forma de reduzir o desenvolvimento da dissonância é buscar, por exemplo,  nas informações às quais temos acesso,  uma sintonia com o que pensamos ser adequado a nós, à nossa forma de pensar, de nos relacionar com a vida; os chamados modelos; estereótipos.
Então, em relação à aprendizagem, que é o meu maior interesse na questão agora, como todos construímos “modelos mentais” relativos a todos os nossos sentimentos, ações, comportamentos, inclusive à aprendizagem, quando uma informação recém adquirida se choca com esses modelos, acontece a dissonância cognitiva entre os dois, instalando-se uma necessidade de buscar restabelecer a coerência, a harmonia, que é uma atitude (decisão, ação...) complexa, que irá variar de acordo com o grau de tensão estabelecida com o choque.
Para reduzir o desconforto que ela traz, segundo essa teoria, pode-se tentar “substituir um ou mais modelos; buscar novas informações” [ ou informações complementares] que aumentem a consonância; alterar os pesos relativos em dissonância [ estabelecer um consenso] ou a relativização da nova informação”. Diante disso, o que me estimulou a aprofundar a questão, sendo educadora/professora, foi a compreensão de que, na aprendizagem ela - a dissonância - pode se configurar um instrumento que levará o estudante a reagir diante de um conhecimento novo e assim, a aprender, porque esse choque chama a atenção estimulando a imaginação. Porém, para haver uma acomodação é fundamental que o estimulo inicial se mantenha para favorecer a continuação da aprendizagem, sendo importante entender também que o uso dessa técnica sem os devidos cuidados pode levar ao cansaço por causa da tensão que se estabelece entre as duas situações.

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