Da mais alta janela da minha casa, com um lenço branco, digo adeus aos meus versos que partem para a humanidade. E não estou alegre nem triste; este é o destino dos versos [...]. Quem sabe quem os lerá? Quem sabe a que mãos irão? Fernando Pessoa.

Obs. usando a autonomia que a licença poética e a própria cultura brasileira me permitem, não adoto linearmente essa segunda outorga (arbitrária) da língua portuguesa.


terça-feira, julho 31, 2012

Nossas histórias...(Guacira)

A minha história é contada através dos meus textos, porque eu sou ela; nós somos a nossa história; nós e os fios que usamos para construir as nossas vidas. São o que temos de nós mesmos; do que somos. Elas explicam, um pouco que seja, as posturas que adotamos diante da vida; as nossas reações diante dos fatos; dos desafios; dos sofrimentos; dos nossos medos.
   A minha vida não foi nem é perfeita, mas entendo que tive sorte e a melhor de todas as razões; o mais importante referencial; o texto mais bonito: a história dos meus pais, transformado no fio mais consistente que serviu de suporte à trama da minha própria vida (do meu texto): o amor.  
   Peço desculpas se sou contraditória, mas aqui não cabem julgamentos; só  analisar e rever posturas diante das suas próprias vidas.
   Por certo uma bela ou feia história não deverá servir de desculpa para todas as nossas atitudes. Se, realmente, todos os filhos de criminosos também fossem criminosos, viver perderia o sentido.
   Creio na vida, no amor, nas pessoas; não somos um fato consumado; somos imperfeitos, somos incompletos, ainda bem! A vida é algo vivo, dinâmico; portanto , passível de ser modificada. Temos grande quinhão da nossa história, do nosso texto, sob a nossa responsabilidade nessa construção e podemos, sim, lançar mão de fios novos e fortes para (re) construir (tecer) sua urdidura e sobre ela (re) escrever um belo texto; um texto nosso e novo, selecionando os melhores fios antigos que pudermos.
   Preciso  e venho contando essa história, não como verdade, mas como forma para identificar raízes remotas sobre o amor, suas motivações mais íntimas e necessidades, comportamentos diante da constatação de inutilidade das nossas vontades e seu controle, desvios dos padrões em relação a outros sentimentos que o permeiam, formas diferenciadas de amor e de amar e as consequências de tudo isso.
   Vem se constituindo um debate íntimo a análise dessas contradições, para as quais não tenho nem terei respostas. Não gostaria de ser submetida a um patrulhamento por parte dos intelectuais, dos psicólogos e grandes pensadores, porque a arte não pretende comprovar verdades. Gostaria de ser lida e incitar o debate entre pessoas comuns, essas... consideradas ingênuas, que, como eu, se deixam inocular, se deixam afetar por sentimentos simples.
   Não creio existirem fórmulas para debater essas questões, porque cada um terá seu jeito próprio de amar e de pensar o amor; esse é o meu. Ao expor minha visão sobre o amor, não tenho uma finalidade prática imediatista, mas sim, estabelecer o espírito de comunhão, que, aliás, se constitui uma das funções da arte.  O meu discurso é muito mais poético, graças a Deus. Espero que as pessoas possam ler o que escrevo, porque preciso de outros olhares e referências para minhas análises; preciso continuar. Preciso que entrem na minha pele, na minha cabeça e procurem entender, não as minhas razões e questionamentos, mas as suas próprias. Sei que cada um que leia essas reflexões terá um olhar e um sentimento sobre tudo isso e depois sobre o seu próprio sentimento e assim, poderá refletir sobre a possibilidade de aceitação intima, intrínseca da diversidade dos textos e texturas, pelo exercício de percepção do diferente e possam também estabelecer elos para a comunhão.
