Da mais alta janela da minha casa, com um lenço branco, digo adeus aos meus versos que partem para a humanidade. E não estou alegre nem triste; este é o destino dos versos [...]. Quem sabe quem os lerá? Quem sabe a que mãos irão? Fernando Pessoa.

Obs. usando a autonomia que a licença poética e a própria cultura brasileira me permitem, não adoto linearmente essa segunda outorga (arbitrária) da língua portuguesa.


quarta-feira, julho 11, 2012

Pobre São José!...(Guacira)

Do lado paterno descendo de conhecida família da Chapada Diamantina. José, meu pai não ao acaso, o mais positivo referencial masculino na minha vida como mulher, foi filho único de um segundo casamento do meu avô, que adiou um pouco realização do sonho de constituir uma família, em função da determinação de tornar-se um homem rico.
Nada sei a respeito do primeiro casamento desse avô, além do fato de não ter tido filhos, seu grande sonho, como também não sei se enviuvou ou separou-se da primeira mulher. Já avançado em anos, contraiu segundas núpcias; engraçado, que quando se fala de um primeiro casamento, diz-se: fulano casou-se. Porém, quando se trata do segundo casamento em diante, diz-se: contraiu; como se fosse um vírus de moléstia contagiosa, difícil de a gente se livrar. Será que casar uma primeira vez pressupõe algo assim, como ser inoculado por esse vírus que deixa a pessoa com uma tendência a casar sempre que fica só, como se estivesse contaminado inexoravelmente?
O fato é que meus avós casaram-se e, como ele era muito prático, o fez com separação de bens, por causa da diferença de idade até porque, ela também era rica por herança. Ele queria nem que fosse um filho e sua esperança se renovou; esse era o único desejo que a fortuna que conseguira com trabalho duro, força de vontade e disciplina não foram capazes de realizar, e precisava desesperadamente da parceria daquela jovem bonita e forte, mestiça de índio com português.
Após algumas tentativas abortadas e promessa a tudo quanto foi santo a cegonha anunciou sua chegada, e fizeram as contas:
___ A criança vai nacê no mês de S.José, disse a parteira da confiança da família.
___ A criança, não! Falou zangado futuro papai. O menino macho, e ele vai sê dotô, nem qui eu tenha qui comprá a carta pra ele; dinheiro num vai faltá!
___ Home, meu marido, deixa de reclamá! Agradece a Deus eu pudê pari e vamo mas é rezá pro menino, ou menina, vingá mesmo, retrucou sua mulher. Onde já se viu tanta isigênça, ninguém é dono do destino nessa vida!
___ Ta bom mulé, fica calma, vocês vão vê o qui tô dizendo. Agora cuida de comê muito, pra ele nacê grande, porque vai vingá e sê consagrado a S.José, e enquanto nois e ele vivê, nesta casa vai se rezá o Ofício pra agradecê.
Respondeu ele.
__ E tem mais: ele vai sê Imperadô do Divino!
Pronto! Sobrou pra todo mundo, até pra mim que não prometi nada.
Essa conversa aconteceu lá pra agosto, mas ele já começou a bajular o santo a partir daí. Chamou a empregada, de anos, e disse:
___ Maria, arranja um altá bem bonito na sala dos santo só pra S.José!
Depois saiu e trouxe uma bela imagem que já pertencia à família e que chegou com grande honraria ao lugar que ocuparia por muitos e muitos anos naquela sala. E toda vez que passava em frente àquela porta dava uma piscadela pro santo, com todo respeito, morto de medo que ele decidisse não ajudá-lo. Porém, em sua placidez de pai de família, não é que S. José ajudou mesmo e a gravidez foi adiante? O danado do velho, por via das dúvidas, contratou especiais serviços do Dr. Felício, providenciando muita cachaça, porque quanto mais bêbado, melhor o médico trabalhava.
___ Dotô, quero que todo dia o sinhô vá vê minha mulé lá pras onze hora, depois de uma cachacinha, porque não quero que nada dê errado, viu?
___ Está bem, está bem, eu vou, homem! pode ficar sossegado, que sua esposa está em boas mãos.
___ Ah!... Eu acho bom mesmo; pra isso lhe pago bem e ainda lhe encho o rabo de cachaça.
Muitos anos mais tarde, o formidável rebento – meu pai –contou-nos em um dos seus momentos de “colhuda”, como diziam meus irmãos, que um dia, o doutor, que ele já alcançara muito velho, mas ainda se encharcando, estava numa roda de amigos no bar e viu um trabalhador braçal descarregando um caminhão com grande peso sobre a cabeça e disse, já bêbado:
__ Meu filho, venha cá! Não tire de uma vez esse peso da cabeça, porque você morre.
O mastodonte, junto com todos os presentes, deu uma estrondosa gargalhada e jogou todo o peso que carregava ao chão de uma só vez, caindo morto imediatamente. Foi um Deus nos acuda, e o doutor, feliz por ter sua competência comprovada mais uma vez, disse:
__ Eu avisei, eu avisei... e foi embora cambaleando.
Voltando à história de S.José, lembro-me de sempre ter ouvido dizer que meu pai e meu avô morriam de medo de não cumprirem, por algum impedimento aleatório à sua vontade, o que haviam prometido ao santo e ele resolvesse retirar sua proteção por pura vingança, e também ouvia minha mãe dizer quando se aborrecia com meu pai:
__ Este ano eu não rezo o Ofício, você vai ver!
Nossa! Era o mesmo que decretar sua sentença de morte. Ele dizia, arregalando os olhos azuis:
___ Pelo amor de Deus, mulher, não brinque com isso! Faça qualquer coisa comigo, mas rezar o Ofício é sagrado; é minha vida! E ela ria, dizendo que ia pensar no caso dele.
Na verdade, essa devoção compulsória durou toda a sua vida e parou por aí. Hoje, a imagem do santo, para mim uma maravilhosa obra de arte do século XIX, que foi doada em vida a meu filho, Fábio, primeiro neto e muito amado, protege graciosamente (nada lhe prometi) minha casa e, a julgar pelo eterno e plácido sorriso, aliviado por não mais ser pivô de contendas familiares.

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