    Escrevo  para falar do que sinto, vivo e percebo, com o objetivo de estabelecer essa comunhão, partilhando as minhas experiências, embora ao fazer isso, interprete e subjetive. Entretanto, entendendo a vida como um paradoxo, tão vulnerável, tão cheio de brechinhas, que a princípio a gente nem percebe, pode ser que um dia eu escreva ficção. Embora mesmo a ficção tenha  a sua gênese numa, pelo menos, verdade ou necessidade íntima.
   Dizem que os poetas fingem; não entendo assim. Os poetas não fingem; eles têm o dom de revelar o que está sob um véu, de torná-lo presente e passível de ser compreendido. Os poetas transcendem e transitam naturalmente em diferentes dimensões sem perceber seu tempo, representante de realidades múltiplas, errantes e simultâneas; eles transitam nas dimensões que dividem o tempo, bagunçando limites e sobrevivendo num "entre-lugar". Para o poeta o infinito é o aqui e agora, porque é agora que seu coração pulsa, que seu corpo lateja e isso transcende o tempo, fendendo suas fronteiras com a força de um azougue. “A arte é um modo extraordinário de ser real”( não sei quem disse isto).
   Numa crônica que vocês não conhecem, falei sobre a universalidade comparando uma verdade matemática (concreta) e uma verdade subjetiva; retorno aqui e vocês poderão saber do que falei. O amor e a lógica matemática são, ambos, verdades universais; entretanto, em um poema falo de forma a que cada um que o leia, embora percebendo que falo do amor, vá fazer relações e reflexões a partir da sua verdade íntima (tenha sido bom ou ruim, como experiência) e aí tenha a oportunidade de perceber, na diversidade, a mesma coisa universal. A matemática, acho que só posso entender de uma forma, ou não resolvo o problema - e nunca resolvi, mesmo... - sempre fui péssima nisso; por esta razão, e este é o problema: razão – nunca consegui resolver um deles sequer, na aula de matemática. Sempre se constituíram uma tortura para mim.
   O amor, não; lançamos mão de simples atitudes, simples gestos e os transformamos em coisas significativas, em atitudes grandiosas; belas. É como se ao tecer (ou escrever um texto) com simples cordões, ou fios crús, tenhamos a capacidade de transformá-los em fios de ouro, brilhantes, cheios de luz.
Em todas os meus textos contadas aqui ou em meus livros se identifica essa possibilidade, configurando essas relações que procuro estabelecer entre tecer uma trama enquanto base - sustentação - elaborar o pensamento para construir um texto, e os sentimentos, tendo o amor como resultado elaborado, mas que poderá ser afetado por outros fios que poderão já ter pertencido ou ainda façam parte de outro texto. Também poderíamos estabelecer elos entre as próprias histórias relatadas, mas proponho isso como exercício.
   Parece que o ato de fiar, como o de criar um texto, ou sentir amor, tem algo a ver com, simplesmente, sair da realidade cotidiana e percorrer caminhos etéreos, elaborar com o imaginário. Partimos do real – fazemos parte dele, somos ele – desaparecemos, mergulhamos em outra dimensão e retornamos com o resultado: o novo texto.
   Discordam de mim? Como classificariam as histórias contadas nos poemas e outros textos? Sou ingênua? Pensam diferente de mim?

2 comentários:

O Sibarita disse...

Ô Moça Guacira, e quem não é ou nunca foi contraditório que atire a primeira pedra! Aiaiaiia... kkkk

Todos somos! Nós não somos perfeitos e ainda que fóssemos, de alguma forma seriamos à luz de alguns dos nossos interlocutores...

Seus textos são o ouro da bibilônia, faça fé!

O Sibarita

O Sibarita disse...

Ô Moça Guacira, e quem não é ou nunca foi contraditório que atire a primeira pedra! Aiaiaiia... kkkk

Todos somos! Nós não somos perfeitos e ainda que fóssemos, de alguma forma seriamos à luz de alguns dos nossos interlocutores...

Seus textos são o ouro da bibilônia, faça fé!

O Sibarita